Cultura

É proibido proibir

Com aval da Justiça, biografia não autorizada de Caetano Veloso perfaz cronologia da vida e dos bastidores da carreira do artista — sem se aprofundar na análise de sua obra

É proibido proibir

IMAGEM Caetano em 1979, durante ensaio na casa da fotógrafa Thereza Eugênia: expressão de uma era

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A OBRA “Caetano: uma biografia – A vida de Caetano Veloso, o mais doce bárbaro dos trópicos”. Selo Seoman, do Grupo Editorial Pensamento, 544 páginas, R$ 59,90. Lançamento em 3 de maio no Rio de Janeiro

Aos 74 anos, Caetano Veloso ainda é uma das celebridades mais influentes do Brasil. Com uma singular carreira que percorre um arco de seis décadas, o baiano nascido em Santo Amaro da Purificação reinventou o cancioneiro nacional ao compor e interpretar músicas que sobrevivem com a aura de clássicos atemporais. Transcendendo a condição de artista, o filho mais abusado de Dona Canô se ateve desde cedo à condição de personalidade provocadora, um transgressor nato que iria interferir de forma profunda na vida cultural do País.

Figura-chave do movimento tropicalista que sacudiu a MPB no final dos anos 1960, Caetano apresentou programas de TV (em duas oportunidades, primeiro ao lado de Gilberto Gil, depois com Chico Buarque), dirigiu um longa-metragem
(“O Cinema Falado” em 1986), escreveu seu livro de memórias (“Verdade Tropical”, 1997) e publicou ensaios (“O Mundo não É Chato, 2005). Biografar alguém dessa envergadura, que continua vivo, produzindo e causando, é por si só uma tarefa hercúlea. Para completar, o irmão leonino de Maria Bethânia é sabidamente uma das figuras mais narcisistas do meio artístico brasileiro, capaz de reagir de forma irascível quando confrontado com críticas a seu trabalho, suas opiniões e até as roupas que veste.

Autorização

Pois nada disso impediu os autores Carlos Eduardo Drummond e Marcio Nolasco a dedicar quase vinte anos a um exaustivo trabalho de pesquisa cujo resultado chega às livrarias na primeira semana de maio. Em 544 páginas, “Caetano — Uma Biografia” (Seoman) retrata de forma cronológica a trajetória do compositor de “Alegria, Alegria” desde antes de seu nascimento até 2016. “Foi um quebra-cabeça insano”, diz Drummond. A pesquisa começou em 1997 e foi interrompida em 2003, quando uma primeira versão do texto estava pronta. Quando pensavam que a obra ficaria para sempre engavetada, uma decisão do Superior Tribunal Federal liberando a publicação de biografias não autorizadas trouxe um novo ânimo. A pesquisa foi retomada, os autores fizeram novas entrevistas e atualizaram o texto final.

O termo “biografia não oficial” significa que o biografado não a encomendou e nem interferiu sobre o que está escrito. Isso não quer dizer que ele a desautorize. Os autores entrevistaram Caetano mais de uma vez e garantem que ele sempre teve uma atitude positiva quanto ao livro, entendendo se tratar de uma obra independente e sobre a qual ele não poderia ter qualquer controle. Apenas as imagens, tanto da capa quanto internas, precisaram
de autorização.

Os Autores Marcio Nolasco (à esq.) e Carlos Eduardo Drummond: falta de uma biografia de Caetano estimulou a dupla a trabalhar no livro por 20 anos
OS AUTORES Nolasco (à esq.) e Carlos Eduardo Drummond: falta de uma biografia de Caetano estimulou a dupla a trabalhar no livro por 20 anos

Por retratar alguém que teve a maior parte da vida seguida muito de perto pela mídia, o livro não prima pelas revelações surpreendentes. O que ele faz é detalhar episódios conhecidos, como os tempos que Caetano passou na cadeia ou em Londres. Situações polêmicas, como as poucas experiências com drogas (lança-perfume na adolescência, maconha e ayahuasca no final dos anos 1960) que resultariam em total aversão e no apelido “Caretano”, surgem com certa superficialidade. “No nosso entendimento, um assunto só deveria ser aprofundado se fosse fundamental para compor o perfil do biografado”, diz Drummond. Tal opção resulta em uma neutralidade excessiva.

“As portas da percepção estavam abertas e começava a sua viagem. (…) Ao fechar os olhos, pontos de luz colorida surgiam aos borbotões e dançavam sem parar” Trecho do livro que relata uma experiência de Caetano com a ayahuasca

Embora o livro seja rico em informações que permitem compreender melhor o ambiente e as pessoas envolvidas na formação do artista, falta uma visão mais analítica das atitudes de Caetano e do impacto de sua obra. Um evento decisivo como a histórica performance de “É proibido proibir” no Festival Internacional da Canção de 1968, quando ele passou um sermão na plateia, não mereceu no livro espaço maior que o de bastidores das gravações de um disco sem grande repercussão.

A narrativa cronológica, que simplifica o entendimento de uma vida complexa como a de Caetano, tem como efeito colateral uma certa monotonia — algo bem diverso da natureza intempestiva do biografado.

“Caetano é cada vez mais complexo”

Carlos Eduardo Drummond fala sobre os desafios de escreveu a biografia não autorizada de Caetano Veloso

Poeta, compositor de sambas enredo e funcionário público federal a serviço da gerência de livros da Funarte, no Rio de Janeiro, Carlos Eduardo Drummond não se considera um biógrafo., Ainda assim, passou 20 anos envolvido com a pesquisa e a escrita de “Caetano – Uma Biografia”, livro que lança na primeira semana de maio em parceria com Marcio Nolasco.

ISTOÉ – Por que dedicar 20 anos a pesquisar a vida e a obra de Caetano?
Drummond – Foram 20 anos não ininterruptos. Houve um período intenso, de 1997 a 2003. Depois de 2015, com o pronunciamento do STF (permitindo a publicação de biografias não autorizadas) fizemos uma revisão minuciosa. Quando começamos, eu tinha 20 e poucos anos. Sentíamos uma carência de biografias longas de nomes importantes da MPB. Pensamos no nome do Caetano e nos lançamos ao trabalho. Não imaginávamos o longo percurso que teríamos pela frente.

O que houve em 2003 para pensarem a desistir?
Com um personagem como ele, ou se faz algo profundo ou é melhor desistir. Nós perseveramos mesmo depois de imaginar que o projeto precisaria ser engavetado em função do fato de ser uma biografia não autorizada e do entendimento que a Justiça tinha na época. Cheguei a ficar deprimido com essa possibilidade. Mas nunca me conformei com a ideia de desperdiçar tanto tempo – o nosso e de entrevistados, como Chico Buarque, Bethânia e outros que não estão mais vivos. A importância de o livro vir a público para nós era tão grande que seria uma injustiça deixar isso tudo para trás.

Vocês entrevistaram o Caetano?
Nós conseguimos entrevistar o Caetano. Sabíamos que ele deveria ficar para o final, para as perguntas que só ele poderia responder. Antes disso, outras pessoas que havíamos entrevistado ajudaram a formar uma imagem positiva do nosso trabalho. Ele nos disse claramente que o livro era nosso e deu liberdade. Não houve desautorização da parte dele.

Em algumas passagens há a impressão de que vocês tentaram evitar assuntos polêmicos…
O debate que surgiu em 2013 foi entre o direito à privacidade e o direito à liberdade de expressão. No nosso entendimento, se o assunto fosse importante para o suficiente para compor o perfil do biografado, deveria entrar no livro. A gente não entra em detalhe muito analítico.

O que o livro traz de novo?
Tivemos acesso a muito material inédito. O livro coloca numa tacada só desde a origem dele, antes mesmo de nascer, até 2016. Caetano é cada vez mais complexo. Ele se enriquece continuamente.

Serviço:
“Caetano – Uma Biografia: a vida de Caetano Veloso, o mais doce bárbaro dos trópicos”, de Carlos Eduardo Drummond e Marcio Nolasco. Selo Seoman (Grupo Editorial Pensamento), 544 páginas, R$ 59,90
Lançamentos com noite de autógrafos:
03/05, às 19 horas, na Livraria da Travessa/ Shopping Leblon – Av. Afrânio de Melo Franco, 290 – Leblon, Rio de Janeiro/RJ;
06/05, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional – São Paulo, horário a confirmar;
10/05 Livraria Saraiva Salvador Shopping – Salvador, às 19 horas

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