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Áustria: o temor do neonazismo

Derrotado por apenas 30 mil votos, candidato da extrema-direita à Presidência reflete a ascensão do discurso xenófobo na Europa

Crédito: JOE KLAMAR/AFP PHOTO

INFLUÊNCIA Carismático, Nobert Hofer quer investir seus votos na escolha do novo chanceler (Crédito: JOE KLAMAR/AFP PHOTO)

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O exército do ditador nazista Adolf Hitler havia sido derrotado há poucos anos quando ex-soldados da SS (organização nazista paramilitar) e nacionalistas germânicos se juntaram para criar um partido político na Áustria. Ainda que o Partido da Liberdade tenha ganhado popularidade graças a um líder tão polêmico quanto carismático, por décadas a sigla viveu à sombra dos majoritários Social-Democratas, à esquerda, e Partido do Povo, à direita, que se revezavam na presidência do país. Na semana passada, essa situação se inverteu. O discurso xenófobo na boca de um engenheiro de 45 anos, que anda com a ajuda de uma bengala depois que sofreu um acidente de parapente, conquistou metade dos eleitores austríacos e por muito pouco – exatos 31.026 votos – Nobert Hofer não virou o novo chefe de Estado. O resultado final mostrou o ambientalista independente Alexander van der Bellen com 50,3% dos votos e Hofer com 49,7%. Os partidos tradicionais ficaram em quarto e quinto lugar.

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Apesar de o presidente da Áustria ter um papel mais cerimonial que executivo, a recente ascensão da extrema-direita ligada ao neonazismo provoca temor. Como Hofer mesmo disse na segunda-feira 23, há 11 anos o partido tinha apenas 3% dos votos. “Hoje um a cada dois austríacos nos escolheu”, declarou. “Os esforços mobilizados para essa campanha não foram perdidos, serão investidos no futuro.” Com a crise de refugiados deflagrada no continente no ano passado, os eleitores passaram a questionar a política de fronteiras da União Europeia e a integração de muçulmanos à sociedade ocidental. O apelo dos populistas também encontrou respaldo na classe trabalhadora e nos cidadãos menos educados, especialmente quando Hofer se posicionou contra o Tratado Transatlântico, um acordo de livre comércio que está sendo negociado entre Estados Unidos e União Europeia, dizendo que ele ameaçava o emprego dos austríacos. Em abril, o candidato chegou a ganhar o primeiro turno das eleições.

Seu desempenho segue o movimento de partidos da extrema-direita em outros países. Na França, Marine Le Pen, da Frente Nacional, aparece em primeiro lugar nas pesquisas de intenção para as eleições presidenciais de 2017. O partido “Alternativa para a Alemanha” conseguiu espaço nas eleições regionais de março mesmo depois que a líder Frauke Petry disse que policiais deveriam poder atirar em imigrantes ilegais na fronteira. Agora, Hofer quer transformar os votos que recebeu em apoio para a escolha do próximo chanceler austríaco, mas sua influência pode ser limitada. “Muitas pessoas usam o voto para presidente como protesto, escolhendo figuras alternativas”, escreveu em artigo Gustav Gressel, analista do European Council on Foreign Relations. “Como os riscos são maiores nas eleições parlamentares, candidatos pouco convencionais raramente experimentam o mesmo sucesso. Hofer serviu como um dedo apontado para o governo, mas poucos confiam nele para governar o país de verdade.”

A influência de Hitler

No pós-Guerra, a perseguição aos judeus propagada por Hitler se transformou em ódio direcionado às minorias em geral, como negros, homossexuais e muçulmanos. Os neonazistas defendem a construção de um Estado fascista, onde prevalecem o nacionalismo extremo e a intolerância. Alguns estudos indicam uma relação entre o aumento do desemprego na parcela mais jovem da população e a ascensão de partidos neonazistas na Europa.