Cultura

Uma vida de paixão, política e traições

Biografia conta os detalhes picantes da rotina do casal de artistas mexicanos Frida Kahlo e Diego Rivera

Uma vida de paixão, política e traições

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APETITE
Rivera (a dir.) traía Frida compulsivamente.
Ela fazia o mesmo, com rapazes e mulheres famosas

A dramática e apaixonada história de vida do casal de artistas Frida Kahlo e Diego Rivera, que se desenrola na primeira metade do século XX, tem todos os elementos de uma legítima novela mexicana. Amor sem fim, traição e lágrimas. Foram muitas as tragédias que marcaram indelevelmente a biografia de cada um deles, nascidos em pequenos municípios no México e que, juntos, revolucionaram os costumes, a arte e o pensamento social e político da época. Ao acompanhar a trajetória de Rivera e Frida naqueles anos efervescentes e violentos em que viveram, com as vanguardas artísticas e o caos de guerras em curso, descobre-se uma visão hispânica e latina dos acontecimentos históricos e culturais que difere da tão difundida hegemonia do pensamento europeu ou americano. É o que se nota na leitura de “Diego e Frida” (Record), do escritor francês e Prêmio Nobel de Literatura J.M.G. Le Clézio. Em sua narrativa, o caso de amor dos protagonistas, a arte e a política estão tão interligados que não é possível falar do romance sem resvalar nos movimentos culturais, na ascensão do comunismo na Rússia, no capitalismo nos EUA e nas ditaduras na Europa, temas que estão na ordem do dia de ambos os artistas e que influenciaram os seus destinos.

No início do livro há os primeiros anos da carreira de Rivera (1886-1957) durante a sua famigerada estadia em Paris, pouco antes da Primeira Guerra Mundial. Ele está em seu primeiro casamento, vivendo em extrema penúria, e sua esposa espera um filho.

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O menino morreria meses após o nascimento, de infecção contraída e não tratada por falta de condições financeiras. Foram anos sombrios na vida de Rivera. O episódio desencadeou o fim da união e ele decide viajar para os EUA. Voltará ao México em busca de suas raízes e disposto a participar ativamente da vida política. É quando conhece Frida (1907-1954), uma comunista convicta, então com 19 anos e dedicando-se à pintura. Ela sobrevivera a dois duros golpes antes de completar 18 anos: uma poliomielite que limitou os movimentos de uma das suas pernas e um grave acidente de ônibus em que parte da estrutura do veículo atravessou o seu ventre. A sua recuperação foi lenta e demorada, período em que descobriu a paixão pela pintura paralelamente ao traumatismo que lhe renderia sérias sequelas físicas e dores crônicas.

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OUTRO OLHAR
O livro oferece ao leitor uma nova visão latina da sociedade da época

Frida e Rivera apaixonam-se. Ele tinha o dobro da idade da noiva e três vezes o seu peso, o que levou a família da pintora a estranhar a união. Conformado, o pai Guillermo Kahlo disse que seriam “as núpcias de um elefante e de uma pomba”. A fragilidade da estrutura física contrastava, no entanto, com a força de caráter e personalidade de Frida, o que a fazia ter certa ascendência sobre o marido em questões profissionais. Foi em grande parte por ela que Rivera se negou a retirar a imagem do bolchevique Vladimir Ilich Lenin de um grande mural que pintou ao longo de um ano. A obra foi feita a pedido do milionário americano Nelson Rockefeller que não gostou de ter o líder russo ali retratado. Rivera perdeu o contrato, mas preservou “princípios morais e éticos”. A influência de Frida nas decisões do marido paravam por aí. As traições conjugais de Rivera, descrito como um “ogro devorador de mulheres” (e, segundo o biógrafo, de homens também), eram um sofrimento atroz para ela, que tentou se divertir saindo com outros rapazes – e moças. Frida teria vivido romances com a cantora Josephine Baker e a pintora Georgia O’Keefe nos tempos áureos de Paris, mas não assumia o lesbianismo. Aceitava o diz que diz porque adorava provocar ciúme no marido.

Irascível e crítica ao extremo, Frida desdenhava da capital francesa, o epicentro das vanguardas: “Cá estou, nesta Paris insignificante”, teria escrito a um amigo depois de sua primeira visita à cidade nos anos 1930.

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A admiração de Frida voltava-se mesmo era para a Rússia, mais exatamente para o revolucionário marxista Leon Trotski. O casal nutria grande respeito pelo ativista político e foi Rivera quem o convidou para ir ao México, quando de seu banimento da Rússia por ordem de Josef Stalin. Ele ficou hospedado na casa da família de Frida. Trotski foi assassinado a mando de Stalin. O autor da biografia afirma que ela e o marido foram considerados suspeitos do crime. Frida teve de comparecer três vezes para depor, sob olhares maliciosos dos policiais.

 

Confira trecho do livro "Diogo e Frida"

Encontro com o ogro

Diego encontra Frida pela primeira vez em 1923, quando começa a trabalhar nos afrescos encomendados pelo Ministério da Educação para a Preparatória, o colégio da Cidade do México que forma os futuros estudantes da universidade. Mais tarde, Diego contará a seu modo esse episódio que transformou toda a sua vida, e que será considerado o momento mais importante
da existência de Frida.

No momento em que ele trabalha no anfiteatro Bolívar, a grande sala de recepção também utilizada para concertos e representações destinadas aos alunos da Preparatória, de detrás das
pilastras, uma voz zombeteira ressoa, uma voz que grita: “Atenção, Diego, Nahui está chegando!” — Nahui Olín é modelo de Diego; seu nome verdadeiro é Carmen Mondragón; ela é amante do pintor Murillo, o célebre “doutor” Atl, e ela mesma pintora.

Lupe Marín, a mulher com quem Diego vive no momento, deve sentir especial ciúme dela. Num outro dia, Diego está pintando Nahui Olín, e ouve a mesma voz maliciosa: “Atenção, Diego! Lupe está chegando!” Numa noite, quando ele trabalha no alto do andaime, e Lupe Marín está sentada na sala, bordando, há um som de vozes do outro lado das portas do anfiteatro, e, de repente, uma mocinha irrompe como se tivesse sido empurrada para dentro da sala.

Diego olha com espanto aquela “menina de 10, 12 anos” (na verdade, ela estava com 15) usando o uniforme das colegiais e, contudo, tão diferente das outras. “Ela possuía um ar de dignidade
e de segurança totalmente incomum, um fogo estranho ardia em seu olhar. Sua beleza era a de uma criança, mas seus seios já eram bem desenvolvidos.” Assim se lembra Diego, ao contar sua vida a Gladys March, entre 1944 e 1957. O enfrentamento com Lupe Marín, mãos nas cadeiras, olho no olho, que segue a entrada de Frida no anfiteatro, talvez seja mesmo inventado.

Tudo se perde na bruma da lembrança, tudo é, ao mesmo tempo, verídico e mítico nesse primeiro encontro que põe frente a frente, como que por uma necessidade do destino, a criança-diabinha, viva e leve como uma dançarina, travessa e séria, ardendo, de fato, com a chama do absoluto, e o ogro devorador de mulheres e empenhado no trabalho.

Desse encontro, tudo vai nascer naquele México pós-revolucionário em que tantos acontecimentos, tantas ideias se chocam e se fecundam. Esse encontro vai também mudar toda a vida de Diego, alçá-la a uma dimensão que ele não tinha imaginado, e fazer daquela menina uma das criadoras mais originais e mais poderosas da arte moderna.

Então acontece algo de verdadeiramente extraordinário e excepcional na grande sala do anfiteatro Bolívar, enquanto Frida defronta o gigante em equilíbrio no andaime, esboçando o afresco da criação do homem, e ela ousa pedir-lhe para ficar observando-o trabalhar. Aquele ar de “dignidade” de que ele fala, quer dizer, o olhar direto e duro da infância, e aquela graça de moça que perturba os sentidos do sedutor já o prendem sem que nem ele nem ela estejam realmente conscientes. Mais tarde, ao se recordar, Diego compreenderá a importância desse encontro que ele não esperava, e que lhe escapou, e por isso ele desejará revivê-lo, contá-lo melhor, a seu modo, quando a liberdade que se seguirá ao rompimento com Lupe Marín lhe permitir recomeçar a aventura desde o início.

Em 1928, quando Diego trabalha nos afrescos encomendados pelo Ministério da Educação, pinturas sombrias, inspiradas pelo trágico ônus da Revolução russa, do alto de seu andaime ele vê “uma moça de aproximadamente 18 anos. Ela possuía um belo corpo nervoso, e seu rosto era delicado. Os cabelos eram longos, e as espessas sobrancelhas negras se uniam no alto do nariz, semelhantes às asas de um melro: dois arcos negros encerrando extraordinários olhos castanhos”; e ele não reconhece a criança que o desafiara no teatro.

Embora não tenha acontecido exatamente nas circunstâncias em que o pintor narra, é assim que lhe agrada contar o segundo encontro que sela definitivamente o destino deles, porque se une ao primeiro. Agora, algo mudou. A criança zombeteira que fazia ecoar a voz por detrás das colunas da grande sala Bolívar da Preparatória conheceu os mais extremos sofrimentos e, por sua vez, tornou-se pintora. Queimou etapas para juntar-se ao homem que admirava, de quem decidiu ser a mulher, e de quem teria filhos. A pintura, para Frida, é, sem dúvida, antes de tudo, o meio para esse encontro, outro modo, mais forte, mais doloroso, mais audacioso ainda, de empurrar as portas do anfiteatro e irromper na vida daquele que ela escolheu.

Diego não pode evitar ser seduzido por tanta audácia, tanta vontade num corpo tão frágil, tão leve, e por aquela chama imperiosa no olhar escuro que se fixava nele. Ele não a reconhece de imediato. Desce do andaime, caminha até ela. Não a reconhece de imediato porque aqueles cinco anos, que passaram tão rapidamente para o homem de 42 anos, foram longos e pesados para Frida, transformaram a adolescente em mulher. Em seguida, de repente, enquanto ela lhe fala de sua pintura, de seu desejo de viver uma vida de artista, a lembrança se ilumina: era mesmo ela, a jovem mordaz, insolente, que com o olhar desafiara Lupe Marín, sua companheira de então, já como uma rival; que a provocara e enfrentara, a ponto de Lupe, apesar de seu caráter irascível, ficar embaraçada e não poder deixar de comentar, com um risinho que significava sua derrota: “Olhe esta menina! Pequena desse jeito e não tem medo de uma mulher grande e forte como eu.”

Talvez tudo isso tenha sido inventado por Diego, como um romance de sua própria vida. Mas, cinco anos depois, quando Frida o encontra de novo, diante do andaime do Ministério da Educação, Lupe Marín desliza para fora do mundo de Diego. Ele quer ser livre. Ela sabe disso. Ela sabe que agora ela pode se prender ao seu olhar, que ela pode ser dele.

Quando Frida encontra Diego pela segunda vez na base do andaime (ou, mais plausível, na casa da fotógrafa italiana Tina Modotti, como a própria Frida contou mais tarde), Diego é um homem que já viveu muito. Pesado, gigantesco — Frida caçoa dele falando de “elefante” —, ele tem mais do que o dobro da idade dela (42 anos!), já foi casado duas vezes, teve quatro filhos: um de Angelina; Marieka, nascida de sua amante Marievna — que ele jamais quis reconhecer —; e duas filhas de Lupe Marín.

Contudo, seu rosto infantil surpreende: a fronte proeminente e lisa, “cúpula imensa”, diz Edward Weston em seu diário; rosto onde todas as raças estão escritas na raça cósmica inventada por José Vasconcelos, iluminada por olhos muito grandes, afastados, um ar doce e um pouco perdido, uma reserva que beira a timidez e, além de tudo isso, muita leveza. Anita Brenner, para apresentar a pintura muralista a seus compatriotas nova-iorquinos, fará dele um perfil marcante (“Feroz cruzado do pincel”, no New York Times, em abril de 1933): “Ele tem” — ela escreve — “a doçura e a corpulência de um italiano, a língua afiada e o ar erudito de um espanhol, a cor da pele e as pequenas mãos quadradas de um índio mexicano, o olhar vivo e inteligente do judeu, os silêncios do russo […] e a qualidade única nele, um encanto generoso, um espírito untuoso, um modo de captar as ideias que dá a cada interlocutor a impressão de que se dirige exclusivamente a ele.” E acrescenta: “Ele insiste bastante no fato de que não tem nada e anglo-saxão.”

O que impressiona a todos que o conhecem é essa mistura, o aspecto aterrador do gigante e a doçura do rosto, o brilho melancólico do olhar, a pequenez e o nervosismo das mãos. O homem é uma força da natureza, e terrivelmente sedutor apesar da feiura.

As mulheres são atraídas por ele, por seu sucesso, certamente — o turbilhão em volta do pintor, os políticos, os intelectuais e o dinheiro —, mas também pelo reflexo que elas pensam encontrar em seu olhar, por sua força física e pela fraqueza de seus sentidos, pelo poder que gostam de exercer sobre ele. Élie Faure, que o encontra brevemente em Montparnasse, depois da Grande Guerra, fica espantado com tanto poder num homem tão jovem.

“Há aproximadamente 12 anos” — ele escreve em 1937 — “conheci em Paris um homem de uma inteligência quase monstruosa. Era assim que eu imaginava os criadores das fábulas que pululavam, dez séculos antes de Homero, nas margens do Pindus e nas ilhas do Grande Arquipélago…”3 Ele acrescenta: “mitólogo ou mitômano”. É verdade que Diego Rivera acrescenta à enormidade de sua aparência a enormidade de sua palavra. É um mentiroso, um fanfarrão, um inventor de histórias que se alimenta do imaginário. Frida tem medo dele, menos por causa das balas perdidas de sua pistola atirando contra os fonógrafos do que por esse ruído de palavras e pela sedução devoradora que cercam o pintor e fazem dele um monstro de lenda, uma espécie de Pantagruel acompanhado de um Panurge.