Cultura

Patrocínio cultural da CIA

Livro revela como o serviço secreto dos EUA atraiu intelectuais e artistas liberais para combater o comunismo

ARTE E POLÍTICA Em 1950, o senador McCarthy depôs no Congresso dos EUA

Nunca o financiamento da arte de vanguarda nos EUA foi tão generoso quanto nos anos que se seguiram à Segunda Guerra Mundial. Os cofres do governo americano derramaram milhões de dólares na promoção de sua cultura pelo mundo e depositaram igual fortuna para que ninguém abrisse a boca sobre o assunto. O livro Quem pagou a conta? A CIA na guerra fria da cultura (Record, 509 págs. R$ 68), da jornalista britânica Frances Stonor Saunders, é uma das mais reveladoras reportagens dos bastidores desse período em que o serviço secreto dos EUA transformou muitos de seus artistas numa arma contra a extinta União Soviética e o comunismo. Esse movimento foi um produto do macarthismo, política idealizada pelo senador Joseph McCarthy que perseguiu comunistas e liberais de esquerda de forma implacável entre os anos 1948 e 1956. Mas se o macarthismo caçava direta e oficialmente as “bruxas”, a CIA era mais sutil: funcionava à base de favores. Artistas, intelectuais e escritores eram “eleitos” e ganhavam incentivos proporcionados por fundações, empresas filantrópicas e grandes corporações idôneas que publicamente se diziam apolíticas.

Ao longo de duas décadas chegaram a existir mais de 35 escritórios nos EUA e na Europa para promover exposições, lançar revistas e jornais literários, organizar seminários e conferências internacionais e premiar pintores e escritores de vanguarda. O sistema foi arquitetado no governo do presidente Harry Truman (1945 –1953) mas, segundo a autora, não foi certamente uma estratégia elaborada por ele, que era avesso à modernidade. Frances conta que Truman tinha o hábito de ir ao Museum of Modern Art (MoMA), em Washington, diariamente e bem cedo. Contemplava telas de Rembrandt, Rafael e outros clássicos e retornava à Casa Branca para o seu café da manhã. Após uma dessas visitas, ele escreveu em seu diário: “É prazeroso vislumbrar a perfeição da arte clássica. E pensar nessa loucura sem sentido dos modernos! É como comparar Cristo a Lênin (líder da revolução bolchevista na URSS)”.

O “eleito” Pollock

Longe da Casa Branca, algumas cabeças pensavam diferente. Thomas Braden, o homem forte da CIA e que tinha a função de promover o anticomunismo, era uma delas. Ele percebeu que a arte moderna compartilhava alguns princípios anticomunistas: prezava a liberdade individual, a audácia e o arrojo (os ditadores Adolf Hitler e Josef Stalin abominavam a arte abstrata). E, além disso, ela não é figurativa e mantém-se, no campo estético, politicamente silenciosa – a antítese do realismo socialista. Essa era a ideologia que alimentava a entusiasmada política cultural americana. E Thomas Braden recebeu sinal verde para gastar US$ 150 milhões anuais nesse projeto. Vale o ditado: “Se a esmola é demais, o santo desconfia.” Em toda a década de 50 circulava entre os artistas o comentário de que a CIA era a mais respeitada crítica de arte dos EUA. A agência chegou a ser apelidada de “cordão umbilical de ouro” em razão de sua estreita relação com alguns grupos de criação – e uma de suas crias foi o hoje celebrado artista expressionista abstrato Jackson Pollock (1912-1956), o qual foi elevado a representante da vanguarda na época. Pollock tinha o perfil ideal: nascido num rancho em Wyoming, era um perfeito caubói, falando grosso e alardeando o modo de vida do oeste do país. Era o que a CIA queria para desfazer de uma vez por todas a imagem que a propaganda comunista criara dos EUA: “uma nação culturalmente estéril, formada por filisteus que mascavam chiclete, dirigiam Chevrolets e se protegiam com produtos Dupont (coletes à prova de balas).”

Sediado em Paris, o Congresso para a Liberdade Cultural (1950-1967), administrado por europeus e financiado com dinheiro americano, publicou mais de 20 jornais e revistas, sendo a de maior prestígio a inglesa Encounter. Em 1959, para solapar o Festival da Juventude Comunista, a CIA promoveu, na mesma época, eventos culturais em Viena. Anos antes, o MoMA de Nova York fez a curadoria da exposição Jovens pintores, que viajou pela Europa, sendo que a maior parte das obras integrava a escola de arte abstrata. Segundo a autora de Quem pagou a conta?, o museu tinha íntimas conexões com a agência de inteligência, a começar pelo seu principal patrono, o bilionário Nelson Rockefeller. Frances vai mais longe: teria sido esse o objetivo de Rockefeller quando pagou o mexicano Diego Rivera para que ele pintasse os gigantescos murais do Rockefeller Center, em Nova York. Ocorre, porém, que nesse caso a estratégia não deu muito certo: em um dos murais, Rivera pintou as feições de Lênin, enfrentando as objeções de seu mecenas. Devido às elevadas dimensões do trabalho, ele demorou a ser destruído – isso só aconteceu dois anos depois, a golpes de marreta.

O cínico e a inocente útil

GEORGE ORWELL Escritor delatou colegas de esquerda

Em Quem paga a conta?, Frances Stonor Saunders é implacável com o escritor George Orwell, autor de A revolução dos bichos. Ela diz que o autor dividiu o mundo entre “os porcos comunistas e os humanos capitalistas” e entregou à CIA uma lista com 35 nomes de simpatizantes do comunismo. Segundo Frances, também a historiadora e filósofa alemã Hannah Arendt contribuiu com a CIA em troca de verbas do governo americano para se hospedar em hotéis de luxo e comer em caros restaurantes quando viajava como conferencista. Hannah estaria no grupo dos “inocentes úteis”: não sabia nem desconfiava da “filantropia cultural dos EUA”. Os conscientes disso, de acordo com a autora, são os cínicos.

 

HANNAH ARENDT A filósofa não sabia nada sobre a CIA