Em Cartaz

O baú de Julio Cortázar

Uma nova obra do escritor argentino Julio Cortázar (1914-1984), um dos mais importantes autores latino-americanos, já está disponível no Brasil

O baú de Julio Cortázar

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Uma nova obra do escritor argentino Julio Cortázar (1914-1984), um dos mais importantes autores latino-americanos, já está disponível no Brasil. O inédito “Papéis Inesperados” (Civilização Brasileira) é a transcrição de centenas de manuscritos e folhas datilografadas guardadas há décadas na residência de Cortázar, em Paris. O amplo conteúdo revela muitas facetas do escritor, crítico contumaz das ditaduras latino-americanas e nome de vanguarda da literatura mundial. Nesse extenso repertório destacam-se contos, passagens inéditas dos personagens de “Histórias de Cronópios e de Famas”, versões de textos já conhecidos, artigos sobre arte e literatura, crônicas de viagem, poemas e notas políticas.

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+5 livros de Cortázar

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AS ARMAS SECRETAS
Traz o conto “As Babas do Diabo”, adaptado para o cinema por Michelangelo Antonioni em “Blow Up” (foto)

O JOGO DA AMARELINHA
Clássico do autor, a obra reinventa o formato do romance ao permitir diversas formas de leitura

BESTIÁRIO
Situações fantásticas invadem o cotidiano nos contos dessa obra que prenuncia o estilo consagrado do autor

HISTÓRIAS DE CRONÓPIOS E DE FAMAS
Fábula fantástica com seres imaginários que faz uma contundente crítica social e política

FINAL DE JOGO
Seleção de contos que inclui “O Perseguidor”, uma homenagem ao saxofonista de jazz Charlie Parker

 

Leia trecho do livro "Papéis Inesperados"

A adaga e a flor-de-lis. Nota para um memorial

O estafeta que saiu ontem à tarde com a vênia do duque deve ter apresentado ao Executor um sumário relato dos fatos acontecidos na noite da sexta-feira dia vinte e um do mês que corre. Tal relato, ditado por mim ao secretário Dellablanca, visava submeter à atenção do Executor os fatos imediatos e as providências de primeira hora. A três dias do ocorrido, tendo os espíritos recuperado uma vigilância mais ponderada dos seus ânimos e humores, é forçoso fazer a devida comunicação das muitas reflexões, retorcidas conjeturas e ânsias de verdade que por tudo isso correm. O Executor há de encontrar no que se segue a devida memória de fatos e o legítimo exercício do raciocínio sobre a substância dos mesmos, que têm perturbado a corte do duque e abrem os ouvidos da plebe para os rumores mais sediciosos.

O Executor não desconhece em seu saber que o falecido agente Felipe Romero, natural de Cuna de Metán, dezenove anos, solteiro, de estatura média, nariz reto, boca de lábios finos, queixo regular, sobrancelhas pretas, olhos azuis, cabelo louro encaracolado, barba raspada, me assistia na delicada tarefa que o Executor houve por bem designar-me. A discrição da camareira Carolina reduziu as dificuldades para que o agente Romero fosse admitido na condição de pajem na câmara da minha senhora a duquesa; passou três meses e uma semana nesse ofício antes da sua morte, tendo conquistado a confiança e a estima dos seus senhores, e se aproveitado dela sem titubear para penetrar nos enganosos silêncios de palácio, onde a história cresce envolta em veludo. Assim, o relatório enviado ao Executor no dia quinze de maio, contendo a folha de instruções dos que conspiram contra Palácio, provinha tanto da diligência e afã do agente Romero, sagazmente ajudado pela camareira Carolina, como dos meus próprios palpites que o Executor teve a bondade de elogiar em outras oportunidades. Dentre os agentes destinados à missão a mim confiada, o falecido Romero se sobressaía por méritos próprios, que sua extrema juventude ocultava dos olhos que medem o saber por rugas ou permutam respeito por currículo. Sua elegância lhe valia volteio de chaves e abandono de temores; assim, minha senhora a duquesa houve de agraciá-lo gentilmente com encomendas e tarefas, cedendo a ele trabalhos que correspondiam a outros criados da sua câmara, mais remissos ou desanimados. De cada uma dessas mercês (que tais são as ordens nos lábios da minha senhora a duquesa) houve o agente Romero de extrair proveito para a investigação, amealhando-me notícias e presunções que o Executor recebeu no dia certo, oportunamente filtradas e comentadas.

O Executor conhece em substância os fatos da noite de sexta-feira. O corpo de Felipe Romero foi encontrado na galeria coberta que leva, vindo da poterna norte, às salas de armas e câmaras do duque. Coube à camareira Carolina descobri-lo, o que a fez perder os sentidos e desabar sobre o sangue que brotava da garganta do finado. Digo finado, embora certas revelações que o Executor considerará mais adiante permitam supor uma agonia prolongada, uma morte cheia de delicadeza como quadrava ao ser em que se exercia.

Uma vez recuperada, a camareira soltou a voz e vieram com luzes e visto foi o fato. Eu cheguei um pouco mais tarde e era Felipe Romero o morto. A vítima vestia seu gibão verde de pajem, suas fitas bicolores, seu gorro de pena solitária. Por baixo do queixo lhe entrava uma adaga fina como uma áspide, com um cabo incrustado de rubis, subindo seu fio temperado até perfurar-lhe a língua e o paladar, passando à caixa do cérebro para acabar seu trajeto no recinto mesmo do pensar e do lembrar. Jazia o morto de costas, encolhidas de lado as pernas e os braços em cruz, crispados os dedos para baixo como se tentasse se aferrar ao chão. Quando puxei a adaga enquanto os homens sustentavam sua cabeça, verteu o resto de sangue sobre a arma e o peito, sem faltar quem dissesse que as mãos se mexeram uma vez.

Observei o que havia que ver e fiz o que cabia, e já então chegava o duque com gentes lá de dentro. Eu lhe disse que era um pajem, para não nomeá-lo e introduzir na sua inteligência a suspeita de que me era próximo, e ele ordenou que aproximassem mais as luzes e ficou olhando o morto, que também o olhava sem vê-lo, e me olhava. Um arqueiro abaixou suas pálpebras, e o duque pediu a adaga para imaginar a ferida. Respondi que a arma já era da justiça, e disse: “Justiça é estranha palavra, mas talvez mereça duplamente essa lâmina.” E como eu esperara, pois do esperar tenho muito aprendido, reparou na ferida e murmurou: “Houveram de empalá-lo.” “Senhor, que por baixo se empala”, disse. E ele: “Não esqueça o Investigador como os miolos e a língua são às vezes depósito de imundície, e uma adaga neles mais justa que as estacas do turco.” Então disse que era pilhéria, pois que o maravilhava uma ferida tão insólita sendo que em muitas batalhas jamais vira soldado apunhalado pela barba. Discutiram os outros, e eu aduzi sem insistir muito que adaga italiana é arma sutil, que vai da mão ao inimigo e entra por toda parte como chuva fina.

Enquanto ele ordenava a um alabardeiro que ficasse próximo do cadáver e voltávamos para a câmara-mor do duque, ouviram-se clamores nos aposentos da ala menor de palácio, ergueram-se luzes e, por indagação a criados, soubemos que a duquesa estava a par dos fatos e extremamente condoída. “Favores tinha esse pajem”, prorrompeu o duque torcendo a expressão. “Cuide o Investigador de que seja removido o morto e poupada minha mulher de vê-lo entre tanto sangue.” Prometi que o faria assim que acabasse as minhas providências, e aguardei outras palavras suas. Voltou o duque ao seu jogo de dados, que partilhava com o capelão, e ensimesmou-se sem esforço. Eu pedi duas luzes e voltei para junto de Felipe.

Note o Executor que a noite era sem lua, e assombrada de trevas a galeria. Puderam matar Felipe sem lhe dar tempo de ver o golpe chegar, e ele mesmo andando por aquele lugar não oferecia mais alvo que uma sombra entre outras. Eu me assombro com o golpe certeiro, pois um erro de nada teria embainhado a adaga no ar, alertando o atacado. O Executor há de saber como é arriscado golpear no escasso espaço entre os maxilares e o nascimento do pescoço, que apenas o assentir da cabeça oculta. Quando jovem, eu me exercitava com meus irmãos em artes de caça, sendo frequente provarmos a vista e a sorte tentando atingir o javali em determinado lugar. E porque cheguei a fazê-lo como bem queria, sei do repetido trabalho que requer.

Despedidos o alabardeiro e os criados, fixadas as tochas nas argolas da parede, desci para ver com os olhos o que antes vira com os pulsos. Saiba o Executor que esta memória nasce da reflexão e do debate em horas subtraídas ao mundo de palácio, concentrado o entendimento na sorte do agente Romero, nos acasos ou conjunções que fizeram dele um cadáver que guardava para mim uma última palavra. Saiba o Executor que a palavra era uma flor-de-lis, esboçada por sua mão direita no mármore onde o sangue mais uma vez serviu de tinta para a história.

Juntei a flor do duque e o lugar, medi-os sem parcialidade nem favor e vi o que estou dizendo. Se bem que não fosse o agente Romero estranho às câmaras do duque, seu lugar era mais além, ao lado da sua senhora e ama, e ainda mais à noite, antes do retiro dos séquitos e dos visitantes, por ser a hora das últimas ordens e disposições. Soube a vítima que morria, encharcou-se no seu sangue, chegou a riscar a flor-de-lis nas trevas com o último calor da sua mão direita. E eu a vi primeiro, como ele devia esperar, e a apaguei ao abaixar-me para arrancar a adaga, antes que o duque aparecesse.

Digo que morto foi o agente Romero em recintos que apontam para o executor; atraído por ordem maldosa ou convite gentil, veio aos aposentos do duque e não conseguiu chegar; soube do seu matador pelo lume de estrelas ou o sussurro de vingança, e o nomeou por seu nome figurado. Duas razões teve o assassino para matar ou mandar matar Felipe: o favor da duquesa, manifesto em caçadas e jogos corteses, e a suspeita de que ele estava a meu serviço reunindo palavras e sinais da conjuração contra Palácio. Da primeira razão dão fé os clamores da sua ama e o escárnio do duque ao cadáver; da segunda cabe-me medir a força por meu próprio trabalho ameaçado, minha hora que talvez venha por outra galeria. Ambas junto para apontar a culpa do duque e pleitear as prontas decisões de Palácio, ao qual este sangue distante mostrará a iminência de um golpe mais universal, a rebelião latente que este crime disfarça e fortifica.

Afastei-me de Felipe para visitar as câmaras da duquesa, onde as luzes não cediam; encontrei as camareiras desconcertadas, desbotados os pajenzinhos do lavatório, caídas as peças do jogo que minha senhora havia jogado enquanto tangiam as violas da recreação. Chegou-se a camareira Carolina, fingindo mais desânimo que as outras. Disse-me que a duquesa guardava leito, com luzes próximas e o cuidado da aia; recordou que havia jogado até o toque de relevo, e depois pedido licença ao seu contendor, que era o confiscador Ignacio, para contemplar a carta celeste em busca de conjuras vaticinadas por seu astrólogo. Ao seu regresso, que foi sem luzes para melhor ver as estrelas, reclamou de uma nuvem interposta e do relento. Para não descuidar de nada, mandei que a camareira fosse observar sua ama sem ser vista, e me deu notícia do seu distraído semblante, seu repouso nos braços da aia, que com os arrulhos de infância havia resgatado o sorriso no rosto da minha senhora. Despedi Carolina para melhor pensar e fiquei movendo as peças do jogo, encontrando mais simples os seus muitos azares do que o já terminado com seu bispo caído na beira do tabuleiro. E pelo bispo cheguei a senhor, e também a fadiga e a tristeza me trouxeram a imagem dos dois conversando no pátio de armas, a mão direita do duque apoiada no ombro de Felipe, condescendência do grande que eleva assim o pequeno para livrar-se do ócio por um breve momento. Também me veio à lembrança o regresso das justas no dia de São José, quando o duque se feriu no braço em um lance desafortunado, Felipe segurando as bridas do cavalo para não deixá-lo sofrer. Assim dado a fantasmas, ergui a adaga para interrogar sua forma, admirando-me de repente com o escárnio do duque parado diante do morto, debatendo se não protegeria um nome que na sua mente se elevava, ou se pretendia silenciar com seu carrancudo continente as lembranças alheias em que sua mão voltava a pousar no gibão do pajem ou ficavam seus olhos postos no cabelo que de tão louro devorava o sol dos terraços. Árdua tarefa a de matar rumores; escondem-se nas colgaduras e dosséis, remontando suas figuras por trás das pálpebras; e os grandes sabem do seu acosso sem dó.

Assim me vi levado a passar de uma reflexão para a sombra que a adaga declinava no tabuleiro; e de olhar o jogo da minha senhora a duquesa, truncado pelas notícias de fora, nasceu-me o meditar na infreqüente ferida do agente Romero, delatora talvez de uma mão dedicada a trabalhos menos graves. E mais tarde, lutando no meu interior com esse imóvel alterar-se das peças no tabuleiro, dei a mim mesmo o exemplo de Judith e de tanta vingadora que nos corredores do tempo repete uma e mil vezes seu feito para maravilhamento de homens e livros. Vi um sangue verter no tabuleiro, a forma de uma flor-de-lis sob uns dedos arranhando o mármore, e a flor-de-lis é flor ducal e revela o que o Executor deve estar vendo junto comigo. Fingiu o duque, soube a verdade; se cobrisse com seu escárnio o brilho de passadas justas, também protegia dolorosamente aquela que dele em Felipe se vingava; salvava-se a si mesmo salvando a homicida. E veja o Executor isto, que só acrescenta: ninguém morrendo de ferida tal, espumando sangue com a língua partida, poderia nas trevas achar conselho em si mesmo e delatar seu assassino por desenho de flor-de-lis. Abaixando-se para beber dessa obstinada agonia, a matadora urdiu as pétalas que o olhar dos outros chamaria de duque. Inocente é este, se bem que encobridor involuntário. E a duquesa deve ser prontamente arrancada desse sorriso que do sonho lhe oferece a vingança cumprida.

Para que tenha o Executor a inteira máquina de acontecer tão confuso, estive depois na câmara do médico onde jaziam os despojos do agente Romero. À luz das tochas o vi nu pela primeira e última vez na alta mesa do cirurgião; o médico saiu e ficamos sós. Por que eu recusaria o testemunho de quem, ao menos aparentemente, soube escrever depois de morto? Juntei meu rosto ao rosto de Felipe, procurei a imagem da verdade nos seus olhos misteriosamente abertos outra vez, um zodíaco de nomes no seu mortiço céu azul já velado. Vi seus lábios onde o sangue secava como um lacre de clausura, em vão interroguei o mármore da sua orelha onde o som se chocava e caía. Mas de tanta negação acabei vislumbrando em Felipe uma resposta, um afirmar a si mesmo como resposta, um responder seu próprio corpo como nome, um horrível nome invasor e tirânico. Como se, de repente, pela ponte dos rostos contíguos, ele pudesse pensar com o meu pensamento, ser eu mesmo na revelação instantânea. E ouvi seu nome tantas vezes dito, seu nome repetido, só o seu nome. Apelei para a reflexão, cobrindo os olhos, mas depois olhei a ferida do queixo e me lembrei do grande Ájax, dos que se matam com aço, jogando-se sobre uma arma. Segurando-a com as duas mãos, evitando vê-la pela sombra e pela posição, bastou-lhe empurrar uma vez enquanto mergulhava a cabeça no peito, e o resto foi dor e confusão agônica. Com as mesmas mãos que empunharam a brida do cavalo do duque no regresso das justas, Felipe se matou, de repente sei disso como se sabe que o dia chegou ou que o vinho da madrugada cheirava a violetas. E digo ao Executor que, sabendo, desculpo, embora ao desculpar eu me arraste amanhã na queda do agente Romero. Desculpo uma morte às cegas, um dar-se o silêncio através da língua; meço, como medi junto ao frio cadáver nu de Felipe, sua abominável coragem na hora da decisão. Creio que ele levava na inteligência os códigos e as provas da conjuração do duque contra Palácio, e que não foi capaz de traí-lo depois do brilho das justas e do prestígio de favores que imagino. Fiel até essa noite ao Executor e a mim, acossado por uma divisão que a dura expressão dos seus olhos resumia, refugiou-se na morte como menino que era. Inocentes são os duques, discretos esperam da minha discrição o fim de uma confusa missão que para mim ainda perdura, depois que finalmente fechei os olhos de Felipe, vesti-o com minha roupa de Palácio, pus o corpo num féretro de ébano sem ferragens nem figuras, e na alvorada do domingo deixei entrarem a luz e os criados que o levaram para uma fossa aberta em segredo. Se o Executor assim ordenar, haverá de saber onde está enterrado sem nome nem sentença: era uma criatura maligna e bela, talvez seja bom que tenha desaparecido quando começava a se afastar de mim.

Além do já informado, acrescento que na tarde de domingo o duque mandou chamar-me para pedir a adaga. Isto ocorreu depois que eu lhe avisei que a investigação iria concluir sem mais delongas por falta de provas materiais e que o meu relatório a Palácio sustentaria que o agente Romero havia se suicidado. O duque voltou a me pedir a adaga, que eu levava limpa e embainhada para não deixá-la ao alcance de ninguém. Recusei polidamente, e até lhe disse: “Como vou emprestar uma arma que é da justiça?” Ficou pálido de coragem, e disse algo assim como que as coisas estavam muito obscuras e que ele iria se encarregar pessoalmente de descobrir a procedência da arma. Quando eu estava saindo, acrescentou: “Nunca vi essa adaga com Felipe Romero.” Não sei por quê, tanta segurança no inventário me enfureceu. Qualquer pessoa pode saber que a adaga não era de Felipe, e até descobrir de que bainha saiu para matá-lo. Não é só o duque quem sabe disso; mas tampouco há qualquer obrigação de que um homem se mate com sua própria adaga. A adaga e a flor-de-lis podem ter muitos donos. Todos sabemos ferir, e todos podemos desenhar três pétalas com sangue. O que penso é que o duque está começando a mostrar o que encobria na noite da sexta-feira com seu escárnio. Sente por Felipe, sente por mim, nós dois sentimos muito quando nos olhamos. Mas eu digo: Por que um duque, esse homem de reis, fica tão impaciente por uma morte sem importância? Fica tão impaciente porque essa morte está cheia de importância, porque por trás vem a duquesa e venho eu, sobretudo venho eu. Acho que por trás disso venho eu para o duque. Então força a situação, fala de encontrar o dono da arma para criar suspeitas contra esse pobre homem de quem Felipe a tirou talvez em segredo para se matar.

E se o duque força a situação e procura um suposto culpado, é porque quer se proteger ou proteger a duquesa; esse cachorro está tentando jogar o fardo nas costas de outro, e faz isso pela rameira da sua mulher ou por ele mesmo. Está claro que é o culpado, que matou Felipe, e que Felipe desenhou a flor-de-lis enquanto morria, com a última força da sua pobre mão desenhou a flor-de-lis para que eu a visse e exigisse o castigo do duque, ou da duquesa, ou dos dois, da ama de Felipe e do amo de Felipe: o castigo e a morte dos dois imediatamente.