Edição nº2484 21.07 Ver edições anteriores

Nascido em Teerã

Como um iraniano, cercado por bombas e países ocupados pelos EUA, deveria pensar?

Imagine-se nascido em Teerã. Na primeira aula de geografia, o professor lhe ensinará que seu país, o Irã, é um dos mais ricos do mundo, com a terceira reserva de petróleo do planeta. Em seguida, abrirá um mapa. De um lado e de outro, dois países ocupados pelos Estados Unidos: Afeganistão e Iraque. Abaixo e acima, três potências nucleares: Índia, Paquistão e Rússia.

À direita, a China, ávida por recursos naturais. À esquerda, Israel, que possui ogivas capazes de exterminar a população de Teerã. Conclusão óbvia: o Irã é vulnerável. Conclusão plausível: o país talvez precise de armas atômicas.

Coloque-se agora na aula de história. O professor talvez lhe diga que o Irã é uma teocracia porque, em 1953, um líder democrático, Mohammad Mossaddegh, foi derrubado por um golpe financiado pela CIA. Seu pecado? Nacionalizar o petróleo. Depois disso, a Casa Branca instalou os xás no poder, que, em 1979, foram apeados pelos aiatolás. O professor também dirá que, nos anos 80, o vizinho Iraque buscou a bomba atômica como instrumento de dissuasão em relação a Israel e de construção de um novo equilíbrio nuclear na região. O projeto iraquiano, apoiado pelo Brasil, foi pelos ares em 1981, quando Israel bombardeou o ­reator de Osirak, dando início à teoria dos ataques preventivos, a mesma usada pelos EUA em 2003 para invadir o Iraque em busca de inexistentes armas de destruição em massa – o que se queria, claramente, era o petróleo.

Eis aí o contexto geopolítico que antecedeu a viagem do presidente Lula à Pérsia. E que o Itamaraty conhece bem. Portanto, não faz sentido acreditar que o Brasil esteja sendo ingênuo e usado pelo regime dos aiatolás, como dizem os americanos. A realidade, pura e simples, é a seguinte: o Irã quer a bomba, esconde suas reais intenções e o Brasil apoia. A questão que se deve colocar é outra: isso é certo ou errado? Cedo para dizer. O equilíbrio nuclear, em muitos casos, tem sido um instrumento de paz. Índia e Paquistão só não se atacam porque têm a bomba – e, de todas as potências atômicas, a única que já exerceu esse poder foi a que disparou armas de destruição em massa sobre Hiroshima e Nagasaki.

É possível até que, no futuro, o gesto de Lula em Teerã seja lido como o marco zero da nova ordem global, a despeito da reação dos Estados Unidos e de outros países que ainda defendem sanções. O mundo entrou numa era multipolar, pós-americana e com diversos protagonistas, como o Brasil. E até para os eventuais críticos da política externa seguida pelo Itamaraty (como este escriba) é forçoso admitir: deve-se isso à coragem e ao atrevimento de Lula, um homem que provavelmente ainda levará o Prêmio Nobel da Paz. A personalidade do ano da revista “Time” tentou emparedar o Tio Sam. Um novo mundo talvez possa nascer.


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