Edição nº2493 22.09 Ver edições anteriores

De volta para a estatística

Nereu entrou em casa com cara de poucos amigos.
Nem pegou a cerveja.
Sentou à mesa de jantar antes de assistir ao jornal.
Zelina achou melhor não criar caso.
– O jantar ainda demora um pouquinho – arriscou para ver se arrancava um boa noite.
Nada.
Pelas dúvidas serviu uns pãezinhos cortados, de mimo.
Zelina sentou a seu lado e colocou a mão sobre a do marido.
– Que houve Nereu? Que cara é essa?
– Nada não, coisa minha. – desconversou.
– Vai Nereu, se abre comigo. Que que foi?
– Ah mulher é que… eu arrumei um emprego.
– Que notícia boa! – festejou Zelina.
– Boa notícia para quem? Só se for pro Temer.
– Para você, para mim, para a família, ué?
– Boa notícia nada, Zê. É registrado. – lamentou o marido.
– Nossa! Melhor ainda!
– Melhor? Mas em que mundo você vive, mulher? É CLT entendeu? CLT! Tem mais de 30% de imposto de cara! No holerite. Isso fora os descontos de Vale Refeição, Vale Transporte, Plano de Saúde, sindicato. Fora o dízimo que vamos ter que voltar a pagar!
– Mas e o salário pelo menos, é bom?
– O dobro do emprego antigo.
– Nereu, que ótimo!
– Ótimo para você que é dependente no meu IR, né? Com a porcaria desse salário eu caio numa outra alíquota com desconto maior ainda.

– Você sabe o que tem que fazer, né Nereu? – pragmática.
– O que?
– Demissão, ora.
– Você acha?
– Claro. Mas olha lá, hein! Com justa causa, senão eles te seguram no aviso prévio

– Nereu, pensa, você saiu da estatística do desemprego.
– Perdemos o seguro desemprego e agora vou ter que bater cartão todo dia. Adeus pros meus bicos, tudo por fora, sem nota, dono do meu próprio nariz, empreendendo. Lá vai ser horário fixo, registrado. Melhoramos no que?
A filha entra na sala.
– Por que vocês tão brigando?
– Não é briga não, meu amor – despista a mãe. – É o seu pai que arrumou emprego, não é ótimo?
– Oi?! Emprego? Como assim, pai? – em evidente desespero adolescente.
– Como assim o que? – Zelina pergunta, atordoada.
– Mãe, os pais de TODOS os meus amigos estão desempregados, entendeu? O que eu vou dizer na escola? Que o meu pai é o bacana? Que é o diferentão? Pai, você não pensou em mim antes de arrumar esse emprego?
Na verdade não tinha pensado.
Nem na filha, nem em ninguém.
Muito menos em procurar emprego.
Foi sem querer.
Quando foi mandado embora do último emprego, feliz com a notícia, nem reparou quando autorizou o RH a mandar seu nome para algumas agências.
Um processo de seleção automático e Nereu estava empregado de novo.
– Vocês querem o que? Acabar com minha vida social, é isso? – a filha, aos prantos, se trancou no quarto batendo a porta.
Nereu olhou para a mulher com os olhos mareados.
– E agora Zê? O que vai ser da gente?
Zelina, finalmente, tinha entendido a gravidade da situação.
– Você sabe o que tem que fazer, né Nereu? – pragmática.
– O que?
– Demissão, ora.
– Você acha?
– Claro. Mas olha lá, hein! Com justa causa, senão eles te seguram no aviso prévio e você não pode dirigir nem o Uber!
– Ah Zê, o que seria de mim sem você, hein?
A mulher agarrou a mão do marido e prometeu:
– A gente vai sair dessa juntos.

 


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