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CONFIANTE: O cienasta acredita que pode trazer 
o inédito Oscar para o Brasil: “o filme é bom”

Entrevista

David Schurmann

Ainda falta responsabilidade ao nosso cinema

Foto: André Lessa

Ainda falta responsabilidade ao nosso cinema

Por Celso Masson
Edição 04.11.2016 - nº 2448

Com o “Pequeno Segredo”, que concorre a uma indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, o diretor David Schurmann protagonizou a mais politizada disputa do cinema brasileiro. Ficção baseada numa história real, o filme polarizou as opiniões da crítica e de parte do meio cinematográfico com “Aquarius”, de Kleber Mendonça Filho, cuja equipe havia realizado um protesto contra o governo Temer no Festival de Cannes, na França. Em uma decisão apertada, “Pequeno Segredo” venceu “Aquarius” por cinco votos a quatro. “Chegaram a dizer que era ‘o filme do golpe’”, lamenta David. Nesta entrevista, o diretor de 42 anos, seis deles vividos a bordo de um veleiro, defende a reserva de mercado para o cinema nacional e afirma que o Brasil precisa aprimorar os mecanismos de financiamento do audiovisual. “Os cineastas devem ter responsabilidade pelo retorno dos filmes”, diz. “Pequeno Segredo” estreia em circuito nacional na quinta-feira 10.

Como você avalia a escolha de “Pequeno Segredo” para o Oscar?

Eu fiquei muito contente. O júri tinha uma figura polêmica (o crítico Marcos Petrucelli), mas havia outras oito pessoas com carreiras importantes no cinema, que conhecem o Oscar, como o Bruno Barreto e a Carla Camuratti. Quando abriram os votos, havia um balanço entre “Aquarius” e “Pequeno Segredo”. São filmes com linguagens completamente diferentes, mas os dois poderiam competir com chances.

Como você recebeu as críticas?

Eu não imaginava que qualquer outro filme que não fosse “Aquarius” levaria tanta porrada, a ponto de um crítico escrever que é o pior filme brasileiro dos últimos tempos. Aquilo foi um ataque político, não ao meu trabalho. Disseram até que era “o filme do golpe”. A gente também apanhou muito de uma pequena parte da classe cinematográfica. Mas logo em seguida a maioria veio em defesa do filme. Ficou claro que nem eu e nem o produtor, João Roni, tínhamos culpa por “Aquarius” não ter sido indicado.

A classe cinematográfica é muito desunida no Brasil?

Acho que existiu um momento de polarização, com dois ou três cineastas que sentiram as dores da exclusão de “Aquarius”, até por serem amigos do diretor. Tentaram me arrastar para dentro do ringue várias vezes. Eu achei deselegante quem bateu no meu filme sem ter assistido. Isso me incomodou. Depois, todo o resto da indústria passou a questionar o favoritismo de “Aquarius”. O filme havia sido selecionado para o Festival de Cannes, o que é maravilhoso, uma honra. Mas não ganhou nenhum prêmio lá. Isso não o desmerece, mas também não o torna a única possibilidade para o Oscar.

“Devemos dar dinheiro para filmes experimentais, que não têm como se pagar na bilheteria? Sim, da mesma forma que é preciso subsidiar uma orquestra sinfônica ou o carnaval de Olinda”
“Devemos dar dinheiro para filmes experimentais, que não têm como se pagar na bilheteria? Sim, da mesma forma que é preciso subsidiar uma orquestra sinfônica ou o carnaval de Olinda” (Crédito:Foto: Divulgação)

Os jurados disseram que seu filme reflete melhor o gosto da Academia. Você concorda?

Eu sempre acreditei muito nesse projeto, que começou há seis anos, mas não tinha ideia de qual seria a repercussão internacional dele. Na primeira projeção para um público estrangeiro, em Berlim, a gente começou a sentir que o filme poderia reverberar em outros países. Lá começaram a falar em Oscar.

Quais atributos ele reúne para ter chances?

Eu destaco quatro pontos. Primeiro: é baseado numa história real, algo que o Oscar valoriza. Segundo: é um filme de alta qualidade técnica. Terceiro: tem impacto emocional, mexe com quem assiste. Por último, é a história do diretor, o que na Academia é visto como positivo. Além disso, temos a Fionnula Flanagan, atriz que atuou em “Os Outros” e “Transamérica”.

A polêmica tira um pouco da emoção de ter sido indicado?

Eu pessoalmente não senti isso, mas algumas pessoas do elenco sim. A polêmica teve um lado bom para nós. O filme, que até então era desconhecido, de um dia para o outro estava na capa de todos os jornais do Brasil. Esperamos baixar a poeira para o filme poder falar o que ele é: um drama como o cinema brasileiro não faz desde “Dois Filhos de Francisco”, que conseguiu conversar tão bem com o público. Não é o pior filme de todos os tempos e nem o melhor. Mas é um filme bom. Se fosse mediano, a polêmica teria tirado todo seu brilho.

“Pequeno Segredo” narra uma história real da sua família. Por que você o considera um filme de ficção?

Trabalhando com meus pais, eu sempre procurei me distanciar, entender o Vilfdredo (pai de David) e a Heloísa (mãe) como personagens. Na história da Kat, a menina adotada por eles, eu achei que havia todos os ingredientes de um bom filme. Primeiro eu pensei em um documentário, mas meus pais disseram que não: “Essa história você não vai contar. Nós queremos manter esse segredo em família”. Eu respeitei essa decisão.

E o que mudou para que você pudesse fazer o filme?

A morte de Kat foi uma surpresa para nós, porque ela praticamente bateu o recorde de vida entre as crianças que nasceram com HIV naquele ano. Foi o momento mais difícil na nossa família. A Kat era o sol na vida dos meus pais. Minha mãe entrou em depressão profunda. Um psicólogo perguntou como ela havia lidado com os momentos difíceis no passado. Ela disse que gostava de escrever. Então ele recomendou que ela colocasse tudo isso no papel. Escrever foi uma catarse para ela. Eu sugeri publicar em livro, para ajudar mais as pessoas a compreender a dor da perda de um filho. Aí eu convenci meus pais a filmar a história da Kat, mas não baseado no livro.

Por quê?

Se eu fizesse igual, as pessoas iriam dizer para os amigos não assistirem, porque é muito triste. O livro vai até o último segundo da vida da Kat. O filme lida com a morte de uma forma poética. Coloquei os pontos reais para ser um drama forte, mas minha maneira de ver a Kat era de alguém que vivia num mundo de fadas. Eu quis contar a dor com beleza.

Como fazer isso?

A Kat era um ser solar. O filme tem brilho, foi filmado todo contra a luz. A direção de arte também foi desenhada para isso. Tivemos a sorte de poder contar com a Brigitte Broch, diretora de arte de “Moulin Rouge”, “Babel”, “21 Gramas”, “O Leitor”, e que foi indicada ao Oscar por “Romeu e Julieta”, com o Leonardo Di Caprio. Ela entrou na equipe porque o diretor de arte que estava trabalhando conosco foi chamado de última hora pelo José Padilha para fazer “Narcos”. A Brigitte leu o roteiro e quis me conhecer. Ela aceitou trabalhar por muito menos do que cobra normalmente. Montou toda a equipe dela aqui. . .

“As distribuidoras não queriam lançar meu filme porque a menina morre no final. Em ‘A Culpa é das Estrelas’ (foto) o menino também morre no final – e foi a maior bilheteria do Brasil em 2014”
“As distribuidoras não queriam lançar meu filme porque a menina morre no final. Em ‘A Culpa é das Estrelas’ (foto) o menino também morre no final – e foi a maior bilheteria do Brasil em 2014” (Crédito:Foto: Divulgação)

De que forma o fato de ter sido criado em um veleiro influenciou sua decisão de se tornar cineasta?

No ano em que eu nasci, meus pais decidiram dar a volta ao mundo velejando. Planejaram essa viagem por dez anos. Quando fizemos a primeira expedição, o único entretenimento que nós tínhamos era o cinema. Havia salas em todas as cidades onde parávamos. À noite, eu e meu irmão pegávamos o bote até a vila para ir ao cinema. Eu amava aquilo: a luz apagava e eu podia entrar em outros mundos. Aos poucos, as pessoas começaram a me dizer que a minha vida daria um filme. Depois, comecei a querer filmar a história da família. Fiz meu primeiro “curta-documentário” cruzando o Canal do Panamá. Quando chegamos à Nova Zelândia, em 1989, eu disse para os meus pais que iria estudar cinema.

O mecanismo da renúncia fiscal ainda é necessário?

Com certeza. Ainda não vi uma lei de incentivo ideal, mas existem mecanismos assim na França, na Alemanha, em quase todos os países. Só não existe nos Estados Unidos, em nível federal, mas agora todos os estados americanos estão oferecendo renúncia fiscal de 20%, 30% se você filmar lá. Nossa indústria está decolando. Acredito que deveríamos ter uma participação de mercado maior, que hoje está em 12%. Deveria estar em 25%, no mínimo. Na TV aberta o Brasil ocupa 80%. Nosso cinema tem que ter a responsabilidade de fazer filmes para as pessoas assistirem.

De que forma?

É importante ganhar dinheiro com o cinema, como fazem as comédias, assim como é importante viabilizar a produção de filmes de arte, que não trazem o mesmo público mas têm seu mérito. Eu acredito num caminho do meio, como foram “Cidade de Deus” e “Tropa de Elite”, que fez 16 milhões de ingressos. Temos quase três mil salas, precisamos ocupar esse mercado. Sem isso, não teremos uma indústria competitiva. Claro que sempre vai haver lobby. A Vera Cruz, que foi um estúdio maravilhoso, fechou por pressão dos Estados Unidos. Por isso as leis de incentivo são fundamentais, mesmo que algumas pessoas ainda digam que nós cineastas somos “vagabundos mamando nas tetas do governo”.

Existem abusos no uso das leis?

Com certeza, assim como existem em outras áreas — e nem é preciso ter uma lei para haver desvios nesse “Brasilzão”. Houve erros graves de gente que não sabia administrar o dinheiro captado. Ao mesmo tempo, eu acho que nós temos de rever as leis. Você não pode financiar 150 filmes por ano sem nenhuma responsabilidade. As produtoras estão preocupadas em ganhar dinheiro na produção, sem se importar com o retorno. Devemos dar dinheiro para filmes experimentais, que não têm como se pagar na bilheteria? Sim, da mesma forma como é preciso subsidiar uma orquestra sinfônica ou o carnaval de Olinda. Isso é importante para preservar a cultura. Mas, para fomentar de fato, precisa haver meritocracia.

A Ancine funciona?

Hoje a Ancine tem um papel fundamental como órgão regulador. Criou a alíquota de participação brasileira na programação da TV paga, que antes era toda empacotada. Mas eu sou contra ela ficar dando pitaco.

Você teve dificuldade para viabilizar o filme?

Todas as distribuidoras no Brasil diziam que não queriam se associar ao filme porque a menina morre no final. Até que encontramos uma empresa argentina que está há dois anos no País e que procurava filmes brasileiros para lançar. Fomos para Buenos Aires e, num almoço, fechamos o contrato. Naquele ano (2014) saiu “A Culpa é das Estrelas”, em que o menino morre no final, e que foi a maior bilheteria no Brasil. Eu falava “Tá vendo? As pessoas gostam de ver filmes assim”.


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