Comportamento

Bonecas do bem

Projeto de brasileiras reconhecido pela ONU cria brinquedos com enfermidades para amenizar a dor das crianças doentes e ajudá-las a enfrentar os longos tratamentos

Crédito: RENATO VELASCO

COMPANHIA João Paulo Silva Nascimento, 4 anos, que tem um rim atrofiado e faz hemodiálise: seu boneco também necessita de transplante (Crédito: RENATO VELASCO)

Como explicar para uma criança pequena que ela precisa passar quatro horas em uma máquina de hemodiálise três vezes por semana? Que isso acontece porque seu rim não funciona direito e ela está na fila para receber transplante de um doador? E quando ela lhe fala com naturalidade sobre o catéter, o tubo inserido embaixo de sua pele delicada, por onde é injetado medicações, como se fosse natural tê-lo na barriga? Essa é a situação de João Paulo Silva Nascimento, carioca de 4 anos e portador de um rim atrofiado, que começou a fazer hemodiálise aos 2 anos e 8 meses. João passa boa parte de sua vida na máquina e emociona a equipe que o assiste, além dos pais, que têm de lidar com suas perguntas. Desde o ano passado, o menino conta com a companhia de um amigo de pano que tem uma enfermidade idêntica a dele. A mãe, Jordânia, diz o quanto é importante um brinquedo “que fala a mesma língua” do filho. O boneco tem um buraquinho na barriga para que um rim, também de pano, seja inserido. “Ele tira, põe, tira, põe, tira, põe….Nessa brincadeira, vamos explicando o problema e o que um dia vai acontecer com ele, que é a cirurgia para transplante”, diz ela.

DOAÇÃO A museóloga carioca Fernanda Candeias, 61 anos, criadora do Bonecas de Propósito: a casa é a oficina para a produção dos brinquedos
DOAÇÃO A museóloga carioca Fernanda Candeias, 61 anos, criadora do Bonecas de Propósito: a casa é a oficina para a produção dos brinquedos (Crédito:RENATO VELASCO)

O brinquedo faz parte do projeto Bonecas de Propósito, que reproduz, por meio dos brinquedos, as doenças das crianças para ajudá-las a enfrentar os tratamentos – extremamente dolorosos, na maioria das vezes. A iniciativa acaba de ser escolhida pelo grupo Baanko Challenge como um dos três vencedores em uma seleção que obedece aos padrões da Organização das Nações Unidas (ONU) para escolher empreendimentos sociais. A ideia nasceu há dois anos com a museóloga carioca Fernanda Candeias, 61 anos, para que os pequenos pudessem compartilhar as dolorosas terapias com um brinquedo. “Imagino que, se eles puderem brincar com as suas dificuldades, talvez possam superá-las melhor”, afirma. No início, Fernanda fazia tudo sozinha em um dos três quartos de seu apartamento, no Leblon, zona sul do Rio de Janeiro. Hoje, conta com a ajuda de voluntárias e a produção, que era de uma dúzia por mês, se multiplicou para cerca de 250 por ano e invadiu os outros cômodos da casa. Uma das voluntárias, Sônia Campos, 76 anos, ajuda em duas frentes. “Eu junto moedas para a compra de caixas e também colaboro na feitura das roupinhas. É uma experiência muito gratificante.”

“Imagino que, se eles puderem brincar com as suas dificuldades, talvez possam superá-las melhor” - Fernanda Candeias, museóloga
“Imagino que, se eles puderem brincar com as suas dificuldades, talvez possam superá-las melhor” – Fernanda Candeias, museóloga

Há bonecas de cores de peles variadas para cada enfermidade e em versões para meninas e meninos. Doenças como câncer ou as que necessitem de transplantes de coração ou rim e deficiências como a auditiva ou lábio leporino estão no escopo de criações de Fernanda e da equipe. Protótipos para tratamentos devido a queimaduras ou que levem à amputação também estão sendo feitos. Toda a produção é doada a entidades como o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Pró Criança Cardíaca e a Fundação do Rim, no Rio, além do hospital filantrópico Centro Infantil Boldrini, em Campinas, São Paulo. As bonecas e bonecos destinados a quem enfrenta quimioterapia e, em consequência, perde os cabelos, são carecas. Mas têm perucas, chapéus, lenços, tudo o que faz parte do universo real do doente. Estatísticas dizem que o câncer infanto-juvenil é a primeira causa de morte por doença na faixa etária de um a 19 anos, no Brasil. “É um quadro muito triste, nosso objetivo é amenizar essa dor”, diz Fernanda.

Ana Motta, psicóloga e vice-presidente da Fundação do Rim, em Botafogo, zona sul carioca, realça a importância de brinquedos darem visibilidade a uma angústia infantil. “Muitas crianças fazem a diálise com a boneca na mão”, afirma. Às vezes, conversam com os amigos de pano e se consolam com o fato de eles também estarem doentes. “Tem uma função terapêutica muito importante”, diz a psicóloga. Fernanda lamenta que o mercado de brinquedos ainda trata as crianças doentes como invisíveis. Enquanto em outros países, como o Japão, organizações como a Second Life Toys investem em brinquedos que usam próteses ou têm cicatrizes, no Brasil os pequenos enfrentam suas longas enfermidades brincando com “seres perfeitos”. O Bonecas de Propósito pode ser um importante movimento para mudar este cenário.