Comportamento

A água que DORA BRIA não venceu

A atleta, referência mundial no windsurfe, perdeu a vida em um acidente de carro em Minas Gerais

RENATO VELASCO/AG. ISTOÉ

MUSA Loura, olhos verdes, corpo escultural, estampou capas de revistas masculinas

Famosa por enfrentar altas ondas sobre a prancha de windsurfe, a esportista Dora Bria nos últimos meses gastava boa parte de sua energia cruzando a rodovia BR 040, ao volante do carro. Aos 49 anos, ia várias vezes do Rio de Janeiro, onde morava, a Brasília, movida pelo sonho de criar na capital federal uma escolinha para ensinar seu esporte às crianças carentes. Sua tarefa era conseguir patrocinadores para cobrir os custos da empreitada. Na tarde de terça-feira 22, estava mais uma vez na estrada rumo a Brasília quando foi surpreendida por um forte chuva. À altura do quilômetro 256, na cidade mineira de São Gonçalo do Abaeté, o asfalto molhado fez com que perdesse a direção de sua caminhonete Mitsubishi L200. O veículo derrapou, invadiu a pista de sentido contrário e bateu de frente com uma carreta Volvo. O carro de Dora ainda caiu numa pequena ribanceira e ela teve morte instantânea. O primeiro a saber do acidente não foi nenhum membro da família, mas o velejador Lars Grael, que recebeu o telefonema de um funcionário do Instituto Médico Legal mineiro. “Pensei que era trote, não queria acreditar”, disse ele.

Na colisão, o Brasil perdeu uma mulher pioneira, referência mundial no windsurfe. Dora foi a primeira brasileira a disputar o circuito mundial, conquistou o tricampeonato sul-americano, tornou-se hexacampeã brasileira e por quatro anos seguidos esteve entre as cinco melhores do mundo em ondas grandes. “Ela foi uma precursora”, destaca o surfista Rico de Souza, seu amigo. Além de grande atleta, Dora era conhecida por sua beleza. Loura, olhos verdes, corpo escultural, estampou capas de revistas masculinas em 1993 e em 2000. Apesar de ser cobiçada e cultuada como musa, não casou nem teve filhos. “Ficam com pena, como se o fato de uma mulher bonita não ter namorado fosse uma aberração. Eu simplesmente estou bem assim”, desabafou certa vez. Era reservada e seu único par que o público conheceu foi o ator Marcos Palmeira, que namorou em 1998.

ALEXANDRE SANT’ANNA

PAIXÃO Por muitos anos Dora defendeu o Vasco da Gama

Seus pais (o romeno Vasile e a brasileira Dora) já morreram e a família resume-se ao irmão Mauro, de 53 anos, o sobrinho e a cunhada, além de algumas tias. “Ela parecia feliz com as perspectivas de fazer esse trabalho social”, conta Mauro, que falou pela última vez com a irmã 15 dias antes de sua morte. Ele acredita que as condições da pista tenham sido determinantes para o acidente. “Dora conhecia bem aquela estrada, fazia freqüentemente o trajeto”, diz. Mauro e Dora passaram a infância e a adolescência nos bairros do Méier e Tijuca, na zona norte do Rio. Desde pequena, a menina mostrou afinidade com o esporte. Jogava vôlei no Colégio Marista São José e acabou treinando nos clubes Monte Sinai e Tijuca Tênis sem o conhecimento dos pais, que não apreciavam muito as possibilidades de ela abandonar os estudos para se tornar uma atleta. Acabou deixando de lado essa paixão por algum tempo e formou-se em engenharia química pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Depois de formada, passou em um concurso público e, por isso, teria de se mudar para a Bahia. Nessa época, porém, já tinha se apaixonado pelo windsurfe, decidiu continuar no Rio e abandonou definitivamente a carreira profissional para se dedicar ao esporte.

Quando encerrou sua trajetória como esportista profissional, há sete anos, Dora parecia plenamente realizada. Além de dar visibilidade a um esporte que antes dela era praticamente desconhecido, abriu mais um campo para as mulheres competidoras. Sua preocupação nos últimos tempos era usar o windsurfe como instrumento de integração social para crianças carentes. Por muitos anos ela defendeu o Vasco da Gama e por isso foi enterrada na quinta-feira 24 com a bandeira do clube sobre o caixão. O prefeito Cesar Maia já adiantou que batizará com seu nome uma das ruas da cidade. “Ela trabalhou conosco na inclusão social pelo esporte. Além disso, sua beleza exaltava a mulher carioca”, elogiou Maia. Também Lars Grael ressaltou as duas qualidades da amiga: “Era uma musa que tinha muito talento”. Sem ela, o esporte ficou menos bonito.