Medicina & Bem-estar

O lado desconhecido das terapias alternativas

Pesquisas começam a revelar os efeitos colaterais e limites de técnicas como acupuntura, ioga, meditação e fitoterapia

O lado desconhecido das terapias alternativas

AGULHAS Marcela não se deu bem com a acupuntura. A dor de cabeça não cedeu e, ainda por cima, tinha medo das agulhas ()

i64060.jpgOs benefícios da meditação, ioga e acupuntura são conhecidos. Mas existe um lado menos badalado dessas terapias que começa a ser examinado pelos cientistas. São os efeitos colaterais e os limites de cada uma. Uma das áreas investigadas são as preparações de ervas medicinais. No mês passado, um trabalho da Universidade de Boston (EUA) revelou a presença de arsênico, mercúrio e chumbo em níveis acima do tolerável em 20% de um lote de remédios ayurvédicos comprados pela internet. Eles são usados pela medicina tradicional da Índia, que se expandiu pelo mundo, e levam na composição ervas, metais e minerais. O excesso dessas substâncias causa intoxicações que podem evoluir para lesões neurológicas. “Por isso, os produtos devem ter origem conhecida”, disse à ISTOÉ o médico tibetano Pema Dorjee.

As revelações sobre os efeitos das plantas medicinais estão transformando a rotina de especialistas nos EUA. Lá, alguns cirurgiões e anestesiologistas se preocupam em descobrir se o paciente usa produtos à base de planta antes de operar. Ervas como a gingko biloba e o ginseng coreano podem aumentar a ação de drogas anticoagulantes, o que eleva o risco de hemorragias. “É necessário interromper seu uso até uma semana antes da cirurgia”, disse à ISTOÉ o cientista Jonathan Moss, estudioso do tema.

No Brasil, especialistas como Paulo de Tarso Lima, do Hospital Albert Einstein (SP), trabalham para divulgar os conhecimentos sobre interações, limites e efeitos colaterais das terapias complementares. Ele ensina, por exemplo, que a planta equinácea prejudica a metabolização de quimioterápicos. Uma das pacientes de câncer orientadas por ele, Maria do Rosário Sampaio, evita chás medicinais e baniu da dieta o shiitake quando soube que comêlo em porções generosas eleva o risco de interações durante a quimioterapia. Mas faz ioga para ficar mais tranqüila na luta contra a doença.

A acupuntura também tem aspectos sob investigação. Já se sabe que os resultados são melhores nos jovens do que em idosos. “O que determina essa diferença é a integridade dos nervos que conduzem pelo corpo os impulsos elétricos desencadeados pelas agulhas. Por isso, os efeitos também podem ser menores em casos de doenças que os afetem”, explica o médico e acupunturista Hong Jin Pai, da Universidade de São Paulo. A estudante Marcela Vidal não se deu bem com o método para aliviar a enxaqueca. “E ainda tenho medo de agulhas. Agora, medito”, conta.

No caso da meditação, o instrutor Stephen Little diz que a prática não é adequada para depressão profunda. “O indivíduo tende a acentuar aspectos negativos de suas experiências”, diz. Já a ioga deve ser ministrada com cuidado na presença de doenças que afetam os ossos. Além disso, excessos e má orientação podem render dores músculo-esqueléticas. “E certas técnicas que aceleram a respiração não são recomendáveis para pessoas com epilepsia e esquizofrenia”, explicou a ISTOÉ o psiquiatra Bangalore Gangadhar, do Instituto Nacional de Saúde Mental e Neurociência, na Índia.

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