Editorial

IRÃ-CONTRAS, PARTE 2

IRÃ-CONTRAS, PARTE 2

Em meados dos anos 80, o escândalo do tráfico de armas americanas para o Irã, batizado com o epíteto de Irã-Contras e pilotado pelo próprio chefe do Conselho de Segurança Nacional, o tenente-coronel Oliver North, marcou o grau de promiscuidade das relações dos EUA com aquele país. Hoje são os mesmos EUA que tentam conter a escalada armamentista iraniana. Histórica ironia! O Irã assusta o mundo enriquecendo urânio no estágio final de domínio da tecnologia nuclear e o presidente americano, Barack Obama, não tem sido feliz na missão de barrar a ameaça. Apelou a um último recurso antes de partir para a força. Propôs sanções, um embargo comercial. Quando não havia mais esperança de saída pacífica, o presidente Lula entrou no caminho. Logo ele, “o cara”, como o elegeu o próprio Obama, costurou às pressas uma espécie de acordo de transferência do urânio iraniano, numa triangulação com a Turquia. A comunidade internacional e a mídia, acostumadas a encarar os EUA como árbitro tradicional das pendengas na região, reagiram raivosas. Como emergentes, que até então pediam dinheiro no FMI e rastejavam comando para solucionar seus próprios conflitos, habilitavam-se a protagonizar uma solução desse tamanho? Quanta pretensão! “O cara” – que acaba de ser incluído na lista dos “mais influentes” da revista “Time” – parecia, aos olhos desses observadores, querer tirar a liderança daquele que é visto como o comandante do mundo livre. Assessores de Obama registraram que ele não podia permitir tal coisa. Hillary Clinton, a secretária de Estado que não pode ser confundida com um Oliver North de saias, classificou a movimentação de Lula de ingênua. Ainda não se sabe ao certo como o impasse vai terminar, mas, independentemente de seu desfecho, o Brasil, sob o comando de Lula, deixou de lado a política de discrição diplomática e de alinhamento automático com os EUA para interpretar um papel de destaque no cenário externo, sublinhando uma inédita ascensão no tabuleiro das forças globais. Ao projetar o novo status brasileiro, Lula pode até ter contrariado os parceiros americanos, mas sacramenta a capacidade do País de agente influente entre as novas potências e o credita à tão esperada cadeira no Conselho de Segurança da ONU.

Para ilustrar o embate de lideranças entre Lula e Obama, a capa de ISTOÉ faz uma releitura da capa de “Homem do Ano” de 2008 da “Time” – que, por sua vez, foi inspirada em um pôster de campanha do então candidato Obama. O pôster, de autoria do artista plástico Shepard Fairey, virou ícone da esperança e da mensagem democrática do presidente americano: “Sim, nós podemos.”