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Entrevista

José Bonifácio de Oliveira Sobrinho

Estão errando nos telejornais

Estão errando nos telejornais

Eliane Lobato
Edição 03.03.2017 - nº 2464

A sala de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, 81 anos, o Boni, revela seus focos. Uma tela permanece ligada na TV Vanguarda, uma afiliada da Rede Globo no interior de São Paulo, da qual é dono e presidente. Ali também ficam espalhados  livros, fotos de famílias e amigos e revistas da escola de samba Beija-Flor, na qual desfila. Uma enorme janela mostra o mar do Leblon, onde fica seu escritório, na zona sul do Rio de Janeiro, e acalma o espírito: é navegando em sua lancha que costuma desanuviar as tensões. Informações sobre São Paulo passaram a fazer parte deste ambiente desde que aceitou ser conselheiro da Secretaria Municipal de Cultural: “Eu largaria tudo o que estou fazendo para tocar o instituto de educação e cultura que o (prefeito João) Dória (PSDB) planeja criar”, diz. Também analisa a queda de audiência de programas como Jornal Nacional e Fantástico: “As reportagens estão longas demais”, diz.

O sr. teve queda de pressão durante este carnaval ?

Tive, mas já passou. Estou falando com você agora (quarta-feira 1º, 13h) da minha lancha, em Angra (dos Reis, no estado do Rio), onde estou pescando e bebendo cerveja. Quer coisa melhor do que isso?

Qual é a sua opinião sobre os acidentes com carros alegóricos nos desfiles da Marquês de Sapucaí, no Rio?

Acho que o reaproveitamento de carros alegóricos, devido ao corte nos orçamentos das escolas, em geral, pode propiciar coisas assim. Sugiro duas ações importantes: que seja obrigatório um laudo técnico de engenheiros para cada carro que for desfilar e que estes carros tenham freio, o que não existe. Vale lembrar que eles não são dirigidos por motoristas, porque não existem motores, e sim por manobristas e empurradores. Ou seja, são movidos por empurrões, sem possibilidade de freios.

O sr. sugere alguma outra mudança no carnaval do Rio?

Eu consegui este ano uma coisa importante: derrubar a passarela da televisão no Sambódromo, que foi colocada abaixo e teve outra provisória, mais alta. Também conseguimos reduzir de 82 para 75 minutos o tempo de apresentação. Falta mudar o Sambódromo, que tem recuo de bateria errado, tinha que estar no meio e não no fundo. Mas isso não dá para consertar. O (arquiteto Oscar) Niemeyer (1907-2012) pegou o Sambódromo de madeira, que era um porcaria, e passou para esse de concreto (inaugurado em 1984), igual. Ele não teve tempo de conversar com as pessoas das escolas, saber como funciona. Fez isso porque o (Leonel) Brizola (1922-2004) era governador e tinha pressa, mas não deu certo. Então, a ideia é fazer um novo Sambódromo, na Barra da Tijuca talvez. Parece um absurdo, mas é necessário.

Os produtos culturais estão em transformação. A revista americana “Vanity Fair” disse que Hollywood caminha para acabar já que as pessoas não querem mais sair de casa para ver filmes. O sr. acha isso possível?

Acabar não, mas vai modificar. Em vez de produzir filmes de duas horas, talvez Hollywood tenha que produzir de 30 minutos, ou capítulos de seis minutos para aplicativos. Mas os grandes provedores de informação e entretenimento, como o “New York Times”, o “Washington Post”, a “TV Globo”, vão continuar existindo. O que vai mudar é a distribuição e o espaço. E os eventos permanecerão na TV aberta, como jogos de futebol, Olimpíada, novela.

Por que programas jornalísticos, como o Jornal Nacional, registram queda de audiência?

Estão errando. Nos Estados Unidos, os telejornais são diários oficiais. O sujeito viu algo na internet, mas ele não confia totalmente, quer ter certeza se é verdade e busca a televisão. Aqui, o cara assiste o JN na intenção de saber o que aconteceu na greve do Espírito Santo, mas a reportagem entrevista um sujeito envolvido, a mulher que estava não sei onde, a filha da mulher… O espectador não aguenta. Ele só quer saber se é verdade ou não. O JN teria que ser hard news, diário oficial, só para confirmar. A opinião e o aprofundamento da notícia ficariam para outros produtos, como o Jornal da Globo, que não devia ser tão tarde, e programas de entrevistas, que estão faltando. Sabe qual é o problema? Perderam o ponto final. Isso acontece também com o Fantástico, que começa uma reportagem e não termina mais. Não pode pegar o assunto da seca e terminar em quem é São Pedro.

Por que estabeleceram este padrão?

Para encher linguiça. A matéria mais longa ocupa espaço mais barato. Mas cansa o cara que assiste. Nosso telejornal especula a notícia até o fim, está errado. Isso deve ser feito em outro horário. O número de assuntos tem de ser maior e a apresentação mais rápida. O melhor jornalista não é o especialista em determinado assunto, é o que escreve ou apresenta o maior número de assuntos. Os jornais americanos têm um apresentador só. Sabe por quê? Para evitar sorrisinhos, perda de tempo. Não tem matéria sobre o (Donald) Trump que chegue a falar se ele pinta o cabelo, se engoma, quem é o cabeleireiro dele. Não dá para fazer esse troço, não dá.

O Boninho, seu filho e diretor de programas da Rede Globo, ousou ao trocar o carismático Pedro Bial por um novo apresentador, o Tiago Leifert, no comando do Big Brother Brasil. O sr. aprovou esta mudança?

Acho que a TV Globo está fazendo um esforço muito grande de renovação, e tiro o chapéu para isso. Agora, não impede de eu olhar tecnicamente. O Tiago está se dando bem, mas acho que aquele lugar é para alguém mais velho e experiente, que inspire o psicólogo amigo, o paizão. O Bial encarnava isso muito bem. O Tiago é novo para ser paizão da turma. E ficou faltando a poesia do Bial.

Seu filho aceita bem as críticas?

Quando nos encontramos, não falamos sobre críticas ou elogios. De vez em quando, eu brinco com ele, que está na faixa dos 55 anos: ‘Boninho, quando eu tinha 37, já era diretor dessa coisa toda aí….’ Ele ri e diz: ‘Era outra época.’

O sr. continua trocando informações estéticas com amigas, como a apresentadora Marília Gabriela?

A Marília é minha amiga, e se cuida, como eu. Mas só eu tenho CRC, dado pelo Conselho Regional de Charlatanice (risos). Desde os tempos da TV Globo, eu era o ‘médico’ de plantão. Adoro medicina. Tudo o que faço em estética é com base nos exames de sangue. Se estou precisando de vitamina B3 ou magnésio, tomo os complementos. Não saio adquirindo todos os produtos caros do arsenal estético que existe hoje. Não quero fazer o xixi mais caro do mundo, quero só ter saúde e boa aparência. ‘Creminho’ não funciona, o que funciona são remédios. Para o cabelo ficar mais escurinho e não precisar pintar, por exemplo, eu tomo estimulante para melanócitos. Sou ‘branco pra diabo’, me exponho ao sol e faço limpeza da ceratose (lesão pré-maligna) depois. Saúde é o mais importante.

O sr. tem medo de morrer?

Não. Até já inventei minha morte por acidente e meu velório era um Gurufin (funeral festivo na cultua negra) na Cidade do Samba (no Rio). Fiz um capítulo sobre a minha morte no livro Unidos do Outro Mundo (Estação Brasil). Gosto de Gurufin, mas não tenho intenção alguma de morrer.

Como avalia a experiência de conselheiro da secretaria Municipal de Cultura de São Paulo?

É muito bom trabalhar com um comandante de verdade, um líder não ditatorial. O Dória (João Dória Jr., prefeito de São Paulo) tem esse comando forte e essencial. Ele está oferecendo um modelo para o País, um conceito de administração que recuperou a questão de urgência. Estou muito entusiasmado.

Por quê?

O Brasil vive uma democracia que é inteiramente errada. Uma presidência de coalizão – não é presidencialismo liberal e nem parlamentarismo. Não acho que seja ideal, o País fica refém dos partidos, que são em número absurdamente grande. Nós fizemos um País primário, ideologicamente republicano, mas na prática é feudal, vive preso a diferentes feudos. Entendo, neste modelo, que o governo atual tenha que nomear um ministro da Saúde que não tem nada a ver com saúde. Precisamos de reformas urgentes. Junto com a Lava Jato, temos que limpar este país, e começar de novo. Eu acho que o Dória representa essa ideia de um País onde os assuntos são resolvidos de um jeito moderno, rápido. Então, quero colaborar com ele. Brinco dizendo que a única incompetência dele é ser santista…

Há novidades sobre questões polêmicas como a mudança de local da Virada Cultural Paulista e a cobertura dos grafites?

Sim. A Virada não será mais realizada em um local só; será em vários bairros e não haverá mais shows com cachês altos – o que vai gerar uma economia de 80% a 90% nos custos. A ideia é dar palcos para pessoas novas se apresentarem, expor o que a cidade tem: a orquestra sinfônica de São Paulo, a de Guarulhos, as bandas locais e os grupos teatrais experimentais. Sobre os grafites, entendo que houve um erro de comunicação aí. Se dependesse de mim, mandava chamar todos os grafiteiros, diria que os lugares que estavam com os desenhos descascados não poderiam ficar assim, e perguntaria se os próprios autores gostariam de refazer. De baixo para cima, entende? A intenção de livrar a cidade dos pichadores é fundamental porque eles depredam o patrimônio público. Mas o que mais me fascina nada tem a ver com polêmicas.

O que é?

Tem um projeto excepcional de um grande centro de educação voltado para a cultura, na linha do museu Smithsonian (Washington, EUA, criado em 1840). A base é ter um museu aberto com todas as atividades artísticas e culturais, escolas de formação, com certificados e não diplomas. Sem vestibular, basta ter talento. Com cursos de habilitação para teatro, balé, restauradores de pintura, música popular e clássica. Eu largaria tudo o que estou fazendo para tocar esse projeto. Não posso falar muito, mas deverá chamar Instituto Paulista de Cultura. O Smithsonian nasceu com um lema que eu concordo: cultura não é produzir alguma coisa; é massificar a informação. Eu vim de classes muito baixas e sei o valor de encontrar portas abertas, ter acesso.

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