Comportamento

A questionável busca do bebê perfeito

Uma comunidade de relacionamentos só aceita em seu clube pessoas consideradas bonitas e oferece óvulos e esperma para aqueles que buscam a raça perfeita. Será a volta da eugenia?

A questionável busca do bebê perfeito

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“Queremos abrir nossa base, de pessoas brilhantes, como potenciais doadoras”
Laura Hind, porta-voz do BeautifulPeople

“É uma iniciativa inaceitável”
Salmo Raskin, presidente da Sociedade Brasileira de Genética Médica

Um site de relacionamentos acaba de anunciar a criação de um serviço que pode muito bem ser tratado como inaceitável: colocar à disposição de pessoas interessadas em ter um filho um cadastro de doadores de esperma e de óvulo considerados bonitos. O objetivo, segundo os organizadores, é oferecer aos casais o que eles acreditam ser a possibilidade de ter um filho mais belo.

Os inventores da ideia são os criadores da rede social BeautifulPeople. Criada em 2002, ela só aceita como membro quem for classificado como bonito. O candidato a participar deve ser aprovado em uma votação feita pelos integrantes. Mas não basta passar por essa primeira porta. Quem se descuida da aparência corre o risco de ser expulso. Foi o que aconteceu no começo deste ano, quando cerca de cinco mil pessoas foram excluídas com o argumento de que tinham ganhado quilos a mais. Hoje, a rede conta com cerca de 600 mil integrantes do mundo todo.

E são esses indivíduos que o site disponibiliza como possíveis doadores. Aqueles que se dispõem a doar seu material genético podem ser encontrados no grupo Beautiful Baby Service, um fórum aberto dentro do site. O problema é que, numa sociedade que já viveu episódios hediondos como o Holocausto, ofertar um critério de seleção baseado na beleza dá arrepios. “É uma iniciativa inaceitável, que lembra a eugenia”, diz Salmo Raskin, presidente da Sociedade Brasileira de Genética Médica. De fato, o anúncio do serviço remete, perigosamente, a uma tentativa de colocar em prática a teoria que prega o aperfeiçoamento da espécie humana por meio da seleção genética, em busca de uma civilização perfeita. Os responsáveis pelo site, claro, defendem-se das críticas. “Não queremos estabelecer a escolha pela beleza, mas apenas abrir nossa base, de pessoas brilhantes, como potenciais doadoras”, disse à ISTOÉ Laura Hind, porta-voz da rede.

Segundo Greg Hodge, diretor do BeautifulPeople, a iniciativa surgiu por causa de insistentes pedidos. “Todos os pais gostariam que seus filhos fossem abençoados com vários atributos, sendo que um dos mais procurados é a beleza. Imagine a demanda para um website cujos membros se parecem com Brad Pitt, George Clooney e Angelina Jolie”, disse.

No início, o serviço seria ofertado apenas aos membros da rede. Mas, no que consideraram um gesto de generosidade, os responsáveis resolveram abri-lo a qualquer interessado. “Não tínhamos certeza se o estenderíamos a pessoas que não fossem bonitas”, contou Robert Hintze, um dos fundadores do site. “Mas todos, inclusive os feios, gostariam de colocar filhos bonitos no mundo, e não podemos ser egoístas com o nosso pool de genes de pessoas atraentes.”

A atitude, no entanto, carece de conhecimento. Qualquer indivíduo sabe que a presença de um pai e de uma mãe bonitos não é garantia de que a criança terá os traços harmônicos. Hoje se sabe, inclusive, que é muito difícil prever até mesmo a chance de o bebê herdar características pontuais vinculadas à aparência, como a cor dos olhos e dos cabelos. “Atualmente, temos a informação de que diversos genes estão associados a essas características”, explica Raskin. “Por isso, é muito simplista dizer que determinado casal apresenta essa ou aquela probabilidade de ter um filho com olhos claros, por exemplo.”

Na opinião do médico carioca Luiz Fernando Dale, especialista em medicina de reprodução assistida, trata-se de um projeto idealizado por indivíduos psicologicamente deturpados. Ele conta que, na sua experiência, nunca se deparou com casais pedindo filhos bonitos. “O que eles querem é que a criança seja saudável e se pareça o máximo possível com eles próprios”, diz. Para que isso seja possível, os médicos costumam recorrer a bancos de esperma e a doadoras de óvulos que pertençam, por exemplo, às mesmas populações das quais fazem parte os casais interessados. É o chamado critério da regionalidade.

Para o Brasil, o Beautiful Baby Service pode não ter valia. Aqui, não é possível importar esperma ou óvulo e as doações são sempre anônimas. Portanto, o brasileiro que se interessar – e conseguir encontrar um doador no serviço – terá que ir a um lugar que permita uma doação aberta, em que doador e receptor podem se conhecer. Na Inglaterra isso é possível. Lá, inclusive, a Clínica London Bridge Fertility, Gynecology and Genetics Center, por exemplo, já se prontificou a realizar os procedimentos que podem ser gerados por meio dos contatos intermediados pela rede. “Apoiamos a iniciativa porque há dificuldade de encontrar doadores”, justificou à ISTOÉ Tim Mott, responsável pela comunicação da clínica.

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