Edição nº2480 23.06 Ver edições anteriores

A agonia política de Temer

Na sua carreira política, Michel Temer nunca se destacou pela combatividade, muito menos pela oratória inflamada. Na última quinzena, após a divulgação dos documentos da delação dos controladores e diretores da JBS, o presidente mudou. Convocou a imprensa para diversas declarações, deu entrevistas, discursou em cerimônias públicas, foi incisivo, participou de uma maratona de reuniões. Seria louvável tal disposição para o trabalho se esse esforço estivesse vinculado à gestão presidencial, ao enfrentamento dos graves problemas nacionais, à mobilização da sociedade. Ledo engano. Temer passou a concentrar toda a ação política em um só objetivo: manter-se a qualquer custo na Presidência da República.

Não há precedente na nossa história de um presidente, em pleno exercício do mandato, ser investigado por três crimes: corrupção, obstrução à Justiça e formação de organização criminosa. E ter conversa gravada tratando de assuntos nada republicanos. Apesar disso, Temer insiste em permanecer na Presidência, mesmo sabendo que cometeu crimes. Não arreda pé do Palácio do Planalto porque sabe que sem o foro privilegiado poderá ser preso, hipótese remota, é verdade, mas que faz parte das alternativas legais. Por muito menos, o senador Delcídio do Amaral acabou sendo detido.

Deixando ainda mais complexa a conjuntura, parte de seus auxiliares estão envolvidos em diversas acusações de malversação dos recursos públicos. E, tudo indica, com a revelação do conjunto do teor das delações, ficará insustentável sua permanência à frente do governo. A OAB protocolou um pedido de impeachment na Câmara dos Deputados e o TSE, finalmente, vai julgar o processo referente à eleição de 2014.

Desesperado, Temer buscou auxílio até de José Sarney. De nada vai adiantar. A crise se agrava a cada dia. Manobras parlamentares e palacianas vão fracassar. É a agonia de um governo moribundo, que vai se extinguir muito antes do término do mandato. Sua permanência é uma anomalia. Prolonga a tensão política, joga água no moinho do PT e de seus asseclas, interrompe a aprovação das reformas e impede que a recuperação econômica possa se consolidar. A renúncia é o melhor caminho. É menos penoso. Mas Temer resiste aos fatos. Vai perder.

Não há precedente na nossa história de um presidente, em pleno exercício do mandato, ser investigado por três crimes: corrupção, obstrução à Justiça e formação de organização criminosa


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