Copa 2010

Dunga no ataque

O que está por trás do estilo belicoso do técnico brasileiro, que aposta no conflito externo para manter seu grupo fechado e conquistar a torcida

Dunga no ataque

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Dunga vs. imprensa. Assista a trechos de entrevistas em que o técnico da Seleção demonstra seu destempero com a mídia

 

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Na manhã da segunda-feira 21, Dunga foi um dos primeiros a acordar no hotel The Fairway, a concentração da Seleção Brasileira em Johannesburgo. Havia dormido pouco, mas estava especialmente feliz. No dia anterior o Brasil fizera uma boa partida contra a Costa do Marfim e, com a vitória por 3 a 1, garantira a classificação antecipada para as oitavas-de-final da Copa do Mundo. Além disso, também no domingo, o técnico da Seleção Brasileira havia sido informado pela mãe, Maria, que seu pai, Edelceu Verri, finalmente deixaria o Hospital Unimed, em Ijuí (RS), após um mês de internação. Vítima de Alzheimer há quase uma década, Edelceu passara os últimos 30 dias entrando e saindo da UTI, por conta de infecções respiratórias e urinárias, complicações naturais de sua enfermidade, já em estado terminal. Até aquele momento, Dunga não fazia ideia de que os palavrões que murmurara após o bate-boca com o jornalista da Rede Globo Alex Escobar tinham sido captados pelo sistema de áudio da sala de entrevistas do estádio Soccer City. Quando foi informado da repercussão que o caso havia ganho, quase 12 horas após a discussão, assustou-se. Dunga sabe que chegou ao ápice de uma guerra pessoal que trava com a imprensa há 20 anos. Na noite daquele domingo chegara ao ápice também o estilo de comando que o treinador implantara na Seleção Brasileira desde que assumiu o cargo, em agosto de 2006. Depois do fracasso da Copa do Mundo da Alemanha, Dunga foi escalado por Ricardo Teixeira, presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), para colocar ordem na casa, trazer de volta a seriedade perdida em anos marcados por festas, indisciplina e uma boa dose de falta de respeito pela camisa que foi a segunda pele de verdadeiros mitos do futebol mundial. Fez o que deveria ter feito, é verdade. Mas pode ter errado na forma de fazer e foi além do que lhe pediram. Adotou uma postura ditatorial à frente do time brasileiro. Não permite contestações ou conselhos de pessoas fora de sua intimidade e só aceita, entre seus comandados, quem lhe demostra fidelidade canina. Para Dunga não há meio-termo. Ou se está ao lado dele ou se está contra ele.

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EM AÇÃO
Futebol discreto contra Costa do Marfim (acima) e Portugal (abaixo)
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Desde que chegou à África do Sul, Dunga se transformou em um Stalin do mundo da bola. Enclausurou os jogadores em uma espécie de gulag cinco-estrelas, partiu para o ataque contra a imprensa e simplesmente deixou de dar atenção às recomendações de seus superiores. Ali quem manda é ele, e apenas ele. “O homem enlouqueceu, está doido”, comentou com amigos o chefe da delegação brasileira e presidente do Corinthians, Andrés Sanchez. Irritado com o estilo adotado por Dunga, Teixeira tentou convencer o comandado a ser mais maleável. No dia seguinte à vitória do Brasil contra a Coreia do Norte, na terça-feira 15, Teixeira teria feito uma das poucas visitas à concentração desde que o time chegou à África. Segundo relatos de dirigentes próximos ao presidente da CBF, Dunga não deu ouvidos aos pedidos para que afrouxasse a clausura e diminuísse os ataques aos jornalistas. Oficialmente a CBF nega o encontro, mas confirma que desde a estreia Teixeira não foi mais ao hotel da Seleção. “Sabíamos quem era o Dunga, mas nunca íamos imaginar que ele fosse chegar ao ponto que chegou. Ele simplesmente está contra tudo e contra todos que pensam diferente dele”, conta um cartola que acompanhou de perto as negociações para o capitão do tetra assumir o time brasileiro.

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Quem conhece bem o cidadão de Ijuí Carlos Caetano Bledorn Verri, 46 anos, não se surpreende. “No colégio, ele já era teimoso”, conta o gaúcho Emídio Perondi, padrinho de nascimento e de casamento de Dunga. Sua esposa era diretora da escola que Dunga estudava e lembra da porção contestadora do menino. “Ele venceu no futebol por fazer as coisas da sua maneira. E não vai mudar”, diz Perondi. Mesmo conquistando quase tudo o que disputou na carreira, Dunga não se livra do rancor por ter sido crucificado na eliminação do Brasil contra a Argentina em junho de 1990. Focado nesse embate pessoal, sua porção vencedora deu lugar a uma outra: a de mau ganhador.

Sua descompostura ao proferir palavrões endereçados aos críticos enquanto erguia a taça do tetra, a deselegância ao cumprimentar o presidente Lula, que lhe desejava sorte na Copa, com a mão no bolso e cara de poucos amigos, e a agressividade com que atacou verbalmente um jornalista após a vitória contra a Costa do Marfim são episódios emblemáticos. “Isso tudo vai ter um peso na biografia do Dunga. Mesmo se conquistar o Mundial, ele será uma pessoa perdedora”, diz Paulo Vinícius Coelho, comentarista dos canais ESPN. Um amigo gaúcho do treinador do Brasil vai mais longe: “Pode apostar. Se ele ganhar a Copa, não duvido que irá embora da África sem dar entrevista.” O primeiro passo, Dunga já deu. Com o empate sem gols com Portugal na sexta-feira 25, ele classificou o Brasil para as oitavas-de-final do Mundial. O time, à imagem de Dunga, não foi brilhante mas cumpriu seu dever. Jogo no ataque, só fora de campo.

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Para vencer como técnico, Dunga se esforça tanto ou mais do que na época em que corria o campo atrás de jogadores habilidosos. Na África, tem sido obsessivo. Nos mais de 30 dias em que está no The Fairway, saiu do hotel apenas para jogar ou fazer treinamentos. Nos momentos de folga, convive pouco com os atletas, não participa das principais diversões dos jogadores, como o videogame, a sinuca ou o baralho. É sempre um dos primeiros a acordar e, a todo momento, está focado nos jogos seguintes. Ali na concentração, conversa com frequência apenas com Jorginho, seu auxiliar técnico, e Taffarel, o espião do time nessa Copa. Fora dela, somente os familiares de Ijuí recebem suas ligações. “Ele é isolado, só pensa em trabalhar, passa o tempo inteiro vendo vídeos dos outros times. Está obcecado em vencer essa Copa”, conta o empresário de um jogador enclausurado no The Fairway.

Dentro da concentração, um misto de respeito por sua fidelidade ao grupo e medo de suas atitudes intempestivas faz todo mundo rezar sua cartilha. Há quem discorde dos métodos de Dunga, mas, por conta de sua mão forte, as divergências nunca vieram à tona. Por ordem do treinador, ninguém pode conversar com nenhum jornalista fora das entrevistas coletivas. Nem mesmo profissionais como roupeiros, cozinheiros ou seguranças estão autorizados a ter contato com pessoas fora de seu convívio pessoal.

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“Dunga tem necessidade muito grande de controle, chega ao nível de uma paranoia”, diz João Ricardo Cozac, presidente da Associação Paulista de Psicologia do Esporte. “As atitudes do Dunga podem ter repercussão em maior e menor grau entre os jogadores da Seleção. Para atenuar essas reações, é preciso o grupo continuar ganhando”, avalia. “Se ele for um técnico que explode com os jogadores, a equipe pode se sentir mais vulnerável, insegura e ansiosa em campo. E o jogador ansioso tem mais dificuldade de tomar decisão”, corrobora o psicólogo Luciano Costa, que na semana passada concluiu sua tese de mestrado em psicologia do esporte pela Universidade de Brasília (UnB). Batizada de “Como Dunga Pode Levar o Brasil ao Hexa?” Para muitos, é essa influência, no aspecto negativo, que tem pautado reações intempestivas de jogadores normalmente pacatos, como Kaká, em momentos de tensão nos jogos e nas entrevistas. Contra a Costa do Marfim, embora com boa atuação, o craque brasileiro mostrava-se irritadiço, revidou às provocações do adversário e foi expulso pela primeira vez em sua história na Seleção. Contra Portugal, Dunga substituiu o volante Felipe Mello após o jogador receber um cartão amarelo, fruto de uma troca de entradas violentas com o português Pepe. E nos últimos 30 minutos o treinador expôs a todos grande irritação com o desempenho do time, gesticulando muito e gritando a ponto de ouvir, do campo, um pedido de calma do capitão Lúcio.

Fora de campo, Dunga isolou-se. Ricardo Teixeira já decidiu que, mesmo vencendo, ele não continuará no comando da Seleção. Na semana que passou, Teixeira precisou entrar em campo para tentar colocar panos quentes na guerra que Dunga declarou à Rede Globo. O próprio presidente da CBF procurou a cúpula da emissora para explicar que havia sido o técnico da Seleção quem proibira Luís Fabiano de dar uma entrevista exclusiva a Alex Escobar. Rodrigo Paiva, diretor de comunicação da entidade e homem de confiança do presidente da CBF também entrou em contato com jornalistas e diretores da emissora para aparar as arestas. Dias antes, Teixeira havia acordado com a mesma Globo que as entrevistas ocorreriam logo após as partidas em uma área alugada junto à Fifa dentro do estádio. Apenas emissoras com direito de transmissão podem ter acesso a esse espaço. Dunga acatou no primeiro jogo, contra a Coreia, e permitiu que Elano conversasse com a emissora. No segundo, vetou. “O Dunga não entende que futebol não é só jogadores e comissão técnica, há algo muito mais complexo envolvido”, diz uma pessoa próxima de Teixeira. “Só nesse time estão investidos mais de US$ 100 milhões por ano, dinheiro de patrocinadores que querem retorno e proporcionam toda a estrutura que ele tem na mão. É possível ganhar de forma diferente. Dunga não precisava adotar essa postura. Ele beira um caso patológico, psiquiátrico”, diz esse interlocutor do cartola.

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EU MANDO
Com Lula, na despedida, a mão no bolso indica desprezo pela autoridade alheia

Mas ao mesmo tempo que desagrada à aqueles ligados diretamente à Seleção, o discurso e as atitudes de Dunga reverberam junto à população brasileira. O tom de seriedade, de comprometimento, de patriotismo e a postura de não ceder aos interesses de terceiros fazem eco em um país cansado dos mandos e desmandos de governantes e de benesses concentradas nas mãos de alguns poucos eleitos. A campanha de apoio ao treinador deflagrada na internet logo após seu entrevero com a Rede Globo mostra que Dunga consegue se comunicar bem com o povo e que sua estratégia de eleger um inimigo, seja ele imaginário ou não, funciona. Algumas de suas falas remetem a outro gaúcho, o ex-presidente Getúlio Vargas. “Mais uma vez as forças e interesses contra o povo novamente desencadeiam sobre mim. Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam e não me dão o direito de defesa”, escreveu o ex-presidente em sua carta-testamento. Dunga segue o mesmo padrão: “Primeiro te batem para te deixar fraco e pedir ajuda. Quando não conseguem, tentam te derrubar”, disse o técnico da Seleção Brasileira no fim do ano passado. “Eu, como todo brasileiro, só quero trabalhar. Meu maior exemplo é a minha mãe. O que estão fazendo com o filho dela não se faz com ser humano nenhum”, afirmou o treinador, na coletiva antes do jogo contra Portugal.

Nesse dia, quinta-feira 24, Dunga aparentava cansaço. O golpe da semana mais difícil e conturbada de sua passagem como técnico da Seleção estava escancarado em seu rosto. Não à toa, não passou um dia sem ligar para sua mãe, que, mesmo assistindo o marido, preocupava-se e muito com o filho. Dunga queria receber seu apoio e saber sobre Edelceu, que deixou o hospital na segunda-feira 21. Ex-centroavante famoso em Ijuí, Edelceu é o herói de Dunga. Operário que trabalhou com curtume, fazendo chinelo e tamanco, assistiu às peladas do filho no Sul e o acompanhou em vários momentos. “Edelceu estava com Dunga na Alemanha, na Itália”, conta Perondi, citando alguns países onde Dunga jogou. “O pai dele estava na arquibancada na Copa de 1990, quando o Dunga foi derrotado junto com o Brasil pela Argentina.” Para Dunga, não há nada mais importante do que a família, nem o futebol. “Ele é o que seus pais lhe ensinaram, os valores dele vêm do berço. Por isso estamos todos tranquilos com essa situação”, diz Ivo Boratti, cunhado do técnico da Seleção, que na última semana não conseguiu falar com Dunga. “Desde domingo ele só está falando com a mãe.” Em todos os momentos difíceis de sua carreira, foi em Ijuí que o técnico da Seleção buscou apoio. “Eu sou animal do mato e toda vez que estou ferido volto pro mato para “lecare” (lamber, em italiano) minhas feridas”, afirmou Dunga à ISTOÉ no fim do ano passado. O mato, para ele, é sua família. Se perder este que é o maior desafio de sua carreira, não há dúvida: Dunga, uma vez mais, vai se refugiar na confortável casa que ajudou o pai a construir no bairro São José, em Ijuí, para lamber suas feridas. Se vencer, como todos esperam, é possível que se recolha também. E encerre o ciclo de tormentos que o perseguem há 20 anos.

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