Tecnologia & Meio ambiente

Baixado não é roubado?

O download de filmes e séries de tevê como "Lost" esquenta a polêmica sobre a troca de arquivos pirateados pela internet

Baixado não é roubado?

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SEM ESPERA
Cada vez mais fãs de “Lost” baixam a série via Bit Torrent minutos
depois da exibição nos EUA

A cena se repete com cada vez mais frequência em escritórios, salas de aula e comunidades virtuais. Toda quarta-feira de manhã, amigos reúnem-se para discutir as emoções e reviravoltas exibidas no mais recente episódio da série “Lost”, fenômeno de audiência que só faz crescer em popularidade em sua derradeira temporada. Nada incomum, não fosse a redução brutal no tempo de chegada do seriado ao Brasil. Se no passado demorávamos semanas para conhecer os próximos capítulos da saga, agora o intervalo entre a exibição pela rede de tevê americana ABC e o download da série em computadores domésticos praticamente inexiste. Tal revolução, alvo de processos judiciais envolvendo direitos autorais e outras polêmicas, só foi possível graças à tecnologia batizada de Bit Torrent. Em poucas palavras, ela funciona a partir da troca de arquivos – filmes, fotos, músicas, etc. – entre dois internautas, no sistema conhecido como “peer-to- peer” (colega-para-colega). A chave da sua eficiência está no conceito de partilhar algo que já foi descarregado em uma máquina, o que maximiza o desempenho e diminui o tempo gasto em cada download, não importando o número de pessoas que estão fazendo o mesmo simultaneamente.

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“Não desrespeitamos a lei. Os criadores de uma
tecnologia não podem responder pelo seu uso”

Eric Klinker, CEO da Bit Torrent

“A internet fez algo maravilhoso ao deixar o mundo mais igual, forçando grandes corporações a adotar práticas mais amigáveis aos consumidores”, diz Eric Klinker, CEO da empresa batizada com o nome da tecnologia criada em 2003. Ele é um dos palestrantes do Web Expo Forum, um dos principais eventos sobre internet no Brasil, a ser realizado em São Paulo nesta semana, entre os dias 17 e 19. “Nós não desrespeitamos a lei. Há inúmeros precedentes legais, nos Estados Unidos e em outros países, que mostram que os criadores de uma tecnologia não podem ser considerados os responsáveis pelo uso que se faz dela. Isso aconteceu com o VHS e o DVD, por exemplo”, afirma Klinker. Ele fala dos inúmeros piratas que são alvo de processos movidos por gravadoras, distribuidoras de cinema e redes de tevê. De fato, a troca de arquivos na internet é um câncer para negócios cujos modelos foram criados antes da web. Segundo levantamento da Federação Internacional da Indústria Fonográfica, 95% dos downloads de músicas feitos em 2009 foram ilegais – e não geraram receitas para artistas ou seus contratantes.

Quando o assunto são as séries de tevê, essa proporção mudou: enquanto 5,9 milhões de americanos viram a série “Heroes” na tevê em 2009, quase 6,6 milhões de pessoas baixaram seus episódios via Bit Torrent em todo o mundo, o que a coloca no topo do ranking, com “Lost” logo atrás. Para Klinker já está mais do que na hora de as velhas indústrias tirarem proveito da disseminação da tecnologia de troca de arquivos entre usuários. “Ao tornar seus produtos mais acessíveis e ágeis a um número maior de pessoas, seus criadores terão uma audiência cada vez maior, além de mais fãs e interatividade”, diz o executivo. Claro que ele advoga em causa própria, mas é difícil construir argumentos contra um sucesso inegável – e, afinal, dentro da lei.