Eleições 2010

De que lado estão os empresários?

Pela primeira vez, capitães da indústria terão que votar em um candidato que defende o aumento do papel do Estado e ninguém está com medo

De que lado estão os empresários?

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GASTOS
Monteiro: “É possível supor que Serra, se eleito, fará uma gestão fiscal mais austera”

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Mais do que a pressa de uns e a demora de outros para entrar na corrida ao Palácio do Planalto, a pré-campanha presidencial tem sido marcada pela ausência de um personagem sempre presente – e forte – no debate eleitoral: a voz dos empresários. O silêncio tem provocado ainda mais espanto porque o primeiro tema a pautar a discussão entre os candidatos favoritos à Presidência, Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB), é justamente a ampliação do papel do Estado na economia, ou seja, a questão que o setor produtivo tem mais apreço. Mesmo depois da divulgação de alguns pontos do futuro programa de governo do PT e de declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre a criação de novas empresas ou ainda após a defesa de Serra de um Estado mais musculoso, nenhuma manifestação de desconforto ou oposição saiu das entidades empresariais. O presidente da Confederação Nacional da Indústria, Armando Monteiro, deputado federal pelo PTB pernambucano, arrisca uma explicação para a inércia.

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“Dizer que o governo Lula foi perfeito não foi, mas sou fã de carteirinha do Lula”
Abilio Diniz, do Grupo Pão de Açúcar

“Os empresários são realistas. Nesta sucessão presidencial, não há um candidato de perfil nitidamente liberal. Não existe esta opção”, afirma. Apesar do clima de conformismo diante desta constatação histórica, o empresariado, segundo Monteiro, está calado porque está seguro de que nenhum dos dois candidatos favoritos nas pesquisas possa promover uma mudança radical no rumo da economia. “É possível supor que Serra, se eleito, fará uma gestão fiscal mais austera. Mas não há temores com nenhum dos dois”, diz. De acordo com Monteiro, é difícil identificar uma posição majoritária a favor de Serra ou de Dilma. Mas, com algum esforço, é possível mapear preferências e reações mais contundentes aqui e ali. No entanto, são posições isoladas. No rol dos prováveis eleitores de Dilma, aparece o presidente do Grupo Pão de Açúcar, Abilio Diniz. “Dizer que o governo Lula foi perfeito, não foi, mas sou fã de carteirinha de Lula”, declarou Diniz. No outro extremo, aparecem remanescentes do discurso tradicional. “O meio empresarial está sendo tolhido”, reclama Alencar Burti, presidente da Associação Comercial de São Paulo, de onde, sob a bandeira do liberalismo, já saíram dois candidatos ao Palácio do Planalto – Paulo Maluf e Afif Domingos, ambos em 1989. Nos bastidores do empresariado, o silêncio é atribuído também à estratégia política do presidente da Federação das Indústrias de São Paulo, Paulo Skaf, de lançar-se na política. Embora na campanha Skaf, filiado ao PSB, possa ser uma voz do setor a favor da reforma tributária, do câmbio e de outras bandeiras, há limites e necessidade de escolhas de palanques.

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“Temo porque estão cerceando nossa liberdade. O meio empresarial está sendo tolhido”
Alencar Burti, presidente da Associação Comercial de São Paulo

Por enquanto, a Fiesp manifesta-se timidamente e, quando o faz, é mais em defesa de suas teses do que em ataques a posições dos candidatos a presidente. “É preciso intensificar e muito a participação da iniciativa privada”, escreveu Ruy Altenfelder, presidente do Instituto de Estudos Avançados da Fiesp, em artigo na “Folha de S. Paulo”. O desempenho do governo Lula é apontado como o motivo maior desta anestesia do empresariado. Desde 2002, o crescimento do papel do Estado significou muito mais uma diminuição do risco para o setor privado do que um avanço sobre o espaço econômico alheio. Grandes empresas entraram em obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) como sócias do empreendimento governamental. A única ressalva, diz um empresário ouvido por ISTOÉ, é o risco de um excesso de regulação no setor de petróleo. Ou seja, o Estado já não assusta tanto.

E, no caso do governo de São Paulo, menos ainda, porque Serra seguiu a cartilha de privatizações do PSDB. “Essa é uma das explicações para a calmaria. Não há tanto medo do Estado porque isso tudo hoje é mais discurso de campanha do que realidade”, afirma Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura e que acompanha os empreendimentos em energia e transporte. A afirmação de Pires faz sentido. Na segunda-feira 8, completam 20 anos que o ex- presidente Fernando Collor assumiu o poder anunciando o Estado mínimo. E acabou deixando a esquerda perplexa e a direita atônita ao abrir abruptamente a economia – coisa que os empresários nunca ouviram do candidato do PRN. Naquela campanha, o então presidente da Fiesp, Mario Amato, fez história com uma ameaça: “Se Lula for eleito, 800 mil empresários vão deixar o País.” Amato temia a estatização e a ampliação do poder sindical. Com Lula no poder, não ocorreu nem uma coisa nem outra. Não porque Lula tenha acabado com a dicotomia capital e trabalho, mas porque o crescimento econômico acabou beneficiando as três pontas do tripé capitalista: Estado, empresa e empregados.

Colaborou Fabiana Guedes