Tecnologia & Meio ambiente

Vida artificial

Cientistas conseguem criar pela primeira vez uma forma de vida de modo sintético. Entenda por que o feito inaugura uma nova era na ciência

Vida artificial

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OBRA HUMANA
A bactéria criada pela equipe
do cientista americano Craig Venter
 

Até a semana passada, conceber formas de vida era uma prerrogativa exclusiva das forças da natureza e da ficção científica. Embora a física e a química já convivam há algum tempo com a produção de elementos artificiais, existia ainda um senso de que com a biologia a história era diferente. Nesse campo do conhecimento, o objeto de estudo é tudo o que vive – incluindo nós mesmos – e uma certa aura divina impedia até que se pensasse em alcançar tal objetivo. Por isso o impacto da notícia revelada na quinta-feira 20: a vida agora pode ser criada em laboratório. Ou quase isso.

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REPLICANTES
Ainda estamos longe de criar humanos sintéticos
como no clássico de ficção científica “Blade Runner”

Craig Venter e Hamilton Smith, os americanos que em 1995 sequenciaram pela primeira vez o DNA de um organismo vivo (uma bactéria) e que, em 2007, repetiram o feito com um genoma humano (o de Venter), agora foram mais longe. Eles criaram uma bactéria que possui um genoma artificial. O estudo foi publicado na revista especializada “Science”. Primeiro os cientistas pegaram o genoma sequenciado de uma bactéria e fizeram uma cópia sintética. Depois, eles o modificaram e transplantaram para uma célula vazia (sem DNA). A nova bactéria resultante passou a se comportar como um organismo vivo, multiplicando-se normalmente, como qualquer outra célula (leia o quadro Remix Celular). “É a primeira espécie autorreplicante cujo pai é um programa de computador”, disse Venter. Não é exatamente criar vida do nada. Afinal, a cópia foi feita a partir de uma célula orgânica e implantada em outra também já existente. Por isso, os cientistas enfatizam que a forma como ela foi feita é que pode ser chamada de sintética, e não a célula em si.

Ainda assim, especialistas apontam o estudo como o início de uma nova era na biotecnologia. O trabalho, desenvolvido no J. Craig Venter Institute, consumiu 15 anos de pesquisa e cerca de US$ 40 milhões. Não por acaso, as aplicações dessas células podem render outros milhões a Venter, que criou a empresa Synthetic Genomics justamente para comercializá-las. O cientista-empresário pode agora fazer organismos programados para desempenhar funções específicas, como absorver gás carbônico do ar, digerir manchas de petróleo no mar ou produzir biocombustíveis. Novos alimentos, materiais e vacinas também podem ser feitos a partir daí.

Nem todo mundo, porém, dá tamanha relevância ao trabalho. “Na minha opinião, Craig está exagerando em relação à importância dessa descoberta”, disse David Baltimore, geneticista do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech) ao jornal “The New York Times”. Ele considera o feito muito mais um avanço da técnica em si do que uma grande descoberta científica. Vale deixar claro que estamos muito longe da criação de organismos sofisticados, já que a bactéria utilizada por Venter se encontra nos degraus mais baixos da escala de complexidade genética. Conceber replicantes humanos, como no clássico do cinema “Blade Runner”, de Ridley Scott, ainda é pura ficção científica.

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Jim Collins, professor de engenharia biomédica da Universidade de Boston, disse à revista “Nature” que os cientistas não sabem o bastante sobre biologia a ponto de criarem vida. “Embora o Projeto Genoma Humano tenha expandido a lista de partes necessárias para fazer células, não há um manual de instruções para juntá-las e fazer uma célula viva”, afirmou. “É como tentar montar um (Boeing) 747 que funcione a partir de sua lista de peças – algo impossível”, compara. Venter afirma que o próximo passo é criar uma alga sintética. A Synthetic Genomics tem um contrato com a gigante Exxon para gerar biocombustíveis a partir dessas plantas aquáticas. Caso o cientista seja bem-sucedido, seu cliente está disposto a gastar US$ 600 milhões nessa nova fonte energética.

O feito traz à tona, contudo, questões éticas. A ONG Amigos da Terra pediu que todos os estudos fossem paralisados enquanto não houvesse uma regulamentação do governo dos Estados Unidos sobre os organismos sintéticos. Os ambientalistas temem que as criaturas cheguem ao ambiente. O medo não é de todo infundado. O genoma criado por Venter é copiado de uma bactéria que infecta cabras. Ele diz, porém, que extirpou 14 genes que poderiam causar doenças. O cientista também afirma que seu trabalho é acompanhado por comitês de ética acadêmicos e governamentais desde 1995. Antes de publicar o trabalho, ele discutiu os resultados com a Casa Branca e o Senado americano.

Para diferenciar o DNA sintético do material genético original, os pesquisadores usaram marcadores com o alfabeto do DNA (A, T, C e G). Eles aproveitaram para deixar mensagens criptografadas, por pura diversão. Entre as palavras estão os nomes de colaboradores da pesquisa e o endereço de um site secreto. Quem o descobrir poderá mandar um e-mail para a bactéria. Eles inseriram ainda três frases emblemáticas no código genético. Uma delas, do físico americano Richard Feynman, diz muito sobre a relevância do feito: “Aquilo que não consigo construir, não consigo entender.” O recado está dado.

 

Topa Tudo por dinheiro

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AMBIÇÃO
Venter divide opiniões na
comunidade científica

John Craig Venter está muito longe de ser uma unanimidade. Considerado um dos maiores cientistas do século XXI, o americano já entrou duas vezes no ranking anual da revista “Time” com as 100 pessoas mais influentes do mundo. Ao mesmo tempo, as intenções altamente comerciais por trás de suas descobertas renderam-lhe o apelido maldoso de Darth Venter. De fato, o médico não esconde de ninguém seu objetivo de dominar o mundo com ânsia de poder semelhante à do vilão Darth Vader da série “Star Wars”.

Nascido em 14 de outubro de 1946, em Salt Lake City (EUA), o cientista cresceu em uma família de militares. Depois de largar a escola e passar uma temporada dedicando-se ao surfe, foi convocado pelo Exército americano para participar da Guerra do Vietnã como auxiliar médico. Ao servir em um hospital de campanha, encarou a ingrata missão de fazer a triagem de feridos. De volta a seu país, formou-se médico pela Universidade da Califórnia. Logo se interessou pela área de pesquisas e começou a se envolver com estudos genéticos no Instituto Nacional de Saúde americano. De lá, partiu para a iniciativa privada e fez história no ano 2000 ao dividir com os cientistas do Projeto Genoma a decodificação do DNA humano. Enquanto seus concorrentes visavam ao avanço científico, Venter realizou suas pesquisas com a intenção de patentear e comercializar um banco genético global – tentativa que naufragou por causa do sucesso simultâneo de seus rivais.

Assumidamente arrogante, o pesquisador costuma causar polêmica por sua atitude, frequentemente comparada com a de estrelas hollywoodianas. Há três anos, voltou às manchetes ao anunciar que havia alcançado mais um feito inédito ao mapear seu próprio genoma – e descobrir que tinha fortes chances de sofrer do mal de Alzheimer e de doenças cardiovasculares. Em uma palestra no Instituto de Tecnologia de Massachusetts, não escondeu sua falta de modéstia: “O código genético tem 3,6 bilhões de anos. É hora de reescrevê-lo.” Resta saber se, com o objetivo finalmente alcançado, Venter será como Vader e surpreenderá o mundo ao mostrar que, no fundo, há um sujeito com nobres intenções por baixo da máscara de malfeitor.