Eleições 2010

Os Petistas contra Lula

Apesar dos apelos do presidente por união, lideranças regionais dão início a uma batalha para decidir quem será o candidato do partido nos Estados

Os Petistas contra Lula

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APAZIGUADOR
Lula pediu a Dutra que faça um périplo pelos Estados a fim de estancar as brigas internas

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Apesar de ser o que os petistas gostam de chamar de “cristã nova”, a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, conseguiu romper as resistências internas e ser aceita por aquele que é talvez um dos partidos mais heterogêneos do País. Contando com a força quase imperial do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma foi aclamada por todas as tendências ideológicas que compõem o PT como a candidata à Presidência da República do partido, que prometeu colocar sua eleição como prioridade absoluta este ano. Publicamente, o discurso é de união, mas, nos intrincados bastidores petistas, disputas regionais acirradas começam a emergir em vários Estados e, também, a preocupar o comando de campanha da ministra. No início do mês, a direção nacional do partido avisou que considera as prévias regionais “politicamente inoportunas” neste momento.

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DISTRITO FEDERAL
Magela  e Queiroz partiram para a troca de acusações na briga pela vaga ao governo

Mesmo assim, em Pernambuco, Mato Grosso, no Rio de Janeiro e Distrito Federal, o partido caminha para uma disputa interna de consequências imprevisíveis. Ninguém reconhece que esteja contrariando a orientação de Lula. Mas, nos bastidores, petistas argumentam que o presidente não deveria se intrometer nos diretórios regionais. Lula, por sua vez, está furioso. “Por mais que insista na importância do projeto nacional, normalmente o que acontece é que cada um olha para o seu umbigo e prevalecem as questões dos Estados”, desabafou o presidente Lula em conversa com aliados. Em Mato Grosso, a senadora Serys Slhessarenko não admite abrir mão da reeleição em favor da candidatura ao Senado do presidente do PT-MT, deputado Carlos Abicalil. Se não for a candidata do partido ao Senado por Mato Grosso, Serys avisa que não concorrerá a nenhum cargo eletivo este ano.

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DISTRITO FEDERAL
Magela e Queiroz partiram para a troca de acusações na briga pela vaga ao governo

“Sou a candidata natural. Nunca vi uma senadora, no exercício do cargo, não ter prioridade para se reeleger”, disse Serys à ISTOÉ. “A postura do Abicalil pode trazer prejuízos ao desempenho do PT nas eleições 2010”, acrescentou. Abicalil insiste e parece não ligar para o que pensa o presidente Lula. “O PT é um partido de todos os petistas. São eles que vão decidir quem é o melhor candidato para disputar este ou aquele cargo.” Em Pernambuco, o clima também esquentou depois que o ex-prefeito do Recife e um dos candidatos ao Senado, João Paulo, disse que seu adversário no partido é “primário e infantil”. João Paulo concorre contra o secretário estadual de Cidades e ex- ministro da Saúde, Humberto Costa.  O líder do PT na Câmara, FernandoFerro (PE), lamenta que setores do partido estejam priorizando os interesses regionais, em detrimento do projeto nacional.

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RIO DE JANEIRO
Lindberg e Benedita vão disputar prévias para saber quem concorrerá ao Senado

“Nós não podemos  eleger um senador e não elegero presidente da República”, disse. Em Brasília, a disputa entre o deputado Geraldo Magela (PT-DF) e o ex-ministro do Esporte Agnelo Queiroz (PT-DF) pela candidatura ao governo descambou para a troca de acusações. Magela acusa Queiroz de ter se omitido durante o episódio do Mensalão do DEM e espalha nos bastidores que seu adversário teria uma relação com Durval Barbosa, pivô do escândalo envolvendo o governador afastado José Roberto Arruda. Queiroz acusa Magela de romper um acordo feito entre os dois: “O PT não precisa de um galo de briga. Já que ele quis assim, vamos para a disputa.” A pedido de Lula, o presidente nacional do PT, José Eduardo Dutra, passou os últimos dias tentando apagar incêndios. Convencido das dificuldades, Dutra, que pretende ser uma espécie de algodão entre os cristais na relação entre os petistas nos Estados, estabeleceu um roteiro com cinco itens. Cada tópico prevê a tentativa de um acordo.

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RIO DE JANEIRO
Lindberg e Benedita vão disputar prévias para saber quem concorrerá ao Senado

Não sendo possível o acerto, Dutra passa para a proposta seguinte. “Esgotadas todas as tentativas, não restará alternativa senão a realização da disputa no voto”, reconheceu Dutra em entrevista à ISTOÉ. “Não podemos gastar energia com disputa interna. Prévias são um exagero”, lamentou. Segundo o presidente do partido, se as prévias forem inevitáveis, que elas aconteçam num rito sumário. “Duas semanas de campanha”, sentenciou. Será o caso do Rio de Janeiro. Sem chance de pacificação no Estado, a queda de braço entre o prefeito de Nova Iguaçu, Lindberg Farias, e a ex-governadora Benedita da Silva pela vaga ao Senado irá à última instância. As prévias já estão marcadas para o dia 28. Lindberg evita atacar Lula diretamente, mas diz que a resolução do Diretório Nacional foi feita para constranger as pessoas e fazê-las desistir das prévias. “Já não vou sair para governador, o povo não aceita que eu não seja nada”, disse. Não é a primeira vez e provavelmente não será a última que o PT dará dor de cabeça ao presidente Lula. Durante os mais de sete anos de governo, Lula cansou de reclamar do partido em conversas privadas.

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MATO GROSSO
Abicalil quer desistência de colega do PT para disputar o Senado

Debitou na conta do  PT, por exemplo, a eleição, em 2005, deSeverino Cavalcanti (PP-PE) à presidência da Câmara, que tantos problemas políticos gerou para o governo. No fim do ano passado, em discurso em São Bernardo do Campo (SP), Lula criticou abertamente o partido ao dizer que era preciso privilegiar as alianças. “A gente já perdeu muita eleição porque o PT era metido a besta e queria sair sozinho”, disse Lula. A sede do partido por cargos e espaços no poder federal também já gerou atrito com a ministra Dilma. Ao blog do ex-ministro José Dirceu, Dutra disse que o partido esperava mais protagonismo no governo Dilma. A ministra não concordou. Para ela, o partido está bem representado no atual governo. Nas conversas com os aliados, Dilma garantiu que pretende fazer um governo plural, com espaço para todos os fiadores do projeto de fazê-la a sucessora de Lula. 

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PERNAMBUCO
João Paulo chamou adversário de candidato “primário e infantil”