Comportamento

A outra face do médico das estrelas

Roger Abdelmassih é acusado por 40 ex-pacientes de molestá-las em sua clínica

A outra face do médico das estrelas

 

Sedada depois de ter se submetido a um procedimento de retirada de óvulos para uma fertilização in vitro, a empresária sul-mato-grossense Ivanilde Vieira Serebrenic recuperava-se em uma sala da clínica de reprodução humana mais conhecida do País, liderada pelo médico Roger Abdelmassih, em São Paulo. Deitada em uma maca, ao abrir os olhos, o sonho de Ivanilde de se tornar mãe deu lugar a um pesadelo que a acompanha até hoje, dez anos depois do episódio.

"Acordando, ainda grogue, vi que eu estava com o pênis do doutor na mão. Tentei me levantar, cheguei a sentar na maca. Aí, o dr. Roger abaixou o jaleco, disse ‘calma, calma, calma’ e saiu da sala", conta ela, que estava com 34 anos, na época. "Fui chorando ao encontro do meu marido, que aguardava na recepção da clínica."

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Acusado O médico nega as denúncias de assédio

Ivanilde, que hoje é presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo (Sincopetro) do Estado de São Paulo, relatou com exclusividade à ISTOÉ que, meses antes desse episódio, foi assediada outras duas vezes pelo médico: uma após uma pequena cirurgia e outra em uma tentativa anterior de fertilização, todas em 1999 (leia depoimento ao lado). Como a empresária, cerca de 40 mulheres procuraram o Ministério Público e disseram ter sido molestadas por Abdelmassih em sua clínica. Elas têm entre 30 e 40 anos, são de pelo menos seis Estados diferentes e contaram histórias semelhantes.

Todas foram encaminhadas à 1ª Delegacia de Defesa da Mulher da capital paulista, onde a delegada Celi Paulino Carlota prepara o inquérito sob segredo de Justiça. Por intermédio de seu advogado, Adriano Vanni, Abdelmassih nega veementemente todas as acusações. Em nota, ele disse: "Confio nos trâmites da Justiça e tenho a certeza de que estará nela a minha resposta."

Diferentemente das outras ex-pacientes que disseram ter sofrido abusos do médico, a empresária sul-matogrossense, hoje com 44 anos, teve a coragem de revelar sua identidade antes de relatar o caso às autoridades, o que deverá acontecer na segundafeira 19. Ivanilde, que conseguiu engravidar após procurar outro centro de reprodução assistida, apresentará ainda os documentos – aos quais ISTOÉ teve acesso e possui cópias – que comprovam o tratamento na clínica do médico. "O dr. Roger se valeu da força física e da sedação para molestar suas pacientes. Mas a investigação deve se estender para outras práticas do médico", diz o promotor do Ministério Público Luiz Henrique Dal Poz.

Ele e os colegas Roberto Porto e José Reinaldo Carneiro, todos do Gaeco, um grupo especial de combate ao crime organizado, passaram a investigar Abdelmassih, no início do ano passado, a partir da denúncia de Cristiane da Silva Oliveira, uma exfuncionária da clínica dele que diz ter sido assediada pelo ex-patrão e tentou chantageá-lo. Uso indevido de óvulos e manipulação gênica supostamente feitos por Abdelmassih também estão sob a mira das autoridades. Suspeita-se ainda que funcionários, como o filho do médico, o ginecologista Vicente, sabiam das práticas escusas que ocorriam ali dentro. "Em uma investigação, você começa apurando uma história e vão aparecendo outras", diz Dal Poz.

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denúncia A empresária Ivanilde Vieira diz ter sido molestada enquanto estava sedada

"Era um final de tarde. Eu e meu marido fechamos um pacote com três tentativas de fertilização por cerca de R$ 32 mil, em 1999, com o próprio Roger Abdelmassih. No mesmo dia, colhi sangue e fiz um ultrassom intravaginal. O exame apontou um problema em uma das minhas trompas. Marcamos a cirurgia para uma semana depois. Dias após a operação, voltei na clínica para a retirada de um ponto no umbigo No procedimento, ele sangrou, tive muita dor e entrei chorando na sala do dr. Roger. Enquanto me consolava, ele dizia: ‘Você é uma paciente, está em um momento delicado da vida.’ Ele me abraçou e, enquanto eu chorava, tentou me beijar.

Como eu estava com batom vermelho, virei o rosto e manchei o jaleco dele. Saí da sala e fui embora sozinha. Meu marido estava viajando, na época. Parei em um posto de gasolina e fui ao banheiro. O cheiro do dr. não saía de mim, aquele cheiro de éter. Como já tinha pago o pacote de fertilizações, havia feito uma operação para a retirada da trompa, optei por iniciar o tratamento. Voltei à clínica quase dois meses depois. Lá, fui sedada e meus óvulos foram retirados para serem fecundados. Encaminhada para uma sala de recuperação, acordei com o dr. Roger apalpando os meus seios. Meio sonolenta, pensei: ‘Acho que estou sonhando, não é real, é coisa da minha cabeça.’ Meu marido estava me aguardando na clínica e fomos embora, numa boa. Mas fiquei com aquilo na cabeça, com medo de falar para qualquer um. Achava que eu tinha ficado com trauma por ele já ter tentado me beijar. Não engravidei nessa primeira tentativa de fertilização.

Como tinha mais duas, retornei à clínica 50 dias depois. E fui molestada no mesmo processo. Acordando da sedação, ainda grogue, vi que eu estava com o pênis dele na mão. Ele viu que eu havia despertado, tentei me levantar, cheguei a sentar na maca. Aí, o dr. Roger abaixou o jaleco, disse ‘calma, calma, calma’, e saiu da sala. Saí na sequência, e não o vi mais ali na clínica. Fui chorando ao encontro do meu marido, que estava na recepção. Ele me perguntou o que tinha acontecido e eu disse: ‘Tá doendo’. Mais tarde, meu marido até ligou na clínica pedindo algum medicamento para a dor. Mas eu teria de voltar na clínica para fazer a transferência (quando o embrião fecundado é implantado no útero da mulher), para pegar meu filho, claro. Bom, fui e fiz a transferência. Voltei para casa e aguardei dez dias para ver se dava certo. Não deu. Aí, eu fiquei mal.

Estava irritada, muito gorda de tanto hormônio, com colesterol alto. Foi quando, em casa, disse ao meu marido que não queria mais ser mãe, que a experiência que tive com o dr. Roger estava acabando com meu físico e emocional. E contei para ele o abuso. Ele ficou revoltado, pensou em denunciar, mas não fizemos isso. Fui para um spa para emagrecer, quis ficar sozinha. Tempos depois consegui ter três filhos com a ajuda de um outro especialista em fertilização."

 O centro de reprodução humana assistida do urologista Roger Abdelmassih é um dos mais modernos da América Latina. Em 20 anos de funcionamento, gerou 7.500 bebês, graças ao trabalho desenvolvido pelo médico ali dentro. Aos 65 anos, um dos pioneiros da fertilização in vitro do País, Abdelmassih investe todo ano US$ 1 milhão em pesquisas científicas para manter o alto índice de sucesso de gestações.

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HOLOFOTES Na clínica do médico foram gerados os filhos da atriz Luiza Tomé e de Pelé

Suas fotos sorrindo ao lado de clientes famosos, como o ex-presidente da República Fernando Collor de Mello, o ex-jogador Pelé e a atriz Luiza Tomé, mostram que o dinheiro investido lhe trouxe popularidade e uma boa conta bancária. Na clínica, são feitas mais de mil fertilizações anuais. Um pacote com três tentativas custa R$ 38 mil. "Ele é afetivo. Vai ver que elas não entenderam direito. Será que não é delírio dessas mulheres, até um desejo oculto?", diz Luiza Tomé.

Mas, segundo as ex-pacientes, fora dos holofotes e sempre amparado pela segurança das salas de seu consultório, o médico simpático mostrava outra personalidade. Outras pessoas também reclamaram das práticas de Abdelmassih ao Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp). No órgão, até 2007, havia 14 processos contra o médico por abuso sexual e manipulação gênica, a maioria arquivada por falta de provas.

Na segunda-feira 12, à noite, segundo um delegado do Cremesp, o presidente do órgão, Henrique Carlos Gonçalves, convocou uma reunião com conselheiros e diretores e pediu para que eles impetrassem um mandado no órgão pedindo a suspensão temporária do registro médico de Abdelmassih. Mais: disse que assinaria a suspensão sozinho, se preciso fosse, mesmo se não tivesse o apoio dos colegas. "São muitas mulheres (abusadas sexualmente). É um indício fortíssimo de culpa", disse Gonçalves, após tomar conhecimento da investigação policial.

O presidente do órgão foi procurado, mas foi o seu vice, Renato Azevedo Júnior, quem retornou as ligações de ISTOÉ. Ele negou a reunião. "E desconheço – não quer dizer que não existiram – os 14 processos", disse ele. Oficialmente, o Cremesp já advertiu o papa da fertilização in vitro do País por concluir que houve infração ao código de ética médica por relacionamentos indevidos dele com laboratórios farmacêuticos e farmácias.

Ao ser confrontado com o depoimento das ex-pacientes, Abdelmassih terá muito o que explicar. Outras duas vítimas ouvidas por ISTOÉ e que não quiseram se identificar aguardam ansiosamente por esse dia. A engenheira Andréa (nome fictício), 45 anos, diz que em 1997, por volta das 19h, Abdelmassih a acuou contra a estante de uma das salas da clínica. "Fui indo para trás, ele me pegou e começou a me beijar. De repente, o filho dele, Vicente, bateu à porta", conta Andréa, que não engravidou e foi uma das primeiras a relatar o caso ao MP. "Saí correndo passando por baixo do braço do dr. Roger. Para mim, o filho dele sabia das histórias todas e foi lá me salvar."

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"Ele se favorece da fragilidade e do sonho delas de ser mãe"
Ronaldo, marido de uma ex-paciente

Já o advogado paulista Ronaldo, (nome fictício), 47 anos, conta que sua esposa, a publicitária Márcia, 42 anos, acordou da anestesia na clínica de Abdelmassih, após a retirada dos óvulos, e viu o médico com a genitália para fora da calça, dizendo: "Me beija, me beija, me beija." Márcia, que fez uma tentativa e não engravidou em 2004, só revelou o fato ao marido um ano depois. "É dramático, porque ela tomou injeção na barriga, sofreu o abuso e sabia que o filho ainda estava na clínica. Por isso, ela quis retornar lá para que o embrião fosse implantado em seu útero", diz Ronaldo. E completa: "O dr. Roger sabe e usa desse artifício. É médico, fica por dentro das histórias mais íntimas das pacientes e se favorece da fragilidade e do sonho delas de ser mãe."