Economia & Negócios

A guerra do algodão

Autorizado a compensar perdas do agronegócio provocadas pelos EUA, o governo Lula pode sobretaxar até filmes de Hollywood

A guerra do algodão

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Durante muito tempo, os Estados Unidos deram uma mãozinha para seus produtores de algodão. Foram US$ 12,5 bilhões em subsídios para os americanos, que competiam em condições de desigualdade com os exportadores brasileiros. Em 2002, o Brasil reclamou na Organização Mundial do Comércio (OMC) e, no ano passado, venceu a briga. Como forma de compensação, foi autorizado a restringir importações americanas num volume total de US$ 829 milhões, mas a retaliação, que deveria seguir o script técnico estabelecido pela OMC, transformou-se em um cavalo de batalha nas relações bilaterais. Em visita a Brasília na terça-feira 9, o secretário de Comércio americano, Gary Locke, disse que seu governo não tem interesse numa guerra comercial. “Todos perdem.” O apelo de Locke não sensibilizou o Planalto.

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BANDEIRA BRANCA
O americano Locke diz que, na briga, “todos perdem”

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, embora tenha negado publicamente que vá entrar na “guerra”, deu sinal verde à Câmara de Comércio Exterior (Camex) para que comece a trabalhar na segunda rodada de sanções, a partir do dia 23. A medida segue a publicação da lista de 102 produtos americanos que sofrerão sobretaxa de importação. “Não vamos recuar se não houver compensação”, avisou o ministro do Desenvolvimento, Miguel Jorge. A relação de itens cobre US$ 591 milhões do total de US$ 829 milhões em retaliações autorizadas pela OMC. O saldo restante será usado numa retaliação cruzada que prevê a quebra de patentes de remédios não controlados e a área de direitos autorais de obras literárias e artísticas – inclusive filmes de Hollywood, que podem sofrer taxação ou bloqueio temporário de remessas de royalties. A empreitada do governo obteve respaldo da Fiesp.

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Mas para o presidente da Associação Brasileira de Produtores de Algodão (Abrapa), Haroldo Cunha, a retaliação é um presente de grego, pois restringe o comércio. O ideal, diz Cunha, seria o governo americano acabar de vez com os subsídios ao algodão, mas falta clima político nos EUA. A Abrapa e o governo gastaram, desde 2002, cerca de US$ 6 milhões com a causa. “Temos que fazer valer esse investimento”, afirma o empresário. O prazo para um acordo que evite a aplicação das sanções termina em 7 de abril. Espera-se que nesse caso os EUA apostem na diplomacia, com uma proposta razoável que evite a escalada do conflito.