Comportamento

Alerta máximo

Suspeita de ataque do Estado Islâmico nos Jogos Rio-2016 e atentado na França fazem Ministério da Defesa revisar o plano de segurança para o evento esportivo

Crédito: REUTERS/Sergio Moraes

GUARDA Soldado em treinamento no Rio; patrulhamento intensivo faz parte do esquema de segurança montado para a Olimpíada (Crédito: REUTERS/Sergio Moraes)

PREPARAÇÃO Palestra antiterrorismo realizada em Belo Horizonte. Risco de ataque no período dos Jogos se estende a outras cidades brasileiras
PREPARAÇÃO Palestra antiterrorismo realizada em Belo Horizonte. Risco de ataque no período dos Jogos se estende a outras cidades brasileiras (Crédito:Carlos Alberto/Imprensa – MG)

O receio de que a Olimpíada Rio-2016 seja um alvo do terrorismo se tornou um medo concreto depois da revelação de que um brasileiro membro do Estado Islâmico estaria planejando um ataque à delegação francesa durante o torneio, o maior evento esportivo do planeta. E se intensificou ainda mais com o atentado na quinta-feira 14 de julho em Nice, na França, que matou dezenas de pessoas que comemoravam a Queda da Bastilha (leia na pag. 56). Chefe da Direção de Inteligência Militar da França, o general Christophe Gomart confirmou a informação do ataque aos franceses nos Jogos durante uma audiência no fim de maio, mas a notícia só veio a público na quarta-feira 13. O militar não entrou em detalhes sobre a identidade do extremista e nem sobre a sua localização, apenas afirmou que recebeu a pista de um serviço de informação de outro país. A denúncia aconteceu em meio às buscas por um ex-membro da Al Qaeda que entrou ilegalmente no Brasil em junho e pouco depois de a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) elevar o alerta de ameaça terrorista ao País durante os Jogos ao nível 4 (numa escala de 5). Diante da gravidade da situação, o ministro da Defesa, Raul Jungmann, disse na sexta-feira 15 que está trocando informações com a área de inteligência da Segurança Institucional e também com o Ministério da Justiça para readequar os procedimentos e protocolos de defesa, segurança e inteligência. “Nós vamos intensificar o sistema do controle de segurança. Teremos que aumentar o número de ‘checkpoints’, os pontos controles, além de outras medidas”, disse. Mais incisivo, o ministro do Gabinete de Segurança Institucional, Sérgio Etchegoyen, afirmou que o plano de defesa para a Olimpíada terá uma revisão e que “a população terá de trocar um pouco de conforto por muita segurança”. Os recentes acontecimentos deixaram as autoridades brasileira em estado de alerta máximo. E levantaram o debate se o País está pronto para debelar um eventual perigo.

SUSPEITO Ligado a Al Qaeda, Jihad Diyab é procurado no Brasil após entrar ilegalmente no País
SUSPEITO Ligado a Al Qaeda, Jihad Diyab é procurado no Brasil após entrar ilegalmente no País

Professor de política do terrorismo internacional da University of Central Florida e autor do livro “O Desafio Global do Terrorismo: Política e Segurança Internacional em Tempos de Instabilidade”, Marcos Degaut afirma que, ainda que historicamente o Brasil tenha um papel neutro na geopolítica do terror, os atentados desde 11 de setembro de 2001 mostraram que não há país imune. “Do ano 2000 a 2015, o número de nações atingidas dobrou de 30 para 60”, diz. Para Degaut, a Abin trabalha de maneira equivocada, pois enxerga eventuais ataques como atos de improviso, quando na verdade são arquitetados previamente. “Se um atentado estiver em processo de planejamento, os terroristas já estão no País há muito tempo e já sabem como e quando as Forças Armadas vão agir”, afirma.

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Uma série de indícios tem corroborado para a teoria de que uma ação pode ser praticada durante os Jogos, como a que foi alertada pela inteligência francesa. No começo de junho, a Polícia Federal indiciou Ibrahim Chaiboun Darwiche, morador da cidade de Chapecó, em Santa Catarina, por incitação ao crime, preconceito religioso e por violar a lei de segurança nacional ao postar na internet um vídeo em que defendia o ataque do Estado Islâmico ao jornal Charlie Hebdo, em Paris. No dia primeiro de julho, a companhia aérea Avianca lançou um comunicado interno alertando sobre a possibilidade de um terrorista sírio ter vindo para o Brasil. Apesar das evidências, o medo de um ataque não passa de alarmismo, segundo Reginaldo Nasser, professor de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). “Terrorismo no estilo do Estado Islâmico ou patrocinado pelo grupo tem o objetivo político de atingir um país envolvido em conflitos no Oriente Médio, como a França. Não é o caso do Brasil”, afirma.

No que toca à vulnerabilidade do Brasil, os especialistas consultados pela reportagem concordam: o País não está preparado para enfrentar uma eventual ação do terror. Em primeiro lugar, porque nosso controle de armas é altamente ineficiente. Em segundo lugar, e mais importante, porque para o enfrentamento de extremistas é preciso mais do que patrulhamento ostensivo nas ruas. É necessário haver uma agência de inteligência eficiente que monitore pessoas ligadas a grupos extremistas. Infelizmente, para os estudiosos, a Abin está longe de representar um serviço competente. “A questão principal é o que nós não temos: o serviço de inteligência. É a informação prévia que vai impedir um ataque”, diz Nasser. Procurada para comentar as críticas, a agência não respondeu à reportagem até o fechamento da edição. O Ministério da Defesa convocou 21 mil homens para a segurança da Rio-2016. Aumentar o policiamento, porém, não evitará tragédias. Segundo Degaut, embora a estratégia valha para os criminosos comuns, para os terroristas não. “É mais um motivo para que atentado seja cometido, principalmente para os grupos islâmicos, porque eles querem mostrar o que podem fazer em atos grandiosos.”

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