Edição nº2487 11.08 Ver edições anteriores

É hora de cortar o cheque especial

Qual é teto dos seus sonhos? Para os sem-teto, qualquer um que os proteja da chuva é bem-vindo, seja um viaduto, uma ponte ou uma marquise. Os moradores das favelas se abrigam sob folhas de amianto e sonham com as telhas de cerâmica, que esquentam menos. Há quem prefira a sombra de uma laje e o sol por cima a secar roupas e embalar churrascos nas folgas do trabalho. Quem pode morar em casas e apartamentos almeja um pé direito alto, desses que dão frescor e imponência ao ambiente. Lustres de cristal de Murano fazem a cabeça de quem vive em mansões e decora seus tetos pensando na Capela Sistina. O conceito de um belo teto, portanto, depende do dinheiro disponível para gastar.

Quem não poupa e sonha mais alto do que pode pagar pede emprestado para alguém – um parente, um agiota ou um banco – e manda fazer, deixando a conta para o futuro. Com o Brasil, nossa morada, não é diferente. E a casa caiu: o governo não tem dinheiro para bancar todas as despesas. Faltam R$ 170 bilhões nesse ano. Cobrir esse rombo parece fácil: basta lançar títulos públicos, pegar a grana dos investidores e tocar a vida. Infelizmente, essa é uma saída socialmente injusta e insustentável em longo prazo. Com a dívida cada vez maior e a arrecadação cada vez menor por causa da recessão, os tais investidores cobram caro para emprestar ao governo. Temem que o Tesouro Nacional sofra a mesma situação de insolvência de alguns Estados quebrados, como Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. A salgada conta dos juros sempre acaba nas costas de toda a sociedade. Crédito caro e escasso não é coincidência, é consequência.

Se o ímpeto perdulário dos governantes não for contido, o rombo fiscal aumentará a desconfiança econômica e se transformará em inflação, o pior de todos os impostos. Nós, os ricos, temos acesso a investimentos sofisticados e, se a inflação subir demais, protegeremos nosso dinheiro, como nos tempos do overnight e da conta remunerada. Aos pobres, só restará ver o poder aquisitivo derreter. No fundo, a Proposta de Emenda à Constituição 241, que impõe limites ao crescimento dos gastos públicos, vai definir a qualidade do teto de todos os brasileiros nas próximas décadas. Se nada for feito para equilibrar as finanças do governo, a concentração de renda irá aumentar. Que tal exigir dos governantes que gastem melhor os recursos públicos, em vez de aumentar seus limites de “cheque especial”?

Se o ímpeto perdulário dos governantes não for contido, a inflação crescerá.
Nós, os ricos, protegeremos nosso dinheiro. E os pobres?


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