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Herança maldita

O fracasso de Bush vai além das guerras ou da crise econômica. Ele destruiu o sonho americano

Herança maldita

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MUDANÇA DE CENÁRIO Bush sai de Washington como um dos piores presidentes dos EUA

George W. Bush, o 43o presidente dos Estados Unidos, não tem muitos planos para a manhã da quartafeira 21, quando acordará em seu rancho em Crawford, no Texas. “Desconfio que farei um café para Laura”, comentou Bush, na semana passada, referindo-se à sua mulher, na última entrevista coletiva que concedeu como presidente. De uma coisa, porém, Bush garante estar certo: com o passar do tempo, os historiadores terão uma visão “melhor” dos erros cometidos durante seus dois mandatos na Presidência. Ele próprio minimizou os equívocos, dizendo que “de vez em quando as coisas não aconteceram de acordo com os planos”. O cientista político Clyde Wilcox, especialista em governo americano da Universidade de Georgetown, discorda. “George Bush vai ser lembrado como um de nossos piores presidentes”, afirmou Wilcox à ISTOÉ. “Não o pior, pois Buchanan foi certamente pior”, completou, citando o 15º presidente americano, James Buchanan (1857-1861), cujo governo não conseguiu administrar o conflito entre o norte industrial e abolicionista e o sul agrário e escravocrata.

Bush deixa para Barack Obama duas guerras inconclusas e a maior crise econômica desde a Grande Depressão dos anos 1930. Essa herança maldita, contudo, é apenas a parte mais visível do seu maior fracasso: George W. Bush, na realidade, destruiu os cinco pilares do sonho americano. Para começar, a pátria dos direitos humanos rasgou a própria bandeira ao praticar a tortura. Depois do escândalo internacional da prisão iraquiana de Abu Ghraib, onde soldados americanos torturaram e humilharam prisioneiros, vieram à tona as práticas desumanas do centro de detenção em Guantánamo, na base americana em Cuba. Criado há sete anos, no fervor do combate aos terroristas que deflagraram os ataques de 11 de setembro de 2001, o centro abriga hoje 250 “combatentes ilegais”, sem direito à defesa. Não é à toa que sua desativação está entre as primeiras medidas anunciadas por Obama.

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Na política internacional, o líder do Ocidente se impôs contra os aliados para patrocinar uma guerra, a do Iraque, baseada em uma mentira. Até a semana passada, quando Bush classificou como “um desapontamento significativo” a descoberta de que Saddam Hussein não tinha armas de destruição em massa, essa guerra já havia provocado a morte de mais de quatro mil soldados americanos e de 90 mil civis iraquianos, além de um rombo de cerca de US$ 1 trilhão nos cofres públicos. Outra guerra promovida por Bush, a do Afeganistão, deveria trazer uma resposta rápida aos ataques terroristas de 11 de setembro, mas também encontra-se inconclusa, com a milícia fundamentalista do Talibã reagrupada no Paquistão.

No âmbito interno, a república federativa sucumbiu a uma Presidência hipertrofiada. Esse aumento do poder presidencial é um aspecto do legado de Bush que Obama terá, provavelmente, dificuldade em enfrentar. “Bush garantiu um poder presidencial sem precedentes”, diz o cientista político Wilcox. “A maioria dos democratas e também dos republicanos gostaria que isso mudasse, mas nós estamos enfrentando múltiplas crises e não é tão fácil abrir mão desse poder.”
 

Há ainda outros aspectos da herança de Bush incoerentes com a formação do país. Famosos como a nação dos imigrantes, os Estados Unidos construíram um Muro da Vergonha em sua fronteira com o México, para impedir a imigração ilegal. Depois do 11 de setembro, barraram turistas e empresários nos aeroportos, apenas por sua aparência ou sobrenome. Finalmente, a locomotiva do mundo parou devido à crise econômica. Bush entrega a Obama um país em plena recessão, com o desemprego na casa dos 7,2%. Oito anos depois de chegar à Casa Branca apresentando-se como “um agregador, não um divisor”, Bush deixa Washington na condição de desagregador. “Discordo da avaliação das pessoas que veem os Estados Unidos sob uma luz turva”, defendese ele. Não há dúvida, porém, de que, na sequência de seus dois mandatos, o mundo perdeu a confiança nos Estados Unidos.

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