Comportamento

O fim do polichinelo

Ao incluir novos esportes como hóquei, escalada e esgrima, as aulas de educação física se renovam e despertam a curiosidade dos alunos

O fim do polichinelo

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PAREDÃO
A Escalada no Colégio Santa Amália, em São Paulo

Eles são pequenos, mas destemidos. Pouco a pouco, vão vencendo o paredão de escalada e deixando o chão para baixo. Ascendem pelas paredes, redes, pulam os obstáculos da corrida e navegam com carta de orientação pela escola para cumprir um roteiro de aventura. Essa cena, há alguns anos, poderia ser considerada “arte” e render uma visita à diretoria. Hoje, é a descrição das aulas de educação física do Colégio Santa Amália, em São Paulo. “Foi um pouco difícil no começo, agora estou fazendo bem. Gosto de esportes de quadra, mas escalada é mais emocionante”, diz Lucas Matsuo Liberal, 10 anos. “Você pensa onde vai pegar, por onde vai passar”, elabora o garoto, que agora se divide entre os esportes verticais e o futebol. As aulas de educação física mudaram muito nos últimos anos. Os maçantes polichinelos são coisa de um passado longínquo. Entre os motivos, estão os benefícios motores e cognitivos de lidar com a variedade e com professores mais especializados. “Trabalho a questão dos desafios, da autoconfiança, da ajuda de um companheiro com os outros. Eles sempre pedem mais, dão ideias”, diz o professor de escalada Luiz Henrique Fleck, pós-graduando em esportes de aventura pelas Faculdades Metropolitanas Unidas.

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ESPADA
O campeão Lucas Macedo (à dir.): esgrima na escola

Mesmo os esportes de quadra tradicionais, como futebol, handebol, basquete e vôlei, hoje disputam espaço com modalidades mais alternativas. No Colégio Estadual Senador Alencar Guimarães, em Curitiba, a rotina foi quebrada com as aulas de hóquei in line. O esporte popular nos Estados Unidos e Canadá foi trazido há três anos para a escola por meio de um patrocínio particular, da CBLTech. A empresa de recuperação de dados queria patrocinar um time e buscou uma escola que tivesse uma quadra adequada para sediar a equipe. “Para eles é uma novidade muito grande, isso incentiva a disciplina. O fato de ser um esporte de contato, de outro país, é estimulante”, afirma a professora Thais Sachs. “Todos os meninos que entraram no treinamento melhoraram suas notas.” No boca a boca, o interesse pelo hóquei cresceu e o time ganhou uma torcida formada por vizinhos e amigos. Outro benefício colateral da renovação da educação física é a divulgação de outras modalidades no país do futebol. No Colégio Magno, além de especialidades mais lúdicas, como artes circenses ou danças, há esportes como a esgrima. Lucas Macedo, 17 anos, começou despretensiosamente. Ele entrou por curiosidade. “Gostava de futebol, mas perdi o interesse e descobri a esgrima.

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SOBRE PATINS
Em Curitiba, a equipe de hóquei melhorou o boletim depois de começar a treinar

Aí comecei a competir pelo Clube Pinheiros e ter resultados”, diz o adolescente, que concilia as rotinas de quatro horas de treino por dia com escola e cursinho. Macedo virou medalhista: conquistou títulos nos campeonatos Brasileiro, Sul- Americano e Pan-Americano de Esgrima. “Não fazia ideia de que iria viajar pelo mundo”, diz Macedo, que está em Israel, para disputar a Copa da Paz. O professor de esgrima da escola, Marcos de Faria Cardoso, tem alunos desde os 6 anos de idade. “Para os menores a aula é bem lúdica, adaptada”, afirma. A esgrima desenvolve força, autoestima e a agilidade na tomada de decisões. “Trabalha características que não existem nos outros esportes. A parte tática, por exemplo, é bastante complexa”, diz Cardoso. A variedade de esportes disponíveis no colégio rendeu medalhas em jiu-jítsu (de Rafael Ozi, 15 anos, em campeonatos internacionais), triatlo (Felipe Tricate, 16 anos, venceu o Troféu Brasil), e escalada (Rafael Takahace, 14 anos, foi campeão paulista em 2009 e vai participar do Campeonato Mundial de Escalada Esportiva, em Edimburgo, na Escócia). A boa notícia é que a tendência abarca também as escolas da rede pública.

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No Estado de São Paulo, as aulas de educação física ganharam modalidades como beisebol, rúgbi (leia quadro), badminton (espécie de peteca com raquete), frisbee (jogo em que um disco plástico é arremessado entre pessoas) e tchoukball (modalidade semelhante à queimada), desde 2008. Com regras e equipamentos bastante desconhecidos do público brasileiro, o Estado elaborou apostilas para alunos e professores. “A proposta hoje é pensar na educação física como uma disciplina que dissemina conhecimentos sobre a cultura de movimento. Isso inclui jogos, esportes, dança, ginástica, luta”, diz Sérgio Roberto Silveira, da equipe técnica de educação física da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo. “O objetivo é oferecer a experiência do maior número de modalidades possível para os alunos terem repertório para praticar, apreciar.” São com estímulos e brincadeiras diferentes que as crianças e os adolescentes, efetivamente, aprendem.