Medicina & Bem-estar

A perigosa moda da Colonterapia

Usada como alternativa para emagrecer e combater doenças como a depressão, a lavagem do intestino se expande no Brasil e seduz celebridades. Mas traz riscos à saúde

RUBENS CHAVES/AG. ISTOÉ

PACOTE
No consultório do biomédico Carlos Naldi, o tratamento completo pode durar até dez sessões

Uma nova terapia alternativa está conquistando um público sem precedentes no Brasil. Trata-se da colonterapia, um tipo de limpeza das paredes do intestino grosso (o cólon) feito com jatos suaves de água emitidos por um aparelho.

A finalidade do método, também chamado de hidrocolonterapia, é extrair resíduos e toxinas das profundezas do órgão, que mede cerca de 1,5 metro. A promessa para quem se submete ao processo é alcançar uma profunda revitalização do organismo e o alívio de males como a prisão de ventre, dores crônicas, enxaquecas e sintomas de depressão. O pacote se completa com a perda de alguns quilos. Com duração de cerca de 45 minutos, cada aplicação custa, em média, R$ 120. “Quem faz uma vez resolve os sintomas da prisão de ventre, mas os outros benefícios só aparecem com a prática regular. É uma conseqüência da limpeza das toxinas, que deixam de ser absorvidas pelo organismo”, explica o clínico geral Tiago Almeida, que aprendeu o método na Espanha e atende em seis cidades. Em geral, os tratamentos duram entre oito e dez sessões.

A técnica já é oferecida em diversos SPAs e calcula-se que existam mais de 60 clínicas especializadas no País, muitas delas com agenda lotada. Nos Estados Unidos, está seduzindo celebridades. A cantora Britney Spears, por exemplo, já fez mais de uma vez para desintoxicar o organismo e recuperar o vigor da pele, desvitalizada por seus constantes excessos. A atriz Demi Moore usou para ter mais energia. A brasileira Fafá de Belém também. “Faço uma vez a cada seis meses. Essa terapia me ajudou a ficar livre de uma raiva antiga que estava dentro de mim e me trouxe fôlego novo”, diz a cantora, que freqüenta a clínica do biomédico Carlos Naldi, em São Paulo.

PAULO JARES/AG. ISTOÉ

“HÁ RISCOS COMO A PERDA DE MINERAIS EM EXCESSO, PERFURAÇÕES E TRANSMISSÃO DE DOENÇAS POR FALTA DE ESTERILIZAÇÃO”
LÚCIA CÂMARA OLIVEIRA, MÉDICA

A higiene do cólon não é novidade. Foi descoberta no Egito há milhares de anos. Atualmente, é indicada sob supervisão médica antes de alguns exames e cirurgias e em casos muito extremos de prisão de ventre. Fora desses limites, a medicina convencional a considera um tratamento superado. “A teoria de que os sintomas da prisão de ventre, como dor de cabeça e fadiga, são provocados pela absorção de toxinas relacionadas com a estagnação das fezes no intestino é ultrapassada. Está provado que eles são causados pela distensão mecânica do cólon”, afirma a médica Lúcia Câmara Oliveira, da Sociedade Brasileira de Coloproctologia. Portanto, não seria o caso de lavar, mas de estimular o funcionamento do órgão com uma dieta mais equilibrada, por exemplo. Segundo a médica, a terapia também não é inofensiva. “Há casos de perda excessiva de minerais (o que pode afetar músculos, como o coração), perfurações do reto e até a transmissão de amebíase por falta de esterilização do equipamento”, afirma. Por causa desses contratempos e da carência de provas científicas a favor do tratamento, muitos médicos estão preocupados com os pacientes que vão às clínicas de colonterapia tratar desconfortos maiores do que a falta de brilho no cabelo, por exemplo. “Gente com dores de cabeça constantes ou cansaço profundo pode ter doenças que precisam ser diagnosticadas antes de fazer a colonterapia. Nesses casos, podem até piorar”, alerta o cardiologista Roberto d´Ávila, vice-presidente do Conselho Federal de Medicina. Ele está à frente de uma avaliação do método que deverá ser concluída pela entidade até setembro.

Difícil é convencer quem teve resultados positivos a ser mais cauteloso. Exemplo disso é o advogado Alberto, de 38 anos, que encarou oito sessões para prevenir novos e doloridos episódios de diverticulite, uma alteração da parede do cólon que leva a inflamações. Ele prefere manter o anonimato porque teme a gozação dos amigos se souberem que fez a terapia. O clínico Almeida, que cuidou do advogado, fez o procedimento de forma complementar ao uso de medicamentos indicado nas crises. Ainda assim, sua atitude foi repreendida pelo gastroenterologista Arnaldo Ganc, professor da Universidade Federal de São Paulo. “A lavagem do cólon não deve ser feita em casos de diverticulite porque pode aumentar e disseminar a infecção. Além disso, o volume de líquidos pode romper áreas frágeis das paredes do órgão, levando bactérias comuns no ambiente intestinal a cair na corrente sangüínea. O paciente teve sorte de não ter outras infecções”, explica. Apesar dos riscos, Alberto se mantém fiel à terapia. “Não tive mais crises e vou fazer de novo”, diz. Um outro aspecto a ser avaliado pelos candidatos à colonterapia é que os resultados não são iguais para todos. O psicoterapeuta Caio Kugelmas, de Ilhabela, no litoral paulista, fez sete sessões consecutivas para recuperar a vitalidade, e se deu mal.

“Minha mulher saiu cheia de energia e parecia até mais jovem, mas eu me senti fraco e deprimido”, conta.