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Aécio diz não

Agora o candidato Serra e seus aliados se debatem com o desafio de como resolver o imbróglio da chapa tucana

Aécio diz não

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CAMINHO PRÓPRIO
Aécio vai disputar vaga no Senado

O sonho do PSDB acabou. Apesar da forte pressão dos caciques da oposição que o consideram o antídoto ideal contra o avanço de Dilma Rousseff nas pesquisas de opinião, o ex-governador de Minas Gerais Aécio Neves jogou uma pá de cal na possibilidade de sair candidato a vice na chapa de José Serra. Na quinta-feira 27, um dia após voltar de uma longa temporada de férias na Europa, Aécio encerrou o assunto que dominou as rodas de conversa do Congresso nas últimas duas semanas: “Estou absolutamente convencido de que a melhor forma para ajudar a dar a vitória ao governador Anastasia e ao companheiro e amigo governador José Serra é estando em Minas Gerais como candidato ao Senado”, decretou o político mineiro, depois de um almoço no Palácio da Liberdade, em Belo Horizonte, com o governador Antonio Anastasia (PSDB) e o ex-presidente Itamar Franco (PPS).

A decisão de Aécio acontece num momento dramático para a campanha do PSDB. Com Serra despencando nas intenções de voto e Dilma em franca evolução, o candidato tucano deu sinais de desori­entação nos últimos dias. Cancelou compromissos previamente agendados, como a viagem ao Rio Grande do Sul, que foi desmarcada em cima da hora, na quarta-feira 26, em razão de um recuo do PMDB local. Também foi alvo de queixas internas de integrantes do partido, que deixaram vazar para a imprensa dúvidas sobre a estratégia do candidato de se apresentar como pós-Lula. Tanto assim que, em encontro na CNI e em entrevistas na semana passada, Serra resolveu subir o tom das críticas ao atual governo. Na verdade, a guinada nos rumos da campanha foi decidida em reunião da cúpula do PSDB na segunda-feira 24. “Teremos uma eleição sangrenta”, advertiu o ex-senador do DEM Jorge Bornhausen.

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QUEM VAI AMPARAR SERRA
A menos de duas semanas de sua convenção, o PSDB ainda não sabe quem será o vice

Mas, ao passar de um polo a outro, o candidato do PSDB à Presidência exagerou. Na sexta-feira 21, Serra denunciou a existência de “patrimonialismo selvagem” e “bolchevismo sem utopia” no governo federal. Quatro dias depois, na CNI, reclamou do formato do evento, que não permitia o debate entre os candidatos, e ironizou o pronunciamento de Dilma, dizendo não ter entendido as opiniões da petista sobre a reforma tributária e a macroeconomia. Para piorar, Serra atacou o governo da Bolívia, de Evo Morales. Disse que o país vizinho faria “corpo mole” e seria “cúmplice” no tráfico de drogas para o Brasil. Sua falta de sensibilidade chegou a chocar. “Foi uma gafe diplomática e uma grosseria contra um país vizinho e membro do Mercosul”, disse o líder do PT na Câmara, Fernando Ferro (PE).

Para agravar o quadro, os tucanos não têm nas mãos o nome de um vice que seja capaz de alavancar a candidatura Serra. “O que poderia ser uma solução agora começa a ser um problema”, admitiu o presidente do PPS e aliado de Serra, Roberto Freire. Entre os partidos de oposição e até da base do governo, no caso o PP, existem pelo menos oito opções para a dobradinha com Serra: os senadores Tasso Jereissati (PSDB-CE), Francisco Dornelles (PP-RJ), Kátia Abreu (DEM-TO), Marisa Serrano (PSDB-MS) e Sérgio Guerra (PSDB-PE), além do deputado José Carlos Aleluia (DEM-BA) e o ex-presidente Itamar Franco . Mas os próprios tucanos admitem, reservadamente, que nenhum deles provocaria impacto como Aécio Neves.

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O PSDB pode esperar até o fim de junho para anunciar o seu vice. Mas alguns dirigentes do partido passaram a defender que o nome seja escolhido até a convenção que oficializará a candidatura de Serra à Presidência, no dia 12. “Não faz sentido não termos a chapa formada no dia da convenção”, diz o presidente nacional do PSDB, Sérgio Guerra. Diante da ampla vantagem de Dilma no Nordeste, a tendência é de que a escolha recaia sobre um político da região. O nome mais citado, hoje, é o do senador Tasso Jereissati. Pesam a seu favor fatores importantes: além de atrair votos no Nordeste, neutralizaria o deputado Ciro Gomes (PSB-CE), seu afilhado político, e ajudaria a quebrar a resistência de setores do empresariado que rejeitam o gosto de Serra por um Estado controlador. Tasso diz que dificilmente aceitará a indicação, pois não admitiria levar broncas do ex-governador de São Paulo. Mas, de outro lado, a escolha pode representar o coroamento de sua carreira política.

Além de solucionar a questão do vice, a cúpula do PSDB vai dar prioridade às visitas a Estados onde Serra não tem bom desempenho e à reconquista do Sudeste, região que puxou o crescimento de Dilma nas pesquisas mais recentes. O PSDB dará uma atenção especial a São Paulo. Circula no partido uma planilha com metas de votação para 645 municípios paulistas. O objetivo é abrir seis milhões de votos sobre Dilma no Estado. Na terça-feira 1º em Brasília, Sérgio Guerra reúne-se com as bancadas do PSDB da Câmara e do Senado para organizar as campanhas presidencial e estaduais. A ideia é criar coordenadorias eleitorais nos Estados, que ficarão responsáveis por planejar a mobilização nos municípios. A iniciativa é louvável, mas o atraso em relação à campanha petista é evidente. O PSDB também aposta na tevê. Em busca de votos, os tucanos também vão desafiar a Justiça Eleitoral. Já o fizeram na quinta-feira 27, quando Serra foi a principal estrela do programa do DEM. E promete repetir a dose no dia 10 de junho, no horário do PPS, no seu próprio programa no dia 17 e, no dia 24, em espaço reservado para o PTB. Com as mudanças na campanha e a superexposição na tevê, Serra espera voltar à dianteira na corrida pelo Planalto. É uma aposta otimista, mas há muita água para passar sob a ponte eleitoral.