Medicina & Bem-estar

Game de cirurgiões

Jogos eletrônicos que exigem movimentos delicados e precisos elevam a perícia médica

BANNER GOOD SAMARITAN/DIVULGAÇÃO

TREINO A cirurgiã americana Jodi Gerdes testa jogo em desenvolvimento para médicos

Brincar com videogames deixou de ser apenas um jeito divertido de passar o tempo. De acordo com os resultados de um estudo divulgado na semana passada pela revista científica New Scientist, distrair-se com jogos de última geração antes das cirurgias pode ser uma importante ferramenta para melhorar o desempenho dos especialistas. Para chegar a essa conclusão, uma equipe do Banner Good Samaritan Medical Center, no Arizona (EUA), pediu a oito cirurgiões recém-formados e em fase de treinamento que manobrassem durante uma hora os controles sem fio do Wiimote, da Nintendo. Lançado no ano passado, esse modelo traz sensores de movimento que permitem a reprodução simultânea dos mínimos movimentos executados pela mão do jogador no ambiente virtual. "No final dos testes com os voluntários, o grupo que usou os games Wii mostrou um desempenho 50% melhor no controle de pinças e bisturis durante cirurgias virtuais do que aqueles que não fizeram o aquecimento", disse à ISTOÉ o médico Kanav Kahol, um dos autores do trabalho.

Outros trabalhos já tinham identificado o potencial promissor dos videogames no treinamento de cirurgiões. Um deles, feito no Centro Médico Beth Israel, em Nova York, mostrou que dedicar apenas 20 minutos aos jogos virtuais antes de uma operação melhorou a performance dos médicos e ajudou a reduzir o tempo de cirurgia em alguns minutos. Em relação aos estudos anteriores, o passo à frente dado pela equipe do Arizona foi especificar os tipos de videogame mais eficientes para aguçar as aptidões médicas requeridas durante um procedimento cirúrgico, como a necessidade de coordenação entre mãos e olhos. Depois de avaliar versões eletrônicas de jogos esportivos, como tênis e golfe, os especialistas deduziram que os melhores são os que demandam pequenos movimentos. "Vimos que games em que os jovens médicos precisavam mover uma raquete de tênis imaginária ou usar um taco de golfe não tiveram grande impacto na sua performance. O segredo está em gestos rápidos e controlados", disse Kahol. Com base nos novos dados, a equipe do hospital americano já está desenvolvendo em seus laboratórios um videogame específico para médicos. "Vamos criar um ambiente virtual para aprimorar o desempenho durante cirurgias minimamente invasivas, como a laparoscopia", revelou o pesquisador.

No Brasil, hospitais de primeira linha como o SírioLibanês e o Albert Einstein, em São Paulo, não oferecem videogames nas salas de descanso usadas pelos médicos nos intervalos entre as cirurgias. Mas a opção começa a ser vista com mais simpatia. "Não temos experiências de treinamento com esses jogos, mas não há dúvidas de que contribuem para o desenvolvimento de habilidades e representam uma opção para o futuro", diz a enfermeira Cristina Mizoi, gerente de treinamento do Instituto de Ensino e Pesquisa Albert Einstein.