Edição nº2475 19.05 Ver edições anteriores

Devemos tolerar o intolerável?

As ideias ordinárias do americano Donald Trump são intoleráveis. A retórica fascista da francesa Marine Le Pen é intolerável. A disposição bélica de Kim Jong-un, o ditador da Coreia do Norte, idem. O político que pilha o Estado, também. O racista, o canalha, o malfeitor, todos eles merecem a fogueira da intolerância. Mas essa não é uma questão de merecimento. Apenas isso não basta. É preciso incomodar, afrontar, açoitar o intolerante. Com os intolerantes, não há ponto de equilíbrio. Ou você o ataca ou ele o destrói.

Em um artigo excepcional que integra o livro “A Intolerância”, publicado no Brasil pela Editora Bertrand, o ex-ministro da Suécia Per Ahlmark lança uma questão que serve para o nosso tempo. Segundo ele, o mundo democrático demorou tempo demais para confrontar Adolf Hitler diante dos sinais que vinham na Alemanha. Em 1935, ou 4 anos antes do começo da Segunda Guerra, Hitler reiniciou a produção de armamentos e restabeleceu o serviço militar obrigatório no país, medidas que desrespeitavam o Tratado de Versalhes. Ele mostrava, a partir dali, quais eram as suas intenções. Mesmo assim, a Europa democrática e os Estados Unidos, as forças capazes de impedir o avanço do líder alemão, nada fizeram. Em 1939, a Alemanha invadiu a Polônia e o resto da história não precisa ser contada.

Não quero dizer que os arautos da democracia devem declarar guerra aos Estados Unidos de Trump ou à França de Le Pen, caso ela seja eleita no ano que vem, mesmo porque seria estúpido afirmar isso. O que não podemos é ter tolerância com essa gente. É preciso maltratar os intolerantes, mas usando os fóruns adequados. As tribunas das Nações Unidas são um caminho para os governantes de outros países atacarem os desvios que Trump eventualmente venha a cometer. As ruas também têm papel vital na defesa dos valores democráticos, e nisso os americanos deram um exemplo logo depois da eleição de Trump, quando milhares de pessoas saíram de casa para gritar contra o novo presidente.

E há a imprensa. Nos Estados Unidos, ela é mais combativa do que condescendente e não deixará que a mão pesada do presidente aniquile valores construídos há pelo menos 229 anos, desde que a Constituição americana foi promulgada. Trump venceu a eleição, mas enfrentará dura resistência daqui por diante. Que o mundo não tolere a sua intolerância.

É preciso afrontar, açoitar o intolerante. Com os intolerantes, não há ponto de equilíbrio. Ou você o ataca ou ele o destrói


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