Eleições 2010

A sucessão passa por Minas

Aécio Neves segue a lição do avô Tancredo e adota a política da convergência: nega ser vice, mas garante que Serra terá os votos do segundo maior eleitorado do País

A sucessão passa por Minas

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DESCOMPASSO
Serra, Itamar, Alencar, Asfor Rocha (presidente do STJ) e Aécio Neves
descem a rampa do novo palácio mineiro: sucessão em marcha

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O ex-presidente Tancredo Neves sempre foi conhecido por ser um político de convergência. Na quinta-feira 4, dia em que Tancredo completaria 100 anos, seu neto, o governador mineiro Aécio Neves (PSDB), deu provas de que aprendeu com o avô a arte de integrar diferentes vertentes do universo político brasileiro. Na inauguração do novo centro administrativo do Estado – uma obra grandiosa projetada por Oscar Niemeyer e orçada em mais de R$ 1 bilhão –, Aécio colocou lado a lado políticos de matizes tão díspares quanto o vice-presidente José Alencar (PR-MG) e o senador Agripino Maia (DEM-RN). Dividiram o mesmo ambiente o presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, e a governadora do Rio Grande do Sul, Yeda Crusius. Parlamentares dos mais diferentes partidos e Estados desembarcaram em Belo Horizonte para prestigiar Aécio e até dois inimigos declarados, o deputado Ciro Gomes (PSB-CE) e o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), dividiram a mesa em um almoço oferecido por Aécio no Palácio da Liberdade. A festa suprapartidária mostrou como teria sido o lançamento da candidatura de Aécio a presidente da República.

Neste que provavelmente foi seu último grande ato público como governador de Minas Gerais, Aécio conseguiu provar ao PSDB a grande capacidade de agregação. Aécio e seus aliados sempre defenderam que ele teria uma capacidade de unir tendências e ideologias distintas em torno de um projeto único como poucos políticos no partido teriam, José Serra em especial. Mesmo negando-se a assumir o posto de vice na chapa que provavelmente será encabeçada pelo governador paulista, Aécio mostrou ao PSDB e seus aliados que as eleições presidenciais passam, de uma forma ou de outra, por Minas, Estado que, desde 1989, sempre escolheu os candidatos a presidente que se saíram vencedores.

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UMA MÃOZINHA
Em Sorocaba (SP), Dilma conta com a ajuda de Serra: nas pesquisas eleitorais,
a ministra sobe, favorecida pela demora do tucano em sair candidato

A data definida por Aécio para dar essa demonstração de força é carregada de simbolismo. Foi no dia 4 de março de 1910 que seu avô, Tancredo Neves, nasceu em São João del Rey (MG). O dia também havia sido escolhido pelo governador mineiro para anunciar oficialmente sua candidatura à Presidência da República, caso o PSDB já tivesse resolvido essa questão. Com a indefinição tucana, Aécio usou a data para tentar mostrar ao partido, e principalmente a Serra, que acredita que seu prestígio político não cabe em uma posição de coadjuvante.

As demonstrações começaram na terça-feira 2, quando em um encontro reservado com Serra no Hotel Meliá, em Brasília, recusou oficialmente o convite feito pelo governador paulista para ser seu vice. Enquanto estava no Congresso participando de uma sessão solene que homenageava o centenário de Tancredo, em Belo Horizonte o jornal “Estado de Minas”, publicava um editorial em sua capa com o título “Minas a reboque, não!” No burburinho do Salão Verde da Câmara, deputados mineiros tentavam recriar sua própria inconfidência pedindo a desistência de Serra para que Aécio assumisse a candidatura tucana. O golpe final veio na cerimônia de inauguração da cidade administrativa. Quando a presença de José Serra foi anunciada, um coro de mais de três mil vozes gritava “Aécio presidente, Aécio presidente”. Durante seu discurso, o governador mineiro, que chamou Serra de amigo, não citou o ocorrido e não fez menção alguma à disputa eleitoral. “Me movo pelos sentimentos de Minas”, disse ele, logo depois a cerimônia. Após o evento, Serra afirmou ao presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE): “As últimas 48 horas poderiam não ter acontecido para mim.”

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Oficialmente, Aécio afirma que será de mais utilidade à campanha de Serra ficando em Minas. Mais do que concorrer a uma vaga no Senado, o governador mineiro terá como principal desafio eleger seu vice-governador, o professor Antônio Anastasia, que teve o nome lançado por Aécio no evento para sucedê-lo. Assim como Dilma, Anastasia tem um perfil muito mais técnico do que político e nunca disputou uma eleição. Aécio sabe que ele terá que dar todo o apoio possível para conseguir fazer o sucessor em uma disputa que promete ser dura e, ainda, incerta. Além do ministro das Comunicações, Hélio Costa (PMDB), ainda pleiteiam a vaga de candidatos ao governo pela aliança PT-PMDB o ministro do Desenvolvimento Social, Patrus Ananias (PT), e o ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel (PT). Correndo por fora segue o vice-presidente José Alencar, que poderia ser o candidato do governo federal se sua saúde permitir. “Ajudo mais o partido estando aqui”, disse Aécio, rechaçando, uma vez mais, a possibilidade de ser vice de Serra. “Já estou ficando rouco de repetir isso.”

Há controvérsias sobre a real capitalização de votos que Aécio poderia obter para Serra. Avaliações internas do próprio PSDB dão conta de que, com Aécio, Serra teria algo como dois pontos percentuais a mais do que tem hoje, levando em conta as últimas pesquisas. Para o cientista político Fábio Wanderlei Reis, é difícil saber se Aécio conseguiria mais votos para Serra como vice ou como candidato ao Senado. “O que sei é que, como candidato ao Senado, o Aécio, na minha opinião, tem mais condições de eleger o seu vice, Anastasia, governador de Minas. Isso sim.”

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NO PÁREO
Em Minas, a prioridade de Aécio é eleger o vice, Anastasia,
que estreia nas urnas, seu sucessor

A desistência enfática de Aécio em ocupar o posto de vice e a demonstração pública de sua capacidade em aglutinar diferentes agentes políticos agravaram uma crise interna no PSDB que já vinha sendo gestada desde o final do ano passado, quando as pesquisas começaram a mostrar a queda de Serra. As divergências internas ficaram ainda mais fortes a partir do último final de semana após a divulgação de que Dilma está a apenas quatro pontos do governador paulista. A insistência de Serra em não oficializar sua candidatura e as consequentes dificuldades em construir alianças – sejam elas estaduais, sejam federais – têm tirado o sono dos caciques tucanos. Na conversa de Serra com parlamentares da bancada do PSDB na quarta-feira 3, em Brasília, um dos mais contundentes foi o senador Álvaro Dias (PSDB-PR). “A base aliada precisa de segurança. Precisamos que a candidatura seja taxativamente confirmada”, cobrou. À ISTOÉ, Sérgio Guerra (PSDB-PE) admitiu que a ansiedade pelo anúncio cabal da candidatura era grande. “Aposto que até o fim da semana não teremos mais dúvidas de que Serra é candidato. Esse é o desejo de todo o PSDB”, disse o senador. Apesar disso, o mais longe que Serra chegou durante a semana foi afirmar que não descartava a hipótese de ser candidato a presidente. Muito pouco para quem está sendo pressionado de forma tão contundente por seus principais aliados.

Embora não se declare oficialmente candidato, Serra já começou a agir como tal. O maior sinal disso seria o fato de vários integrantes de seu governo estarem deixando seus postos para ocupar posições de coordenação na campanha. Para coordenar a parte operacional e administrativa da campanha foi convidado o presidente do Diretório Municipal do PSDB em São Paulo, José Henrique Reis Lobo. Lobo deixará a Secretaria Estadual de Relações Institucionais nesta semana para assumir a nova função na campanha. “Trata-se de um cara organizado e competente”, disse Guerra. Para a elaboração do programa de governo de Serra foram escalados o presidente do Cepam (Centro de Estudos e Pesquisas da Administração Municipal de São Paulo), Felipe Soutello, e o vereador paulistano Floriano Pesaro (PSDB). “O Serra já está anunciando sua candidatura, só que a conta-gotas”, afirmou o deputado José Aníbal, líder do PSDB na Câmara. Na terça-feira 2, Serra adotou um discurso de candidato na inauguração de uma fábrica de automóveis em Sorocaba (SP), à qual estavam presentes Dilma e o presidente Lula. É, sem dúvida, uma sinalização, mas longe de agradar ao partido.

A movimentação de Serra no sentido de ser candidato sem dizer que é candidato lhe confere o direito de tomar sozinho a decisão. Experiente, o governador paulista sabe que, como dizia Magalhães Pinto, a política muda assim como a posição das nuvens. A estratégia de Serra é levar sua decisão até o limite permitido pela lei. Só no final de março ele poderá olhar para o céu e depois dizer se vai mesmo brigar pela sucessão de Lula ou se consolida sua gestão à frente do governo paulista, o que hoje quase ninguém acredita que ocorrerá. Por outro lado, ao demonstrar seu poder de aglutinação política e dizer alto e bom som que não aceita ser segundo lugar em uma chapa, Aécio deixa claro que Minas poderá ainda vir a ocupar o primeiro lugar. Depende de Serra.

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O senador Tasso Jereissati (PSDB-CE), por sua vez, também cotado para ser vice, faz coro de que Serra está demorando demais para assumir uma posição. “Minha preocupação agora é com o candidato a presidente. Como podemos pensar em vice, se ainda não temos um candidato?”