Comportamento

Arte que brota das ruas

Artistas plásticos modificam o cenário das grandes cidades com doses de crítica, beleza e bom humor

Arte que brota das ruas

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ATENÇÃO
Leonardo (de óculos) e Anderson usam postes, bueiros
e muretas para chamar a atenção para a vida nas metrópoles

Um transeunte cruza distraído a esquina onde passa todos os dias, a caminho do trabalho. De repente, vê que a boca-de-lobo virou um gigantesco rosto colorido, com um cigarro pendurado no canto da boca. Sorrir, ignorar ou achar um desperdício de tinta são reações possíveis. Mas, nem que seja por poucos segundos, aquele pedaço da cidade ganha vida diante dos olhos do morador. Esse tipo de ação é chamado intervenção urbana. “Esses bueiros sempre pediram para ser pintados, ouvidos. Eles queriam falar, e nós apenas demos voz a eles”, diz o artista plástico Leonardo Delafuente, que com Anderson Augusto forma a dupla 6emeia, autora de pinturas em dezenas de pontos de São Paulo, como calçadas, muretas, postes e outras peças do mobiliário urbano. Diferentemente dos grafites e das pixações, feitos principalmente com a aplicação de tinta em muros e paredes, as intervenções urbanas brincam com o acréscimo de objetos e esculturas, pinturas em locais inusitados e com pequenas ações que quebrem a rotina visual de um lugar. E geralmente florescem nas grandes metrópoles do mundo.

Foi o que aconteceu numa manhã de domingo de setembro de 2009, surpreendendo os moradores dos prédios ao lado do Elevado Costa e Silva, o Minhocão. Quem olhasse de cima ia ver a via repleta de flores de cal desenhadas no asfalto. “Pensei na forma como um cidadão poderia mudar os arredores de sua casa”, diz Felipe Morozini, fotógrafo que mora na cobertura de um dos prédios ao lado do Minhocão. “Como o Elevado havia sido eleito a obra mais feia de São Paulo, quis que os moradores abrissem a janela e vissem algo bonito.” O trabalho foi um dos vencedores do prêmio nova-iorquino Babelgum.

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JARDIM DE CAL
Morador da região, o fotógrafo Felipe Morozini transformou o
Minhocão (SP) em um jardim suspenso num domingo de
manhã, para embelezar a via, considerada a mais feia da cidade

Efêmeras por natureza, a arte de rua e as intervenções urbanas estão pouco a pouco ganhando espaço também em galerias e museus. O Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo, abrigou no mês passado a exposição “Ossário”, com os registros em fotos e vídeos da ação realizada pelo artista plástico Alexandre Orion no túnel Max Feffer, em São Paulo. No local, o artista desenhou caveiras e com isso limpou a superfície das paredes, coberta por uma grossa camada de fuligem causada pelo tráfego de carros. Ao longo de uma semana, milhares de caveiras amarelas estampavam as paredes escuras do túnel, surpreendendo os passageiros que passavam por ali. Na exposição, ele sujou placas artificialmente com carvão vegetal, para simular a intervenção. “Quem viu na rua teve o olhar da surpresa, do descobrimento.” Na exposição, a intenção é permitir uma leitura organizada do que a ação significa.

Outra vertente convida as pessoas a participar das interferências na paisagem urbana. No sábado 15, às 10 horas, um satélite espacial de alta resolução vai fazer uma imagem de uma parte da cidade de São Paulo. O artista Daniel Lima convocou grupos para fazerem interferências na cidade e filmarem as ações. A foto de satélite e os vídeos irão formar um documentário, intitulado “O Céu nos Observa”. “Essa alteração sutil na imagem da cidade quer mostrar que os indivíduos têm poder de interferir em algo tão grande”, afirma Lima.

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CAVEIRAS
O túnel Max Feffer (SP) foi tomado por
crânios feitos por Alexandre Orion para limpar a
poluição deixada por carros nas paredes

Nem todas as intervenções são politizadas. O grupo GIA, de Salvador, cria há oito anos ações pela cidade. “Escolhemos temas do cotidiano, coisas que nos incomodam e causam motivação para realizar a ação. Mas eles não têm explicação para quem está passando e vê”, afirma Cristiano Píton, artista plástico do GIA. “Não gostamos nem da classificação de arte, para não afastar as pessoas da situação com que elas se deparam na rua.” Uma das últimas ações do grupo foi durante a Páscoa, quando, em vez da tradicional malhação, levaram um boneco de Judas para ser redimido nos bares do bairro Santo Antônio. “O Judas acabou bebendo cerveja em todos os bares de Santo Antônio”, diverte-se Píton.

Segundo a pesquisadora de arte da Universidade Federal de Minas Gerais, Maria Angélica Melendi, esse tipo de manifestação cresceu muito na última década. “É uma tentativa de recuperar o público do espaço público”, diz, frisando a repetição. “A cidade brasileira sofreu um esvaziamento porque existe uma espécie de paranoia urbana. Essa arte tenta recuperar a rua para a vida.” Frágeis, efêmeras, divertidas ou críticas, as intervenções urbanas tentam deixar marcas na cidade. Nem que seja apenas uma reação momentânea de quem vive nelas.