Cultura

Oscar manchado de sangue

Onde os fracos não têm vez exibe uma matança generalizada e lidera as indicações ao Oscar

O que você faria se encontrasse uma mala com US$ 2 milhões? No filme Onde os fracos não têm vez, campeão de indicações ao Oscar de 2008 e que estréia no Brasil na sexta-feira 1o, o ex-combatente do Vietnã e soldador aposentado Llewelyn Moss (interpretado pelo ator Josh Brolin) encontra a tal mala e decide ficar com a fortuna – mesmo sabendo que ela já deixara um rastro de sangue. Falando em sangue, a maleta é achada numa horrorosa cena de crime que envolve pesada carga de heroína, caminhonetes cravadas de balas e diversos cadáveres de traficantes mexicanos. O que Moss não sabe, embora o espectador fique sabendo logo no início do filme, é que em seu encalço estará um assassino frio que costuma matar as pessoas valendo- se de arma pouco ortodoxa: utiliza um tubo de ar comprimido. O seu nome é Anton Chigurh (interpretado pelo ator espanhol Javier Bardem) e seu método não poderia ser mais higiênico. Ele apenas coloca o bico da borracha na testa da vítima e dispara a pistola do gás. O filme é dirigido pelos irmãos Ethan e Joel Coen, está contemplado com oito indicações ao Oscar (o mesmo número de indicações dadas a Sangue negro, de Paul Thomas Anderson) e seu enredo pode ser resumido a uma pergunta: como escapar desse “animal de caça”? Erra quem imaginar que há correrias espetaculares nas cenas de perseguição e fuga. Na verdade, Onde os fracos não têm vez é um suspense digno do mestre Alfred Hitchcock – só que manchado de muito sangue.

O sucesso do filme, que já faturou US$ 46 milhões nos EUA, se dá no momento em que na vida real os governos americano e mexicano firmam parceria no combate ao narcotráfico. Sabe-se que cerca de 90% da cocaína levada ao país passa pelo México, através da chamada Rota do Pacífico. Produzida na Colômbia, a droga é distribuída pelas Farc e entregue aos cartéis mexicanos. Em 2006, essas organizações criminosas receberam 380 toneladas de cocaína, que entraram em solo americano pelos Estados fronteiriços, hoje palco de guerra pelo controle do tráfico. É justamente essa sangüinolenta batalha que o filme retrata. A história se passa na fronteira do Estado do Texas com o México (embora tenha sido filmada um pouco mais longe, na parte oeste, e no Novo México) e mostra a paisagem mítica dos faroestes com seus desertos e cidades paradas no tempo. Tanto é assim que Josh Brolin (que não foi indicado para o prêmio de melhor ator pela Academia de Hollywood) veste-se como um caubói.

O único ator indicado foi Javier Bardem, vencedor do Globo de Ouro por sua atuação neste filme – concorre na categoria ator coadjuvante e deve ganhar. Ele já havia disputado o prêmio em 2001, pelo filme Antes que anoiteça. Desta vez tem mais chances por estar numa grande produção americana e falando (bem) inglês. Na verdade, é preciso bom domínio do idioma para convencer o público em diálogos tão bem escritos como são os de Onde os fracos não têm vez (adaptação do romance de Cormac McCarthy, por isso concorre também ao Oscar de melhor roteiro adaptado). Exemplo de texto: no encalço de Moss, o matador Chigurh chega a uma loja de beira de estrada cujo dono, um velhinho rosado e educado, tenta ser o mais atencioso possível. A civilidade da conversa vai dando lugar a uma animosidade que caminha para uma violência verbal insuportável, até que Chigurh propõe ao ancião uma disputa de cara ou coroa. Ele vence e tem a vida poupada. Alívio para a platéia. Decidir sobre a vida de uma pessoa através de uma moeda é outra das manias de Chigurh, um dos vilões mais assustadores do cinema americano desde o canibal de Anthony Hopkins e o ex-presidiário de Cabo do medo (vivido por Robert De Niro). Para tornar o personagem ainda mais esquisito, Bardem usa um corte de cabelo fora de moda. Copiado de uma foto antiga do dono de um prostíbulo, o penteado lhe faz parecer um tipo de procedência não identificável. É tão estranho que, quando se olhou no espelho, o próprio ator comentou: “Com esta aparência não conseguirei seduzir nenhuma mulher durante as filmagens”.

FOTOS: DIVULGAÇÃO

OPOSTOS Bardem (acima) no filme dos Coen e Keira em Desejo e reparação

Os campeões em indicação à estatueta

Agraciado também com oito indicações, incluindo as de melhor filme e diretor, Sangue negro é uma saga que já traz sangue no título. Trata-se da trajetória do mineiro Daniel Plainview (Daniel Day-Lewis, indicado a melhor ator), que se torna um magnata do petróleo na Califórnia no início do século XX. Dois filmes concorrem em sete categorias: Desejo e reparação e Conduta de risco. O primeiro, com Keira Knightley, é sobre uma escritora que tenta consertar um erro cometido na infância – forte candidato em fotografia, direção de arte e figurinos. Já Conduta de risco, dirigido pelo roteirista Tony Gilroy, satisfaz o lobby da categoria que continua em greve em Hollywood, mas tem poucas chances de levar alguma estatueta. Pelo lado feminino, Marion Cotillard entra na corrida ao Oscar com boas possibilidades de vitória devido a sua performance em Piaf – um hino ao amor. Cate Blanchett, indicada a melhor atriz por Elizabeth – a era de ouro, deve mesmo ganhar como atriz coadjuvante por sua interpretação de Bob Dylan no filme Não estou lá.