Comportamento

Como se estivessem em casa – Parte 2

Pesquisa inédita sobre os asilos brasileiros mostra que, ao contrário do que diz o senso comum, essas instituições podem melhorar a qualidade de vida dos idosos, independentemente da classe social

Como se estivessem em casa – Parte 2

Chaim e Veridiana se conheceram no asilo. Estão namorando há cerca de 1 ano. ()

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LIBERDADE
Hidroginástica no Solar Ville

 

Qual é a saída mais adequada quando a família não dá conta de cuidar sozinha de seu idoso? E quando o idoso não tem família ou não construiu relações sólidas no decorrer da vida? O envelhecimento é uma das maiores conquistas da humanidade e como tal deve ser tratado. O crescimento da proporção de idosos é resultado da combinação de dois fatores: queda da fecundidade e ampliação da longevidade. Somente nos últimos 30 anos, a expectativa de vida aumentou, em média, 10 anos no Brasil. E a quantidade de filhos por mulher caiu pela metade – hoje é de 1,8 filho. Em 1950, o País era o 16º do mundo em número de velhos. As projeções indicam que, até 2025, será o sexto. Por volta de 2035, haverá mais idosos do que crianças e adolescentes.

PARCERIA
Cada vez mais as famílias brasileiras vão precisar de asilos

O processo de envelhecimento está mais avançado nos países ricos, mas tem se dado de forma mais acelerada nos territórios em desenvolvimento. Enquanto a França demorou 115 anos e a Bélgica levou um século para dobrar a proporção de velhos, o Brasil passará por fenômeno semelhante em duas décadas. Para cada grupo de 100 brasileiros, há dez com 60 anos ou mais atualmente. Haverá 19 em 2030 e 30 em 2050. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 25% das famílias já têm um idoso em casa. Histórias felizes vividas em instituições têm sido ouvidas com mais frequência e mostram, assim como os números, o surgimento de um novo cenário para os mais velhos.

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Adriana Ferreira, 80 anos, se diverte cantando

Maria Heloísa Gonzaga Assumpção, 63 anos, vive no Solar Ville Garaude, um hotel cinco-estrelas destinado a pessoas da terceira idade, em Barueri, na Grande São Paulo. “O meu filho e minha nora são maravilhosos. Queriam que eu fosse morar com eles, mas acho que um casal tem de ter privacidade”, diz Maria Heloísa. No Solar Ville, os idosos têm atividades como hidroginástica, ginástica laboral, cinema e coral. Uma equipe de enfermagem fica disponível 24 horas por dia. “É um erro achar que todos os velhos querem morar com a família e que essa é sempre a melhor opção”, afirma a antropóloga Guita Debert, professora da Universidade Estadual de Campinas. Na área central de São Paulo, a prefeitura construiu uma vila só para idosos. São 145 apartamentos. Os moradores podem entrar e sair à hora que quiserem. Levam uma vida normal. Em Avaré, no interior do Estado, o governo ergueu uma vila chamada Dignidade, também voltada para os que têm mais de 60 anos. Nos dois casos, porém, os projetos são para idosos independentes. Embora a legislação defina que a família é a principal responsável pelos idosos dependentes, a realidade revela que o Estado terá de ajudar nessa tarefa. Segundo a OMS, mais de 2,3 milhões de idosos brasileiros têm sérias dificuldades para realizar atividades básicas da vida diária – como se alimentar, tomar banho e ir ao banheiro. Isso significa que, de cada 100 pessoas nessa faixa etária, 11 precisam ser cuidadas. Se a projeção da OMS se confirmar, em 2030, cinco milhões precisarão de auxílio permanente.

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No fim do dia, Bertha leva Theodoro para casa

O dilema é que, à medida que mais brasileiros chegam à terceira idade – com maior probabilidade, portanto, de desenvolver doenças típicas da velhice, como Alzheimer e Parkinson –, o número de potenciais cuidadores diminui. Isso porque, na sociedade moderna, as famílias têm menos filhos e a mulher – historicamente incumbida de cuidar das crianças, do marido quando ele adoece e dos idosos – está inserida no mercado de trabalho. Os múltiplos casamentos e separações tornaram os laços afetivos mais frouxos. Numa relação de 30 anos, o compromisso de uma mulher cuidar do marido é um, numa de cinco anos o compromisso é outro. “Não é por crueldade ou malvadeza que a família põe o seu idoso numa instituição. É muito sofrido e extenuante cuidar de uma pessoa dependente”, afirma o médico Alexandre Kalache, consultor internacional e ex-diretor do Programa de Envelhecimento e Saúde da OMS. “O ser humano tem dificuldades de lidar com a velhice sem saúde. No Brasil, os idosos dependentes são estigmatizados e tratados como se não existissem”, alega a gerontóloga Laura Machado, representante da Associação Internacional de Gerontologia e Geriatria na Organização das Nações Unidas. “Enquanto essa questão for empurrada para debaixo do tapete, o País não conseguirá se planejar para oferecer serviços dignos para essa parcela da população.” Em muitos locais da Europa – como França, Alemanha e nos países escandinavos – os índices de coabitação entre jovens e velhos é baixíssimo.

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Vila dos Idosos

Quem não pode pagar por um asilo privado, em geral, é atendido pelo serviço público. Os países desenvolvidos lidam melhor com esse assunto porque envelheceram antes do Brasil e seus sucessivos governos assumiram a responsabilidade pela população idosa. Os alemães pagam uma espécie de “seguro asilo” para ter uma vaga garantida quando precisarem. Os ingleses podem contar com instituições públicas e modalidades alternativas de atendimento, dependendo da necessidade. Na França, além de asilos públicos e privados, há um leque de serviços oferecidos pelo governo que inclui cuidadores e técnicos em enfermagem. Se um idoso não tem condições, por exemplo, de limpar a casa ou lavar a roupa, paga uma pequena quantia para que um cuidador faça essas tarefas. Se não pode cozinhar, recebe uma quentinha pronta. Se precisa que um curativo seja trocado, tem o auxílio de um profissional. “Nada é de graça. Isso faz muito bem para a autoestima deles”, diz a antropóloga Clarice Peixoto, professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. O governo francês também tem estimulado os “jovens idosos” – aqueles que têm menos de 75 anos – a se envolverem nos cuidados e na socialização dos mais velhos. Ao oferecer alternativas, o Estado desonera os cofres públicos, alivia a pressão sobre as famílias e adia – ou até evita – a entrada dos idosos nos asilos. Um tipo de serviço que deu certo no Exterior foi o dos centros-dia, locais em que os idosos permanecem apenas no período diurno. À noite, eles voltam para casa. “As famílias estão ficando doentes porque não encontram ajuda e não sabem lidar com os dependentes”, diz Edelmar Ulrich, 57 anos, presidente da Associação dos Familiares e Amigos dos Idosos (Afai). A maior parte dos atendidos pela instituição, na zona sul de São Paulo, tem Alzheimer. “Esse lugar foi um achado. Minha mãe tem pouquíssimos momentos de lucidez. Às vezes, pergunta quem sou eu”, afirma Anna Maria de Campos Freire, 68 anos.

Ela leva a mãe à Afai toda manhã, de segunda a sexta-feira, e passa à tarde para apanhá-la. Rachel, 89 anos, canta com o grupo, dança, faz alongamento. Sempre com um sorriso no rosto. Rachel agora passou a dizer que vai se casar com Theodoro Haug, 81 anos, recém-chegado à instituição. Bertha, a mulher dele, não sente ciúme. “Theodoro está adorando vir para cá. Ficou mais calmo, tranquilo”, diz Bertha, 75 anos. Nos últimos tempos, estava complicado segurá-lo em casa. Ele ficava constantemente nervoso e queria ir para a rua. “Às vezes, quando acordamos de manhã, ele pergunta quem sou eu e se sempre durmo naquela cama”, conta Bertha. “É difícil cuidar dele nos fins de semana. Theodoro fica agitado, quer sair, mas eu ando meio doente. Ando muito cansada.” A filosofia dos centros-dia é cuidar do idoso e dar um respiro para a família sem ter de afastá-lo da própria casa. “Eu vim do Japão quando era criança. Cantava tanto que a minha mãe me mandava calar a boca. Eu fazia muito barulho”, diz Michiko Horita, 87 anos. Pouco antes de deixar a Afai, Michiko conta nos dedos. “Estou perto dos 90 anos. É. Não quero ficar caduca.”

 

ENQUANTO ISSO…NO ASILO PÚBLICO

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PRIVACIDADE
Araci, 72 anos, não se dá com companheira de quarto

São 300 histórias de vida. O cotidiano do Abrigo do Cristo Redentor, asilo administrado pelo Estado do Rio de Janeiro, é o retrato 3×4 da velhice brasileira. Ali, o conforto não é como o de instituições privadas. Mesmo assim, os idosos vivem em melhores condições do que teriam do lado de fora. Há pessoas que escolhem morar no Cristo Redentor. Ou que estão lá por falta de opção. Pessoas que foram abandonadas ou que abandonaram a família. Uma delas é Luiz Carlos Cardoso, 74 anos. Ele chegou com a barba na altura do peito, braços e pernas atrofiados pela falta de movimentação. Estava em depressão. “A mentalidade do brasileiro é de que as pessoas vão para asilos porque estão nas últimas. Não é bem assim. Aqui me sinto protegido. É o meu lar”, diz.

O Cristo Redentor é um exemplo de que o poder público precisará ampliar a oferta de vagas, modernizar as instalações e mudar seu conceito de asilo para atender à crescente demanda com o envelhecimento da população brasileira. Uma das questões é garantir a privacidade dos idosos – os banhos e os  dormitórios  nessas instituições, em geral, são coletivos. Araci Alves Martins, 72 anos,divide o quarto com duas companheiras. Com uma delas, não se dá. Outro ponto que precisa melhorar é a agenda de atividades físicas e culturais. Há pouquíssimo entretenimento. O militar da reserva Acelino do Valle, 85 anos, mesmo apoiado numa bengala, conserva a postura dos tempos de quartel. Ele passa horas em silêncio. Não gosta das oficinas de música, poesia e artesanato. “Queria o meu trabalho, mas aqui não tem”, afirma.