Edição nº2480 23.06 Ver edições anteriores

Palavrões e poesia

O palavrão é um recurso dadivoso da língua, um presente da natureza, tem efeito libertador, depurativo

A lei “Pimenta na Boca” entrou em vigor no início de março. Proíbe palavrões, atos violentos e gestos obscenos nos estádios da Paraíba. Preventiva, não há punições previstas por enquanto, mas, a depender da falta de decoro, a coisa pode virar caso de polícia.

Concordo que atos violentos e gestos obscenos devam ser punidos (e bem punidos), afinal não sou um bárbaro, embora vez ou outra pareça. Mas proibir o palavrão? E logo num estádio? Que p… é essa, minha gente? O palavrão é um recurso dadivoso da língua, um presente da natureza, tem efeito libertador, depurativo. Posso afirmar que alguns torcedores vão ao estádio especialmente para, naquela terra de ninguém, naquela arena dionisíaca, xingar e berrar e insultar sem amarras, sem medo da censura, sem pudor nem cerimônia.

Falo de cátedra, até porque, quando vou a estádios, gasto todo meu repertório laico em vitupérios e infâmias anônimas. Também já testemunhei velhinhas com ares de vovós mandando o juiz àquele lugar sem nome; crianças de 10 anos espinafrando o zagueiro por ter falhado no gol com vocabulário “requintado” para a pouca idade; casais maduros e empertigados caluniando a progenitora do bandeirinha e coisas tantas que até Deus duvida.

O palavrão é um patrimônio cultural brasileiro. E não só. Lembro de ter presenciado certa vez, para minha enorme surpresa, num vilarejo no interior de Portugal, duas velhas senhoras, personagens como que saídas de um conto medieval, numa prosa improvável, aqui reproduzida na íntegra (afinal jamais esqueci de tal acontecimento):
– Mas aquele fornicador do teu genro, hein? Achei
que tinha tomado jeito, ora pois!
– Qual o quê, caralho! Aquela porra não serve nem para morrer.
– Que caralho!
Ouso dizer, com a autoridade de um psicólogo de botequim, que o palavrão tem função terapêutica. Mas, claro, há que ter poesia também, se é que me entendem. E não estou falando isso para parecer politicamente correto (até porque jamais o seria), mas para preservar o lirismo mesmo que por vezes está lá, embutido num chulo palavrão.

A absurda lei “Pimenta na Boca” pode até emplacar, mas vai roubar um tanto da graça das torcidas e do calor das contendas. É, para as autoridades paraibanas, pimenta no c… do torcedor é mero refresco.
***
Não por acaso, lembro do imenso poeta José Paulo Paes. Paulista de Taquaritinga, nasceu em 1926 e morreu em 1998, aos 72 anos. Esteve próximo da poesia concreta no seu início e publicou vários livros, desde ensaios literários até poesia infantil. Uma de suas principais obras é a antologia “Poesia Erótica”, em que traduziu poetas que penetraram fundo (com o perdão da expressão!) na lírica erótica, desde os primórdios até a modernidade. Aqui reproduzo “Epigrama”, poema saído da pena do francês La Fontaine, aquele mesmo, autor das célebres fábulas que todo pai um dia por certo contou ao filho na hora de dormir.

Amar, foder: uma união
De prazeres que não separo
A volúpia e os desejos são
O que a alma possui de mais raro.
Caralho, cona e corações
Juntam-se em doces efusões
Que os crentes censuram, os loucos
Reflete nisto, oh minha amada:
Amar sem foder é bem pouco,
Foder sem amar não é nada.


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