Edição nº2479 15.06 Ver edições anteriores

A revolução silenciosa

Está na moda falar de mulher. Ainda bem! Mas nem tudo que se diz reflete o que de fato acontece com elas. Será que é mesmo impossível entender as mulheres? Perdoem, não resisti à piada machista. A leitura do comportamento feminino ainda está poluída. De um lado, pelo barulho das minorias e, de outro, pelo viés masculino da interpretação das evidências. Estou aqui para dizer que tudo que fazemos é perfeitamente compreensível para quem se dedica a prestar atenção. Uma revolução está em curso — e é silenciosa. Quieta como a maioria dos movimentos que, no Brasil, mudaram o curso da história das mulheres.

Sim, parece paradoxal, mas nosso passado recente mostra que a mulher média brasileira promove as mudanças mais radicais da maneira mais discreta. Não sai às ruas gritando palavras de ordem. Quando você vê, a coisa já está lá, prontinha. Foi assim com a taxa de fecundidade. Em 1960 era de mais de seis filhos por mulher. Em 2015 ela havia despencado para 1,7 filho. Ao mesmo tempo a escolaridade feminina, que em 1960 era de 1,9 ano de estudo em média, subiu para 8,2 anos em 2015. Elas pararam de ter filhos e passaram a estudar sem nenhum alarde. E isso mudou nossa história.

Agora parece estar ocorrendo a tal nova revolução silenciosa. A revolucão do empreendedorismo. Posso imaginar mil motivos para tal. A crise e o desemprego, é claro. Mas o movimento não é pontual. É consistente e já vem sendo medido. Segundo o Sebrae, em dez anos, de 2002 a 2012, o empreendedorismo entre mulheres cresceu 18% no Brasil. Entre os homens apenas 8%. Talvez elas estejam fartas do ambiente hostil nas corporações. Dados de outra pesquisa apontam nessa direção. Segundo a Rede Mulher Empreendedora (RME), 43% das empreendedoras abriram seu negócio depois da maternidade, quando fica mais difícil equilibrar todos os pratinhos.

Por fim, essa pesquisa da RME mostra que as novas mulheres de negócios estão buscando informação. Entre elas, 2/3 vão a eventos, palestras e encontros de empreendedoras. “Elas entenderam a importância do networking e da negociação para o crescimento dos negócios”, diz Ana Fontes, fundadora da Rede. E completa: “Elas empreendem não para seu próprio benefício, mas para o da comunidade, são idealistas, visam sim o lucro, mas também o bem-estar social”. Revolução é isso aí. Amém.

A mulher média brasileira promove as mudanças mais radicais da maneira mais discreta.
Não sai às ruas gritando palavras de ordem. Quando você vê, a coisa já está lá, prontinha


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