Edição nº2484 21.07 Ver edições anteriores

Meu primeiro encontro com o Diabo

Ele, o Tinhoso, com sua loção fedorenta de enxofre, continua à solta, mais vivo que nunca

A primeira vez que eu vi o diabo foi quando tinha seis anos. Lá estava, num livro de ilustrações bíblicas, o Arcanjo Miguel enfiando sua lança no ventre do horrendo Satanás, com pés de cabra, chifres pontudos e tez de um marrom demoníaco. Foi tamanho o espanto que perdi o sono por algumas noites depois da assustadora visão.

Até o começo da adolescência, aquele diabo me perseguiu com sua feiura e seu mistério. Sempre temi o Coisa Ruim, na mesma medida em que me sentia atraído pelo seu aparente ar sedutor e sua carnalidade, o extremo oposto do rival Deus, sempre projetado envolto em barbas brancas, túnicas esvoaçantes e bondade infinita.

No interior, “no tempo de eu menino”, como diria o poeta, ouvia muitas histórias, todas nascidas da imaginação voluptuosa do povo. Histórias como a de Dona Teófila, que virava porco em noite de lua cheia, parte do seu pacto com o Ferrabrás. Ou vez por outra surgia na cidade um sujeito “feio como o diabo”, o que bastava pro povo achar que se tratava do próprio. Lembro também da família que diziam ter feito um pacto com o Capiroto, e que por isso teria criado fortuna tão rápida quanto misteriosamente.

O certo é que a possibilidade da existência do diabo, no campo ou na cidade, a sério ou em anedotas, no passado ou no presente (vide as telerreligiões de hoje), com menos ou mais intensidade, sempre encheu as mentes humanas de perversa e satânica curiosidade. E se existir de fato aquele inferno dos cristãos, com labaredas de fogo sem fim e caldeirões de breu enfumaçados, com condenados urrando ad eternum? E se a morte nos reservar, a nós pecadores, o terrível destino da eternidade nesse lugar tenebroso e inóspito?

Havia um amigo da rua que jurou ter visto o diabo em seu quintal ao fim da tarde, em carne e chifres. Passamos vários dias, eu e outros meninos vizinhos, indo ao seu quintal no lusco-fusco das seis horas, com uma ansiedade tamanha que superava o nosso medo, para checar a tal “informação”. Nunca vimos nada, graças a Deus (acho eu!), e a dúvida acerca de sua existência permaneceu em nossas mentes anos afora.

O romancista que “compôs” o diabo é de um gênio inigualável, pois não pode haver personagem mais sedutor e temido e eterno e misterioso que este. Nem Deus em toda a sua glória, nem Jesus Cristo, nem Maria, nem João Batista, nem Salomé, nem Barrabás. Se nunca se falou tanto em Deus, também o diabo nunca esteve tão em alta (apesar da crença de que o inferno fica abaixo da Terra). Ele, o Tinhoso, com sua loção fedorenta de enxofre, continua à solta, mais vivo que nunca. Agindo a torto e a direito, fazendo o diabo a quatro, cheio de demoníacas artimanhas. Afinal, como alguém já falou antes de mim, o inferno é (e pra sempre será) mesmo aqui.

P.S.: Uma curiosidade: o verbete diabo ocupa muitas linhas no dicionário. Seus sinônimos passam de uma centena e vão desde os brejeiros Anhangá, Beiçudo, Cifé e Labrego até os sonoros (e assustadores) Zarapelho e Mafarrico. Deus ocupa menos espaço.


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