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Cartas trocadas na prisão

Um mergulho na cabeça e no cotidiano do casal Nardoni através das 600 correspondências trocadas por Anna Carolina e Alexandre no cárcere

Cartas trocadas na prisão

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Cartas trocadas na prisão: um mergulho na cabeça e no cotidiano do casal Nardoni através da correspondência trocada por Anna Carolina e Alexandre. Confira a reportagem em vídeo

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Caso Nardoni: Antonio Carlos Prado, editor-executivo de IstoÉ, faz uma análise dos quase 2 anos de investigações sobre o casal

Clique aqui para ler trechos da correspondência trocada por Anna Carolina e Alexandre
 

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LONGE
Os Nardoni estão presos na cidade paulista de Tremembé, separados por cerca de dez quilômetros
essa é a distância entre a penitenciária feminina e a masculina

Pise numa cadeia e verá. A primeira pergunta que um preso ou uma presa lhe fará é a seguinte:
– O senhor é advogado?
Se a resposta for sim, ele pedirá que o ajude a conquistar sua liberdade. Se a resposta for não, o encarcerado emenda um pedido simples demais:
– O senhor pode mandar caneta, papel, envelope e selo para mim?
É isso: quem está cumprindo pena em uma instituição prisional quer sair de lá e gosta de escrever cartas (além de falar pelo celular, é claro). No item correspondência por escrito, não é diferente com Anna Carolina Trotta Peixoto Jatobá Nardoni e Alexandre Alves Nardoni (de celular eles querem distância e isso é atestado por todos os guardas e diretores). O casal escreve, e muito: um total de 600 cartas ao longo de quase dois anos de aprisionamento (somando-se as dela com as dele), ou seja, cerca de 25 correspondências trocadas a cada mês. Como todo homem, Alexandre generaliza mais; como toda mulher, Anna Carolina é mais detalhista: “(…) prefiro ficar na cela, deito, descanso (…) quando bate o sinal das 13 horas volto ao serviço”, escreveu ela, por exemplo, no dia 22 de junho do ano passado, contando o que faz logo depois do almoço. Ou, então, sobre a festa junina, no dia 24 de junho, também de 2009: “(…) aqui vai ser na sexta-feira, no dia de seu niver (…) esse ano vendeu milho em espiga e (…) para quem estiver em cela será entregue na cela mesmo, na hora do café, às 15 horas (…)”. Em outras muitas correspondências, ela conta ao marido que está cansada, mas gosta de trabalhar na penitenciária na firma que faz uniformes: “(…) eu ando dormindo às 20:00 hs. Chego tão cansada que não vejo mais nem o começo do Caminho das Índias (…)”

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Na rotina da cadeia, marido e mulher, escrevendo tanto como escrevem, acabam muitas vezes se repetindo nos assuntos – e nem daria para ser diferente: vida de preso é monótona. Entre os temas recorrentes estão, por exemplo, a preocupação com o carinho dos filhos distantes (vivem com os avós, que os levam para visitar os pais), a saúde de parentes, a alimentação, e, por que não?, a necessidade e vontade de cortar ou mudar a cor do cabelo – isso somente da parte dela, é claro. No dia 27 de novembro de 2008, Alexandre escreveu: “(…) eu perguntei sim, meu amor, de você para o “titi” (um dos filhos), se você estava linda como sempre e se ele tinha te beijado bastante (…)”. Em outra carta, ele pergunta: “(…) você viu como os nossos dois pequenos estão boizinhos? (…)”. Mais: “precisamos resolver a escola do “titi” (…)”. Agora, é ela escrevendo no dia 18 de agosto de 2009: “De saúde, amor, fique tranquilo, pois estou ótima (…) amor, eu sei que você não gosta da cor que está o meu cabelo, eu sempre falo para minha mãe… risos… Não se esqueça, meu amorzinho, que eu te conheço até do avesso (…)”.

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Entre o calhamaço de escritos de Anna Carolina e Alexandre é claro que não poderia faltar, de ambas as partes, a tristeza e a depressão – às vezes ambos “ficam emocionalmente péssimos” no mesmo período, outras vezes um está menos abatido e tenta transmitir ânimo para o outro. Alexandre, no dia 26 de fevereiro de 2009: “(…) nós temos que ter muita paciência e aguardar o tempo (…) a cada dia Deus está dando para nós muitas forças e nos fortalecendo”. Há registros ao contrário, nos quais é ela quem se expressa para melhorar o estado de espírito e abatimento do marido: “(…) eu sei que um dia a verdade surgirá, não duvide disso, todo esse nosso sofrimento vai ter fim (…)”. Em todas as cartas, invariavelmente, eles se despedem mandando beijo na boca. E assinam “P.I.C. – Amor Eterno”. O I é a letra inicial de Isabella, o P e o C as letras iniciais dos nomes dos dois filhos do casal, Pietro e Cauã.

Leia outras cartas inéditas do casal, que não foram publicadas na versão impressa de ISTOÉ