Medicina & Bem-estar

A redescoberta do prazer masculino – Parte 2

Novos remédios, tratamentos à base de células-tronco, terapia genética e reposição hormonal, entre outras opções, ajudam os homens a superar as principais dificuldades na cama e a reencontrar a felicidade no sexo

Os cientistas planejam iniciar os testes em humanos em dois anos. Também nos EUA, um grupo da Universidade da Califórnia investiga a eficácia das células-tronco, capazes de se transformar em qualquer tecido do organismo. Nesse caso, o objetivo é fazer com que elas melhorem as funções do pênis. Para isso, foram aplicadas nos pênis de 22 ratos com lesões vasculares. Depois de três semanas, verificou-se que o fluxo sanguíneo estava melhor e que houve um aumento na fabricação do óxido nítrico. “Os resultados foram encorajadores”, disse à ISTOÉ Maurice Garcia, um dos envolvidos no trabalho. “Agora queremos entender como as células causam esse efeito.” Os pesquisadores da Wake Forest University Baptist Medical Center’s Institute for Regenerative Medicine estão seguindo outra abordagem. Eles estão usando a engenharia de tecidos para refazer o tecido peniano. Primeiro, fizeram crescer células musculares e endoteliais (revestem os vasos sanguíneos) tiradas de cobaias (coelhos). Depois, elas foram colocadas em moldes, posteriormente implantados nos animais. Um mês após o implante, um novo tecido começou a se formar. Nos testes, as cobaias manifestaram ereção normal e fertilidade preservada. “Mais estudos são necessários, mas os resultados mostraram que essa tecnologia tem potencial para o tratamento da disfunção erétil”, afirmou Anthony Atala, diretor do instituto. Há ainda grupos empenhados na criação de tratamentos com terapia genética. Na Universidade de Pittisburgh, o time de Joseph Glorioso, usando cobaias, modificou o conteúdo genético de células do pênis com o objetivo de promover a restauração das conexões nervosas ali presentes, facilitando a transmissão dos dados enviados pelo cérebro. Um mês depois, a melhora era evidente. “Foi uma demonstração de eficácia de um tratamento de longo prazo”, disse Glorioso à ISTOÉ.

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RELAÇÃO
Hélio encontrou outro amor e voltou a sentir desejo

No Mount Sinai School of Medicine e na New York University School of Medicine, cientistas testam, em homens, o poder de uma terapia genética para aumentar a produção de proteínas que relaxam a musculatura peniana para que o órgão se encha mais facilmente de sangue. O método foi aplicado em 20 pacientes. “A técnica mostrou ­eficiência e se revelou segura”, disse à ISTOÉ Arnold Melman, coordenador do estudo. No Brasil, o pesquisador Lanfranco Troncone, do Instituto Butantan, em São Paulo, estuda o poder do veneno da aranha armadeira para melhorar a ereção. A suspeita de que poderia ser eficaz se deu a partir da observação de que um dos efeitos da picada do animal é o priapismo (ereção persistente e dolorosa por algumas horas, com ou sem estímulo sexual). A substância da aranha responsável por esse efeito já foi identificada – chama-se eretina. “Agora, queremos entender como ela age”, diz Troncone. Com base nesse conhecimento, será possível criar uma molécula que permita a ereção. Embora menos incidente do que a disfunção erétil, a ejaculação precoce é outra importante causa de sofrimento masculino. O problema atinge 25% dos homens e caracteriza-se por ejaculação que sempre ou quase sempre ocorre antes ou cerca de um minuto após a penetração. “Neste campo também há boas notícias”, diz a psiquiatra Carmita Abdo, do Hospital das Clínicas de São Paulo. Hoje, uma das armas mais modernas baseia-se no uso de antidepressivos. Há alguns anos, os médicos observaram que um dos efeitos colaterais dessas medicações era justamente o retardo da ejaculação.

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CIÊNCIA
Wroclawski acompanha pesquisas com novas drogas

Depois, aprofundando as investigações, descobriu-se que isso ocorre porque a disfunção parece estar relacionada a desequilíbrios na concentração de serotonina – a mesma substância-chave no desenvolvimento da depressão e sobre a qual atuam também os antidepressivos. De posse desses conhecimentos, o laboratório Janssen acaba de lançar o primeiro remédio específico para ejaculação precoce, a dapoxetina. Por enquanto disponível na Europa e no México, a droga age de forma semelhante aos antidepressivos já utilizados. A principal diferença é que pode ser usada até uma hora antes da relação. “Com isso, esperam-se menos efeitos colaterais, além da menor exposição dos pacientes a medicamentos de uso diário”, explica o urologista Celso Gromatzky. Em testes feitos pelo sexólogo italiano Emmanuele Jannini, da Escola de Sexologia L’Aquila, a droga está se saindo muito bem. Ele acompanha 40 homens, de 30 a 50 anos, que usam o novo remédio. “Houve importante melhora no controle ejaculatório, com aumento do tempo até a ejaculação e consequentes redução da angústia pessoal e elevação do prazer”, disse Jannini à ISTOÉ. Também para esse problema buscam-se estratégias diferentes.

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Nos EUA, a empresa Shionogi Pharma está na fase final de desenvolvimento de um spray tópico a ser aplicado sobre o pênis. Chamado por enquanto de PSD502, o produto pode ser usado apenas cinco minutos antes da relação. Nos estudos clínicos, foi capaz de aumentar o tempo de ejaculação de 0,6 minuto para 3,8 minutos. “Submeteremos o produto para aprovação nos EUA ainda este ano”, informou à ISTOÉ Joseph Schepers, diretor de comunicação corporativa da companhia. Se tudo der certo, a novidade estará disponível no mercado americano no ano que vem. Está claro para os médicos, porém, que todo bom tratamento para impotência, ejaculação precoce ou falta de desejo, por exemplo, necessita ser complementado por apoio psicológico. Até porque sabe-se que uma causa importante dessas condições é o desequilíbrio emocional provocado por circunstâncias que vão do cansaço e stress até insegurança em relação ao desempenho. Em boa parte dos casos, esse fator está presente sozinho ou acompanha alguma limitação física. “Por isso, muitas vezes tomar o remédio só não basta”, explica a terapeuta sexual Fátima Moura, de São Paulo.

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No Rio de Janeiro, o professor de história da arte Hélio Graça Filho, 48 anos, tem um relato exemplar. Ele não tinha nenhum problema orgânico, mas viu a libido cair quando passou por uma crise no casamento. “A química com a parceira acabou e não sentia estímulo para procurá-la”, conta. Os problemas se agravaram até que, em 2005, eles se separaram. Novamente de bem com a vida, conheceu um novo amor, com quem está casado. “Recuperei a auto-estima e o apetite sexual.” Felizmente, hoje proliferam pelo País serviços de ajuda psicológica aos homens ou ao casal. Um deles está instalado na Faculdade de Medicina do ABC, em São Paulo. O trabalho de psicoterapia é feito de forma individual, de casal ou em grupo. “Verificamos como o homem se relaciona consigo mesmo, com sua parceira e com o que está a sua volta”, explica a psicóloga Margareth dos Reis. Os pacientes também recebem orientações sobre como criar um ambiente satisfatório para uma relação de intimidade, por exemplo. No Rio de Janeiro, no centro da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, os pacientes são encaminhados pelos urologistas. Porém, nem todos concordam facilmente em participar. “Quem tem disfunção sexual se isola”, afirma o psiquiatra José Roberto Muniz, coordenador do serviço. “Ele acha que é o único com problemas e sente vergonha de se expor. É preciso vencer isso e procurar ajuda.”

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No entanto, apesar da dificuldade masculina em expressar fragilidades, já é possível avistar o início de uma mudança de comportamento que só trará benefícios: aos poucos – bem aos poucos, é verdade –, eles começam a não ter mais vergonha de falhar ou de não querer fazer sexo. O modelo Alan Malgioglio, 30 anos, por exemplo, já falhou. E, em vez de se sentir constrangido, conversou com a parceira sobre seus medos e sua ansiedade. “Ela entendeu e uma hora depois deu tudo certo.” Hoje, ele namora a produtora de eventos Arielle Alves, 24 anos, e mantém com ela a mesma relação de franqueza. Se não está com vontade, fala. “É preciso entender que o outro pode não estar disponível naquele momento”, diz. Assim, com sinceridade e auxiliado por um imenso arsenal terapêutico a ser usado quando necessário, o homem vai reencontrando seu prazer na cama.

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