Edição nº2467 24.03 Ver edições anteriores

Alma centralizadora

Não há nada mais velho no Brasil do que o “capitalismo de compadres”, o patrimonialismo, o uso da coisa pública para fins privados, alimentado pelo centralismo estatal. São males que nos acompanham desde sempre. Revolucionário em nosso País seria o liberalismo, que nunca nos deu o ar de sua graça. A mentalidade estatizante está enraizada, desconfiando de tudo que vem da iniciativa privada e delegando ao governo um papel de salvador da Pátria. Nesse aspecto, o Brasil se parece muito com a França. Esse centralismo, afinal, vem desde o Antigo Regime, e foi fortalecido pelos jacobinos e por Napoleão. Troca-se o inquilino do edifício, mas a alma permanece intacta.

Em sua análise dessa época, Tocqueville mostra como todo o arcabouço do centralismo estatal já estava presente no Antigo Regime, e foi apenas aproveitado pelos revolucionários. Os administradores concentravam absurdo e arbitrário poder. E como as regras eram muitas e rígidas, a saída era o “jeitinho”, uma prática frouxa. Os reformadores miravam em fins diversos, mas seu meio era sempre o mesmo: usar o poder central para colocar em prática seus planos pessoais. O poder do Estado deveria ser quase ilimitado. Se ao menos ele fosse utilizado de forma adequada…

A nossa esquerda parece ter se encantado com a globalização da noite para o dia. Mas é fachada: essa turma só odeia os novos inquilinos, Trump e Temer, mas adora a alma centralizadora e estatizante

“Ninguém imagina que possa levar a bom termo um assunto importante se o Estado não se imiscuir”, escreve Tocqueville. Mesmo os agricultores achavam que era preciso o governo atuar para “aperfeiçoar” seu setor, tanto por meio de conselhos como de auxílio. Tocqueville continua: “Tendo o governo tomado assim o lugar da Providência, é natural que cada qual o invoque em suas urgências particulares. Por isso encontramos um número imenso de requerimentos que, sempre se fundamentando no interesse público, dizem respeito entretanto apenas a pequenos interesses privados”.

Impossível ler essa passagem e não pensar na coluna do empresário Benjamin Steinbruch na “Folha de S. Paulo”. Nela, o acionista do Grupo Vicunha e da CSN defende uma participação mais ativa do Estado para salvar a indústria brasileira, como se não tivesse sido justamente o excesso de intervenção estatal o maior responsável pela crise. Câmbio manipulado, redução artificial na taxa de juros, seleção de campeões nacionais, estímulos fiscais, tudo aquilo que o PT fez, e gerou apenas desgraça, o empresário deseja rever. Os “progressistas” são tão modernos como os nobres do Antigo Regime francês! Ironicamente, quem também adota visão protecionista parecida é Trump, odiado por nossa esquerda, que parece ter se encantado com a globalização da noite para o dia. Mas sabemos que é pura fachada: essa turma só odeia os novos inquilinos, Trump e Temer, mas adora a alma centralizadora e estatizante de nosso País.


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