Economia & Negócios

A vez dos idosos

Trabalhadores com mais de 60 anos são beneficiados pela retomada do emprego e ampliam sua participação no mercado Larissa Domingos

A vez dos idosos

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NA ATIVA Arlete, 66 anos, na lanchonete onde trabalha: "Não quero parar enquanto tiver saúde"

O maior desafio do envelhecimento da população é manter o trabalhador por maior tempo possível no mercado de trabalho. O número de idosos brasileiros alcançou 11,1% do total da população e deve se aproximar dos 14% – quando uma sociedade é considerada envelhecida – nos próximos 20 anos. Esse fenômeno impõe entraves econômicos, sobretudo na sustentação dos sistemas de saúde e previdência. Mas a boa notícia é que o Brasil está conseguindo ampliar o números de trabalhadores idosos. Na recuperação econômica verificada sobretudo no segundo semestre, com ampliação do emprego na indústria, setor mais atingido pela crise, o grupo que vem aproveitando melhor essa retomada é a chamada terceira idade. Na última década, a População Economicamente Ativa (PEA) de 60 anos ou mais avançou 56% e chegou a 770 mil pessoas em 2008 em cinco regiões metropolitanas e no Distrito Federal, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Essa elevação coloca o crescimento do número de trabalhadores idosos 25% acima do total de pessoas que ingressaram no mercado de trabalho no mesmo período. No ano passado, apenas quatro entre 100 idosos estavam desempregados, segundo levantamento do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), feito a pedido de ISTOÉ. O IBGE confirma os dados positivos. De 2001 a 2007, houve um crescimento de 43% no número de empregados dessa faixa etária no País, enquanto a população idosa cresceu ao todo 30%. Os fatores que levam a população da terceira idade a procurar emprego vão desde a ocupação de tempo até a complementação da renda familiar. Em 53% dos lares brasileiros, os idosos contribuem com pelo menos metade da despesa da família. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2007, 45% dos idosos viviam com seus filhos na condição de chefe de domicílio.

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No entanto, não é somente pela motivação econômica que a terceira idade procura emprego. Os idosos querem se sentir mais produtivos. "O perfil do idoso de hoje é permanecer economicamente ativo. Eles possuem melhor saúde e disposição e brigam mais pelos seus direitos e cidadania", disse Lúcia Cunha, da Coordenação de População e Indicadores Sociais do IBGE. É o caso de Arlete Ortiz, 66 anos, funcionária da rede de lanchonetes Bob’s, em São Paulo. Ela foi contratada há cerca de dois anos por meio do Programa Melhor Idade, criado em 2003 pela empresa para estimular o retorno de trabalhadores com mais idade ao mercado de trabalho. "As vantagens de trabalhar são muitas: tenho contato com as pessoas, me sinto ativa. Não quero parar. Enquanto tiver saúde, vou continuar trabalhando", disse. O Bob’s hoje emprega mais de 100 pessoas na faixa etária de Arlete. Segundo Geraldo Gonçalves, diretor de recursos humanos da rede, de uma forma geral, os idosos são mais acessíveis e prestam um atendimento personalizado, levando à fidelização do cliente. Além disso, são os que menos faltam e os que estão mais disponíveis. "As lojas com esses funcionários geram melhores resultados de vendas", afirmou.

 

A primeira carteira aos 60

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A carteira de trabalho assinada sempre foi um sonho da juventude. Não é mais. A cada dia, no Brasil, mais idosos almejam o emprego formal e muitos estão conquistando esse status pela primeira vez, apesar da idade. Ou porque nunca procuraram emprego e agora necessitam aumentar a renda naquela que seria a fase pós-laboral ou porque sempre trabalharam em atividades sem registro e, aos 60 anos, precisam se reinventar. De 2003 a 2008, o número de trabalhadores formais com mais de 65 anos cresceu de 216.166 para 297.909, segundo o Ministério do Trabalho. Estevão Figueiredo Pereira, 60 anos, é um desses novos empregados. Ele estreou a carteira de tarbalho há dois anos, quando foi contratado por uma empresa de mineração de São Sebastião do Paraíso, em Minas Gerais. "Ganhei meu primeiro 13º aos 59 anos. É uma satisfação que nunca tinha sentido antes. Ser registrado dá mais segurança e benefícios", disse.
Formado em direito, sempre trabalhou como autônomo na área da cafeicultura. Com qualificação, Pereira encontra facilidade no mercado e já está em fase de contratação no departamento jurídico da Cooparaíso, a cooperativa de café do município. "Voltar ao mercado de trabalho é muito bom. Estou sendo reconhecido, isso resgata a dignidade. Me sinto valorizado." Para ele, o Brasil ainda dá pouco valor às pessoas mais velhas e perde assim um conhecimento que só quem está na terceira idade pode oferecer. "A turma dos 60 tem sabedoria", completa.

Embora o Rio de Janeiro registre a maior população idosa do País – 15% do total -, São Paulo é a região metropolitana com o maior número de idosos em atividade. Os ocupados de 60 anos ou mais somam 386 mil. Os maiores em pregadores são os setores de comércio e serviços, com cerca de 70% das vagas. Mas as oportunidades também estão surgindo em mais ramos de atividade. Em expansão no Brasil, a construção civil enfrenta dificuldades para encontrar mão de obra qualificada entre os mais jovens. A saída tem sido buscar reconheciexperiência de trabalho dos mais velhos. "Os idosos não entram para o mercado como o jovem, vão para ganhar a vaga", afirma Sérgio Mendonça, coordenador técnico do Dieese.

A tendência é de que as pessoas com mais idade continuem ampliando a sua presença no mercado de trabalho. Com a forte redução do número de filhos por mulher (hoje em 1,8, abaixo do nível necessário para a reposição da população) e o aumento da expectativa de vida (72,7 anos), o País começa a seguir o mesmo caminho da Europa, dos Estados Unidos e do Japão. Outros desafios, portanto, começarão a surgir. Não basta apenas criar vagas de trabalho para os idosos. É preciso aumentar a renda desse trabalhador e isso só se consegue ampliando o nível de escolaridade dele. Neste campo, a notícia não é boa. O brasileiro com mais de 60 anos tem, em média, apenas 3,3 anos de estudo. Apenas 5,54% têm mais de 12 anos de estudo e esse pequeno percentual consegue uma renda per capita 412% superior à do conjunto da população idosa.

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