Economia & Negócios

Capitalismo sem memória

Contra desemprego recorde, empresas querem reduzir jornada e salários sem garantir estabilidade. Mas governo e sindicatos lembram lucros do passado

Capitalismo sem memória

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PRIMEIRA GREVE GM demitiu 744 empregados em sua fábrica de São José dos Campos
e a resposta das centrais foi a paralisação parcial da produção

O Brasil, segundo a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), ainda é o país mais resistente aos efeitos da crise financeira internacional. Embora os sinais de desaquecimento estejam mais evidentes, o relatório mensal da OCDE, grupo dos 30 países mais ricos do planeta, concede à economia brasileira um certo fôlego antes de cruzar a linha da recessão. O mercado, de acordo com a pesquisa Focus, também empresta ao País o crédito de uma previsão de crescimento de 2% do PIB em 2009. Mas boa parte das grandes empresas decidiu que a crise já é uma doença a demandar medicamentos de tarja preta. Esta semana, a Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp) quase convenceu a Força Sindical a aceitar uma redução de salários e de jornada de trabalho como único remédio contra o desemprego.

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Pela primeira vez, capital e trabalho poderiam usufruir de uma medida extrema prevista na Constituição de 1988 – encolher a jornada e os salários mediante acordo coletivo. No entanto, antes que houvesse qualquer entendimento, a General Motors anunciou na segunda-feira 12 a demissão de 744 empregados temporários de sua fábrica em São José dos Campos. A decisão da GM deixou explícito que o tratamento prescrito pelas empresas poderia agravar a doença porque a garantia de estabilidade estava fora do acordo. O ministro do Trabalho, Carlos Lupi, reagiu e condicionou a transferência de recursos do FAT e do FGTS à contrapartida de manutenção dos empregos. “Tem empresário esperto forçando a mão nos lucros”, disse Lupi ao jornal O Estado de S. Paulo.

Sem estabilidade, a Força Sindical perdeu qualquer chance de convencer outras cinco centrais e se viu obrigada a deixar a mesa de negociação por 10 dias. “A crise está sendo usada para manter margens de lucro, precisamos abrir os dados das empresas e tratar caso por caso”, afirmou o presidente da CUT, Artur Henrique. Segundo o presidente da Fiesp, Paulo Skaf, a estabilidade engessaria a economia. “E nós não queremos andar para trás”, disse. Mas o que governo e sindicatos querem é convencer os empresários de que existe passado no capitalismo. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem repetido a toada de que os lucros recorde de 2006 e 2007 devem ser levados em conta. Esta é a proposta que a CUT apresentará ao Palácio do Planalto em reunião das centrais marcada para a segunda-feira 19. A CUT quer que as empresas ofereçam um percentual do lucro que tiveram em 2008 para um fundo de sustentação do emprego no primeiro trimestre.

“Há um longo caminho até aceitar a redução de salário”, disse Henrique. Segundo ele, os ganhos de produtividade da última década devem ser lembrados e postos na mesa. Em 1990, de acordo com a pesquisa industrial do IBGE, um trabalhador produzia 100 unidades de produto e hoje, com o mesmo tempo trabalhado, produz 213. A participação da massa salarial no PIB em 1990 era de 45% para empregados, 7% para autônomos e 15% para impostos. Em uma década, essas proporções passaram, respectivamente, para 36%, 5% e 17%, enquanto a participação do excedente nacional bruto (lucros) saiu de 33% para 43%.

As centrais preferem, agora, brigar por outras medidas, como a diminuição de impostos (já que o governo também se apropriou do ganho de produtividade), desoneração da folha de salários, ampliação do crédito e redução das taxas de juros e do spread bancário. Uma pauta semelhante à do empresariado. Lula promete anunciar até o fim deste mês medidas de combate ao desemprego. No entanto, até o fim da semana, quem pode dar uma notícia mais eficiente para gerar emprego é o Banco Central. O Comitê de Política Monetária (Copom) se reúne na quarta-feira 21 e, segundo economistas de várias vertentes, tem todos os motivos para reduzir a taxa Selic, hoje em 13,75%.

Números não faltam. A inflação de janeiro foi de -0,85% (IGP-10). Em novembro, desapareceram 40,8 mil vagas. O desemprego subiu em dezembro e é o pior da história, com um corte de mais de 650 mil vagas. O setor da indústria demitiu mais, contrariando a lógica sazonal, quando o comércio lidera as demissões de fim de ano. Consultorias começam a suspeitar de uma recessão técnica. É isso que está convencendo sindicalistas, governo, empresários e economistas de que a melhor receita para o desemprego é ousar na queda dos juros. A aposta é de um corte de até 0,5 ponto percentual. “Se o País exagerar nos estímulos ao crescimento, o déficit nas contas correntes cresce, o que, diante da queda dos ingressos de capitais, leva a uma depreciação cambial ainda maior, elevando a inflação. Mas isso não impede quedas prudentes de juros reais”, defende Affonso Celso Pastore, ex-presidente do BC.

Outro ex-comandante da política monetária, Gustavo Franco pediu “coragem” ao BC. “Não há risco de inflação alta porque nós estamos num quadro de recessão forte na economia global que atinge o Brasil de chofre”, disse o ex-ministro Luiz Carlos Bresser Pereira. Em palestra na Fundação Getulio Vargas, o chileno Gabriel Palma também defendeu corte agressivo dos juros e lembrou que as altas taxas foram fundamentais para explicar como a economia mundial ficou assim: “Não podemos esquecer que este era um instrumento para este modelo de capitalismo que chegou a este ponto porque criou uma economia que só toma, não dá.”

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