Edição nº2493 22.09 Ver edições anteriores

Bravo, Bravíssimo

O título que encabeça esse artigo é inspirado num show homônimo estrelado por Dercy Gonçalves no início da década de 90. Anos mais tarde, o espetáculo converteu-se num especial de TV sobre a vida e a carreira da atriz até virar samba enredo de escola de samba. Dizia o refrão: “Bravo, bravíssimo! Mil aplausos pra você, Dercy. Ao retrato de um povo a homenagem da Viradouro”.

Mas não tomei emprestado o vocativo e seu superlativo absoluto sintético para aludir a Dercy, merecedora dessas e tantas outras homenagens. E sim para tecer loas a Pedro Scudieri ou simplesmente Scudi. Estudante de economia, 23 anos, ele é integrante da Bravo 52, torcida pacífica do Fluminense fundada em 2009 com o objetivo de apoiar os 90 minutos, nas boas ou nas más. “Atrás do gol, a banda descontrolada”, descrevem eles próprios. São uns abnegados. O negócio deles é não parar de cantar. Seus hinos enaltecem o amor e a devoção ao clube. No lugar do clássico brucutu “vou dar porrada eu vou e ninguém vai me segurar (nem a PM)” entra a melodia cativante “eu vou cantar essa paixão que vem de dentro …” e “te amar é minha raiz estar ao seu lado é o que eu sempre quis”.

Embora sua alcunha, uma abreviação do sobrenome, seja homófona de um míssil balístico soviético derivado da Segunda Guerra, Scudi é um sujeito que faz jus ao lema de sua torcida. Um cara de bem com a vida, tranquilão. No domingo por volta de meia-noite, quando voltava para casa após assistir a Fluminense x Portuguesa, Scudi foi brutalmente agredido com barras de ferro na cabeça. Uma covardia inaceitável. Uma selvageria. Desde então, encontra-se internado na UTI com traumatismo craniano. Na segunda-feira, foi submetido a uma cirurgia. Seu estado ainda é grave.

Não podemos nos deixar anestesiar porque significaria uma rendição à barbárie

Não gostaria de estigmatizar os agressores, mas não há outro caminho possível. Não sei quem são as pessoas, o que fazem da vida, para qual clube torcem. Aliás, não os reputo como torcedores, termo criado, a propósito, tendo como inspiração as fãs do Fluminense que, na histórica, tradicional e centenária arquibancada das Laranjeiras, retorciam freneticamente seus lenços e luvas brancas em desesperada aflição em meio às encruadas pelejas no estádio. São uns monstros, na acepção da palavra. Seres torpes, vis, consumidos por uma cólera que só acomete os infelizes desprovidos de coração. A quintessência da mocidade perdida, pela qual chorava Cartola em “O Sol nascerá”. Para monstros brutais, no entanto, o sol deveria nascer quadrado.

Infelizmente, cenas como essas não são isoladas. Já foram incorporadas ao nosso cotidiano e não escolhe emblema. Não podemos é nos deixar anestesiar porque significaria uma rendição à barbárie. Os responsáveis precisam ser punidos e, se a violência estiver relacionada com o escudo ou a cor da camisa da vítima, como tudo leva a crer, que eles nunca mais ponham os pés num estádio de futebol. Condenados ao ostracismo da alma, ao vazio existencial, sobre o qual versava com desassombrada propriedade Gabriel Garcia Márquez, eles já estão. Ao bravo Scudi, força!


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