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Faroeste caboclo

Livro reconstitui o dia em que a assembleia de Alagoas foi palco de tiroteio - e morte - entre rivais políticos

Faroeste caboclo

Clique aqui para ler um trecho do livro "Curral da morte"

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COMO A MÁFIA
Sob sol de 40 graus, deputados chegam armados à Assembleia Legislativa em Maceió, em 1957

Um vergonhoso episódio da história política brasileira, emblemático de uma cultura coronelista e violenta em que desavenças familiares e partidárias se resolviam à bala, é agora retratado no livro “Curral da Morte” (Record), do escritor e cineasta Jorge Oliveira, mais conhecido como diretor do premiado documentário “Perdão, Mister Fiel”, sobre a morte do metalúrgico Manuel Fiel Filho durante a ditadura militar. No livro, o autor alagoano presta novamente um serviço à memória nacional ao reconstituir com reportagem, entrevistas e fotos a fatídica sexta- feira 13 de setembro de 1957, em que deputados governistas e de oposição enfrentaram- se com revólveres e metralhadoras na Assembleia Legislativa de Alagoas, em Maceió.

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Essa prepotente amostra de poder daqueles que controlavam a ferro e fogo os seus currais eleitorais – e que nessa data deixaram as vias clandestinas e se instalaram à vontade em recinto oficial – teve como resultado um deputado morto (o governista Humberto Mendes) e dezenas de feridos. Imagens registradas no dia do conflito mostram parlamentares com suas armas mal escondidas sob capas de chuva entrando na Assembleia num início de tarde de sol escaldante. A beligerância era motivada pela votação do impeachment do governador alagoano Muniz Falcão, acusado pelos oposicionistas de tentar encarnar um “Robin Hood nordestino” ao criar novo imposto sobre a produção das oligarquias do açúcar destinado à área social. Falcão não tinha nada de esquerdista, estava mais para o populismo autoritário de Getúlio Vargas ou Juan Domingo Perón, presidente da Argentina.

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O rótulo de “comunista”, no entanto, convinha para unir os correligionários da antiga União Democrática Nacional num movimento golpista que pretendia reconduzir ao poder um político desse partido. Assim armou-se na Assembleia uma guerra com direito a barricada formada com 72 sacos de areia e o disparo de mais de 1,2 mil projéteis. O autor levou três décadas para reunir as informações que agora revela e acredita que o País trocou armas de sangue por corrupção: “Meio século depois, a brutalidade das armas nas discussões políticas deu lugar à suavidade do diálogo do dinheiro público fácil no bolso.”