Comportamento

Um é pouco, dois é bom. E três ou quatro?

Como é a rotina de quem tem trigêmeos e quadrigêmeos

ANDRÉ PORTO/AG. ISTOÉ

ADRIANA E SEU QUARTETO Ela ficou de repouso a partir do terceiro mês de gravidez. As crianças, de seis anos, até hoje acordam de madrugada

Dois anos atrás, Paula Maria e Paulo Roberto decidiram ter um bebê. Eles moravam em um apartamento de um quarto e, como queriam incrementar a poupança da família, pretendiam dividi-lo com o neném até ele completar um ano. Paula engravidou e dois meses depois veio a bomba: a cegonha não traria apenas um pimpolho, mas três. Com a notícia, os planos mudaram. O casal foi para um apartamento de três quartos e a avó materna dos bebês foi morar com eles. Hoje, são pais de Renato, Júlia e Lívia, de um ano e oito meses, e não conseguem imaginar a casa sem o trio. “Eles complementam uns aos outros”, diz Paula.

QUASE 500 FRALDAS Só em dezembro, Pedro, Tiago e João, de quatro meses, beberam juntos 60 litros de leite e consumiram mais de 480 fraldas descartáveis

Mais de um bebê ao mesmo tempo torna a rotina da família mais intensa e cheia de provações. Talvez por isso seja para poucos. “Na rua, muitas pessoas nos olham como alienígenas. Quando dizem ‘Deus me livre’, respondo que trigêmeos não são para quem quer, mas para quem pode”, diz Paula. A probabilidade de um casal ser surpreendido por trigêmeos é de um em cada 7.225 partos e por quadrigêmeos, de um em cada 614.125. Quando a gravidez acontece após uma fertilização in vitro, os números mudam, pois o procedimento é realizado com mais de um embrião para aumentar as possibilidade de sucesso. Hoje, a probabilidade de uma mulher engravidar de gêmeos após uma fertilização é de 17%. Se a mãe tem até 35 anos, a chance de ter trigêmeos é de 2%.

A primeira prova de pais de múltiplos costuma ser a própria constatação da gravidez – são gestações de risco pela possibilidade de prematuridade e de complicações. Adriana Afonso e Mário El Rifai, ambos de 43 anos, passaram por isso. Aos 35 anos, Adriana fez um exame de rotina e descobriu que tinha oito miomas no útero. Para retirá-los, teria de passar por uma cirurgia e corria o risco de não poder engravidar. “Queria muito ser mãe, então precisava ter meu filho o quanto antes, para operar depois”, diz. Pela pressa, fez tratamento, uma inseminação e duas fertilizações. Na segunda tentativa, recebeu cinco embriões, dos quais quatro vingaram. “Hoje, com o avanço da tecnologia, colocamos três no máximo”, explica o médico Roger Abdelmassih, que realizou o procedimento em Adriana. A partir do terceiro mês de gravidez, ela precisou de repouso. “Quase não me mexia e tomava banho sentada”, lembra. A quadrilha – como ela diz – veio ao mundo aos seis meses e meio. Mário César, Akeber, Arminda e Mohamad nasceram pesando em torno de 1 kg. Os quatro permaneceram na UTI neonatal por dois meses para ganhar peso, mas não tiveram seqüelas decorrentes do parto prematuro.

LUCIANA WHITAKER/AG. ISTOÉ
UMA CHANCE EM 7.225 Paula engravidou naturalmente de trigêmeos, caso raro na medicina; Paulo tem dois empregos para sustentar a família

Hoje, o casal se diverte com a personalidade dos filhos, de seis anos. “Akeber e Mohamad são mais apegados a mim”, diz Adriana. Ela credita isso ao fato de só os dois terem mamado no peito. “O vínculo foi diferente.” E engana-se quem pensa que, com o tempo, a vida fica mais simples. Eles, que passaram maus bocados quando os pequenos eram recém-nascidos e acordavam várias vezes à noite, ainda recebem a visita dos meninos na madrugada. “Às vezes, as meninas vêm também. Quando acordo, é criança para tudo que é lado”, diz ela.

Para cuidar de múltiplos é preciso que pai e mãe trabalhem em equipe, como a professora Cíntia Romanholi, 30 anos, e o advogado Anderson de Azevedo, 33. Pais de trigêmeos, nascidos após uma fertilização in vitro, o casal acorda às 6h com Pedro, Tiago e João, de quatro meses. Ao levantar, o trio é colocado diante da tevê. Enquanto a mãe dá banho em um de cada vez, o pai prepara as mamadeiras. “Rotina é a palavra-chave, eles fazem tudo juntos e na mesma hora”, diz Cíntia, que tem a ajuda de uma babá durante o dia. Mas, com tantos afazeres, como fica o casamento? Cíntia e Anderson encontraram uma fórmula. Uma vez por semana, o trio vai para a casa dos avós. “É a hora que temos para jantar a dois e namorar”, diz ela. Eles merecem.