Paulo Moreira Leite
Diretor da Sucursal da ISTOÉ em Brasília, é autor de "A Outra História do Mensalão". Foi correspondente em Paris e Washington e ocupou postos de direção na VEJA e na Época. Também escreveu "A Mulher que Era o General da Casa".

A CPI DO MAU NEGÓCIO E O MAU NEGOCIO DA CPI

No debate sobre Pasadena, o maior destaque fica por conta das repentinas juras de amor da oposição pela Petrobrás

 

 

Marcelo Zero (*)

 

Todos os dias, empresas fazem maus negócios, que dão prejuízos. Todos os dias, firmas vão à falência. Nos períodos de bonança e crescimento, muitas empresas lucram bastante fazendo apostas altas nos mercados. Nos períodos de crise, muitas simplesmente desaparecem para nunca mais serem vistas.

Isto se chama capitalismo. O capitalismo implica riscos. Muitos e graves riscos. Há nele uma “destruição criativa”, como dizia Schumpeter, que torna o ambiente dos negócios algo muito mais próximo ao rio de Heráclito que ao ser imutável e imóvel de Parmênides.

Nos períodos de crescimento, tem-se a impressão que os bons negócios são sólidos e vão durar para sempre, ainda que sejam, muitas vezes, meras bolhas alimentadas por ambição desmedida, conveniente cegueira de longo prazo e ausência de regulação estatal. Já nos períodos de crise, como dizia outro filósofo, tudo que é sólido se desmancha no ar.

Pasadena se desmanchou no ar, não há dúvida. De acordo com Graça Fortes, o negócio teria dado um prejuízo a Petrobras de aproximadamente US$ 500 milhões. É bastante, ainda que seja uma cifra bem inferior aos quase US$ 2 bilhões alegados pelos críticos da Petrobras.

Entretanto, se subirmos corrente acima o rio de Heráclito, chegaremos à conclusão que, em 2006, ano em que foi decidida a compra da refinaria, o negócio era, sim, muito bom. Com efeito, havia na época um “boom” do refino nos EUA. As margens de lucro estavam altíssimas, turbinadas por um consumo doméstico de refinados que chegava a 9,5 milhões de barrias/dia. Muitas empresas, não apenas a Petrobras, estavam de olho nesse gigantesco e lucrativo mercado.

Mas não era apenas a perspectiva de grande lucro que motivava a Petrobras. Em 1999, no governo FHC, a empresa havia traçado uma estratégia de negócios que colocava o refino de nosso óleo pesado no exterior como uma das suas prioridades. Na época, ainda não tínhamos o óleo leve do pré-sal, que é bem mais fácil de processar.

Pasadena, bem situada no corredor de Houston e com uma capacidade instalada de 100 mil barris/dia, era uma boa aposta para processar o óleo pesado do pós-sal, principalmente do poço de Marlim, e vender, com lucro muito alto, os refinados no mercado norte-americano. Com isso, a nossa conta de petróleo tenderia a ficar superavitária, pois venderíamos refinados, de valor agregado bem mais alto, no exterior.

E não era apenas Pasadena. Naquele período, impulsionada pela estratégia traçada no governo tucano, a Petrobras comprou as refinarias de Baia Blanca, e San Lorenzo, na Argentina, e a refinaria de Okinawa, no Japão. Observe-se que, de acordo com o sindicato dos petroleiros, em suas transações com a Repsol, na Argentina, o Brasil entregou 3 bilhões de dólares e recebeu 750 milhões de dólares. Um prejuízo de mais de US$ 2 bilhões, quatro vezes maior que o de Pasadena. Porém, essa transação desastrosa não merece, misteriosamente, nenhum comentário da mídia.

No entanto, coerentemente com aquela estratégia traçada no governo tucano e com as condições do mercado da época, tomou-se a decisão de comprar Pasadena. Mesmo com as cláusulas Put Option e Marlim, inexplicavelmente ocultadas do conselho da empresa e explicavelmente inseridas no contrato com a Astra, já que se destinavam a compensar o fato de que a Petrobras teria efetivo poder de mando na refinaria, o negócio tinha boas perspectivas de dar certo.

As perspectivas eram muito boas não fosse um detalhe: a crise internacional, que tomou todo o mundo de surpresa e derrubou, entre muitas outras coisas, o mercado de refino dos EUA. Assim, o problema essencial de Pasadena não foram as cláusulas Put Option e Marlim ou eventual ato de corrupção de diretor da Petrobras, mas a ausência de uma “cláusula Parmênides”, que assegurasse a imutabilidade das condições da economia mundial.

Caso as condições do mercado de refino tivessem permanecido semelhantes às de 2006, ninguém estaria hoje falando de Pasadena, a não ser para elogiar uma decisão estrategicamente acertada. Pasadena já estaria “no lucro”, a Astra não teria abandonado o negócio e a presença de uma refinaria da Petrobras nos EUA, mesmo após a descoberta do pré-sal e da mudança da estratégia da empresa, não seria questionada.

Ante isso, pode-se questionar para que serviria uma CPI que tem como ponto central o mau negócio de Pasadena? Será que tem alguém beócio o suficiente para acreditar que a compra de Pasadena e o mau negócio que ela se tornou resultaram de meros atos de corrupção? É possível que sim, pois reina no Brasil do denuncismo certo reducionismo moral, que pretende explicar todos os problemas do país com base na corrupção e no malfeito.

Entre os Azande, povo africano estudado pelo famoso antropólogo Evans –Pritchard, todos os infortúnios se explicavam pela bruxaria. No Brasil de hoje, todos os problemas se “explicam” pela corrupção. Até mesmo um negócio mal sucedido.

Não que atos de corrupção e de má-gestão não possam ter ocorrido, no caso ou na empresa. Mas atribuir-lhes, de antemão, centralidade é, no mínimo, um exagero “azandeano”. Além disso, a Petrobras já é objeto de inquéritos internos e da própria Polícia Federal. Quem tiver de ser punido, que seja.

Não obstante, essa metafísica da corrupção, quando aplicada à Petrobras em pleno período eleitoral, talvez esconda interesses mais terrenos e menos moralizantes.

Em primeiro lugar, há o óbvio interesse em desgastar o governo Dilma e a candidatura da presidenta, que permanece à frente das pesquisas. Com seu preciso “timing” eleitoral e sua vaga metafísica, a CPI se tornaria palco de inúmeras ilações e denúncias, devidamente potencializadas pelo maior partido de oposição do país.

Em segundo lugar, e menos óbvio, há também o interesse altruísta de livrar a Petrobras do fardo de ter de explorar o pré-sal. Por isso, crescem na mídia as matérias e reportagens patrioticamente dedicadas a mostrar uma Petrobras à beira da falência, ferida de morte por suposta má-gestão típica de uma estatal assediada pela política. Estratégia antiga e marota, que deu certo na época das privatizações.

Não comove os altruístas e patriotas o fato da Petrobras, como bem demonstrou Graça Foster no Senado, ser empresa sólida, com crédito no mercado, desempenho extraordinário em prospecção, expertise única em águas ultraprofundas e excepcionais perspectivas de médio e longo prazo, já que dispõe do pré-sal, enormes megajazidas de óleo leve, num mundo em que há carência de descobertas de novas jazidas, a não ser as de sujo óleo de xisto.

Talvez aconselhados pelos mesmos gênios que apregoam a volta das medidas impopulares, de saudosa memória, esses abnegados senhores desejem o retorno do modelo de concessão, instituído nos tempos de FHC e substituído pelo modelo de partilha, nos tempos de Lula. Nesse modelo de concessão, as jazidas passariam a pertencer às empresas que vencem os leilões e a Petrobras ficaria alijada da exploração conjunta. Exxon, Chevron, Shell, et caterva, agradeceriam esse gesto de grandeza. A União faria um caixa rápido para ampliar o superávit primário e a Petrobras acabaria transmutando-se na tão sonhada Petrobax.

É claro que, neste cenário, a Petrobras seria, agora sim, ferida de morte. A cadeia do petróleo sustentada pela empresa, inclusive a indústria naval, ressuscitada nos governos Lula e Dilma, também. E a alavancagem do desenvolvimento nacional e da educação brasileira pelo pré-sal seria convenientemente esquecida na névoa do denuncismo metafísico.

Assim, a CPI do mau negócio tende a se transformar num mau negócio para o país.

E não se enganem com as juras de amores à Petrobras por parte daqueles que pretendem imolá-la no altar das disputas eleitorais e achincalhá-la no vórtice das ilações e das denúncias vazias. O depoimento de Graça Fortes no Senado, no qual alguns inquisidores se referiram à empresa como “abismo moral”, “quitanda” e outras elevadas expressões, é somente uma prévia do que vem por aí.

Afinal, no caudaloso rio de Heráclito, há coisas que aqui permanecem tão imutáveis quanto o ser de Parmênides. Duas se destacam: o entreguismo e a cara de pau.

 

Marcelo Zero é formado em Ciências Sociais pela UnB e assessor legislativo do PT 


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