Edição nº2476 26.05 Ver edições anteriores

Estancar a sangria é quase impossível

Quais quer que tenham sido as causas do desastre aéreo que matou Teori Zavascki e outras quatro pessoas na quinta-feira passada, uma coisa é certa: uma parcela expressiva da população brasileira jamais se convencerá de que foi um simples acidente, uma vez que o ministro estava prestes a homologar as delações da Odebrecht em um dos maiores escândalos de corrupção da história, com potencial para implodir toda a elite política brasileira.

Por isso mesmo, o governo Michel Temer agiria bem se não demonstrasse pressa em indicar um sucessor para a vaga, deixando que o próprio Supremo Tribunal Federal escolha ou sorteie o novo relator da Lava Jato. Como Temer e diversos de seus ministros são citados nas delações das empreiteiras, seria conveniente cuidar ao menos das aparências, num momento em que o Brasil está perplexo com uma tragédia que acrescenta pitadas de realismo fantástico ao colapso político e econômico do País.
A intenção de Teori era dar publicidade aos depoimentos dos 77 delatores da Odebrecht, assim como de outras empreiteiras que negociam seus acordos, como Andrade Gutierrez e Camargo Corrêa. Se o STF quiser de fato honrar a memória do ministro, essa seria a melhor saída, pois só assim, com transparência total, será possível desmontar a tese de que tudo o que vem acontecendo no Brasil nos últimos meses não tem como objetivo maior “estancar a sangria” da Lava Jato, como disse o senador Romero Jucá (PMDB-RR).

É bem verdade que muitos dos 150 ou 200 políticos que serão atingidos pelas delações torcem pelo adiamento da homologação das delações, ou até pelo esquecimento do caso. Mas esse é um desejo impossível de ser atendido. Qualquer manobra que vise salvar a classe política deixará impressões digitais e contribuirá para um rebaixamento ainda maior da imagem do Brasil. Além do mais, será inútil, uma vez que os 77 delatores da Odebrecht já prestaram seus depoimentos iniciais e só teriam de confirmá-los nessa etapa final. Ou seja: se alguém quiser estancar a sangria, tudo vazará instantaneamente.

O mais provável é que o luto com a morte de Teori e os trâmites internos do STF adiem a homologação das delações por uma ou duas semanas. Mais do que isso, será um tiro no pé da classe política e do próprio Poder Judiciário.

A melhor saída é dar transparência total às delações da Odebrecht para honrar a memória de Teori Zavascki


Mais posts

Ver mais