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Bomba-relógio

Incêndio no Instituto Butantan expõe a fragilidade dos centros de pesquisa brasileiros e levanta a incômoda questão: esta mos minimamente preparados para guardar nossos tesouros?

Bomba-relógio

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Um amargo sentimento de impotência e incredulidade tomou conta da sociedade brasileira no sábado 15, depois que a maior parcela do acervo do Instituto Butantan, em São Paulo, ardeu em chamas. Mais uma vez, assim como aconteceu após o recente incêndio que consumiu parte do acervo do artista plástico Hélio Oiticica ou depois que a taça Jules Rimet foi derretida por criminosos, um patrimônio brasileiro de valor inestimável foi aniquilado. De novo, uma sequência de erros levou a uma perda irreparável. Ao que tudo indica, a volátil mistura de negligência, má gestão de verbas e falta de estrutura foi o estopim para que um provável acidente – ainda sob investigação da polícia e do Ministério Público – transformasse em cinzas a maior coleção científica de serpentes do mundo.

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DESOL AÇÃO
Cientistas e bombeiros trabalharam
juntos no rescaldo do incêndio no Butantan

Segundo a assessoria de imprensa do Instituto Butantan, o tamanho do estrago só poderá ser contabilizado depois que os trabalhos dos peritos forem concluídos, provavelmente em meados de junho. Mas não há como driblar as evidências que apontam que a maior parte das 85 mil cobras conservadas em álcool e formol foi consumida pelo fogo. Segundo os bombeiros, as chamas elevaram a temperatura interna do prédio, que nem sequer era equipado com um alarme de incêndio ou hidrantes, a 1.200ºC. Como se não bastasse, uma porcentagem considerável dos 450 mil aracnídeos e escorpiões mantidos no local também virou combustível. A inexistência de uma brigada de incêndios no local complicou ainda mais a situação. “Foi brutal, ainda não consegui me recuperar. Tenho contato com a coleção há muitos anos, desde os tempos em que meu pai trabalhava com ela”, diz Carlos Jared, biólogo e pesquisador do Instituto Butantan. “Nossos alunos ficaram órfãos”, resume o também professor da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

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Os relatos emocionados de estudantes e pesquisadores experientes como Jared expõem a faceta mais dramática do ocorrido. Sem os espécimes da coleção, criada pelo médico Vital Brazil no final do século XIX, inúmeros trabalhos de iniciação científica, mestrado e doutorado correm o risco de não serem concluídos. Ao longo da semana passada, fortes cenas foram protagonizadas por dezenas de cientistas que, muitas vezes aos prantos, passavam cobras esturricadas de mão em mão em um improvisado, porém heroico, trabalho de rescaldo. Por outro lado, segundo estimativas do instituto, a maioria dos chamados livros-tombos – que contêm os registros de todos os animais catalogados ao longo dos anos – estaria quase intacta, bem como os arquivos digitalizados.

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ESPERANÇA
Espécimes resgatados acumulam-se
em frente ao prédio incendiado

O incêndio foi o ponto culminante de uma séria crise que se abateu sobre o Instituto Butantan nos últimos tempos. No final do ano passado, o pesquisador Isaias Raw deixou a presidência do órgão, depois de mais de duas décadas, em meio a uma investigação de desvio de cerca de R$ 35 milhões em verbas durante sua gestão. A partir daí, o responsável pelo Butantan passou a ser Otávio Mercadante, diretor-geral do instituto desde 2003. Procurado pela reportagem de ISTOÉ, Mercadante preferiu manter-se em silêncio. Ao longo da semana passada, também foram levantadas novas denúncias a respeito do uso de R$ 1 milhão concedido pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) entre 2007 e 2008. O dinheiro seria destinado a reformas que poderiam ter melhorado a segurança do prédio incendiado.

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“A gestão do senhor Isaias Raw priorizou a produção do soro antiofídico, importantíssima em vários sentidos. Mas, ao mesmo tempo, a coleção do meu avô foi totalmente negligenciada”, diz Érico Vital Brazil, neto do médico fundador do Instituto Butantan e presidente da Casa Vital Brazil há dois anos. Sem esconder sua revolta, o historiador vai além: “Tenho informações sobre outro acervo de documentos históricos, guardado em uma sala que estaria tomada por cupins e repleta de goteiras há algum tempo.”

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Independentemente do avanço nas investigações e do rumo a ser tomado para a recuperação do Instituto Butantan, o incêndio do dia 15 exemplifica o descaso com nosso patrimônio científico. A reportagem de ISTOÉ constatou que outros centros de pesquisa e museus encontram-se em situação semelhante, ou ainda pior, à do órgão paulistano. “Em 1996, uma de nossas alunas derrubou um vidro com álcool no chão, que se quebrou. Uma lanterna caiu em cima do líquido, soltou uma faísca e houve princípio de um incêndio”, afirma Hussam Zaher, diretor do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo. “Felizmente, conseguimos detê-lo a tempo”, conclui. A instituição está instalada em um prédio inaugurado em 1941 e abriga cerca de dez milhões de exemplares de animais brasileiros e de todo o mundo. Grande parte deles também está conservada em álcool. “Não conseguiríamos segurar um incêndio. Só temos extintores”, diz Zaher.

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Sistemas de segurança para coleções co­mo as do Butantan estão disponíveis no mercado e são usados no Museu Nacional de Paris, no Museu Britânico de Londres e no Museu Americano de Nova York (leia quadro). Por aqui, nem sombra. “Contamos com extintores e hidrantes. Nossa coleção de pássaros está guardada em armários de madeira. Em breve devemos comprar gabinetes de aço, capazes de suportar o fogo por até 90 minutos”, diz Nilson Gabas Júnior, diretor do Museu Emílio Goeldi, localizado em Belém do Pará.

Mas nenhum caso se compara ao do Museu Nacional do Rio de Janeiro. Ele funciona desde 1892 no Paço de São Cristóvão, antiga residência da família imperial brasileira, um prédio constituído quase que totalmente de madeira. “Não contamos sequer com uma brigada de incêndio”, afirma Wagner William Martins, diretor-adjunto administrativo da instituição. Segundo ele, o acervo do museu conta com 20 milhões de objetos históricos, animais e plantas. Uma bomba-relógio em potencial.

Resta a esperança de que o incêndio no Butantan tenha mexido de fato com os responsáveis pelo nosso patrimônio. “Vamos avaliar a vulnerabilidade dos acervos de história natural brasileiros para poder definir as prioridades de investimento”, diz a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira. Bióloga de formação, ela é uma das cientistas a sentir a perda. “O acidente no Butantan só fez com que tomássemos medidas mais urgentes”, finaliza. Esperemos.