Cultura

Um desfile de vaidades

A futilidade e o glamour do mundo fashion chegam às telas com o filme O diabo veste Prada

Roupas estonteantes de alguns milhares de dólares ganhas. Estilistas internacionalmente famosos falando freneticamente ao celular. Uma assistente, claro que não poderia faltar uma competente e ágil assistente, providenciando para a chefe um jatinho no meio da noite e exigindo as provas de impressão da nova aventura de Harry Potter para que suas filhas leiam no avião antes de o livro chegar às livrarias. Tudo isso que cerca a poderosa editora de moda do filme O diabo veste Prada, em cartaz nacional na sexta-feira 22, parece ficção hollywoodiana. Mas é pura realidade – e quem freqüenta o mundo da moda sabe que aquilo que é mostrado nessa deliciosa comédia dramática de David Frankel (baseada no best-seller homônimo de Lauren Weisberg) acontece de verdade. “Gosto da história porque retrata a indústria da moda com verdade. Rola tudo aquilo mesmo”, diz Erika Palomino, editora de moda do site que leva seu nome e da revista Key. Não é para menos. Ao longo de um ano, Lauren foi assistente de Anna Wintour, a temida e rigorosa editora de moda da revista Vogue americana. A experiência serviu como base para descrever no filme a autoritária Miranda Priestly (interpretada com elegância e ironia pela atriz Meryl Streep), editora da fictícia revista Runaway, e sua assistente Andrea Sachs (vivida por Anne Hathaway). Lauren não assume com todas as letras que buscou inspiração na ex-chefe. Mas a consultora de moda Emanuela Carvalho, que trabalhou como estagiária e assistente de moda da New York Magazine, confirma que vaidade e futilidade são como linha e agulha no chamado mundo fashion – ou seja, companheiras inseparáveis. “Nós, que vivemos nesse meio da moda, conhecemos muitas histórias sobre Anna Wintour. O livro certamente foi inspirado nela.”

Entre algumas demonstrações de arrogância, a diretora da Vogue sempre exibiu, por exemplo, a idiossincrasia de trancar vestidos exclusivos e outras peças de uma estação do ano no departamento de arquivo da revista para que nenhuma concorrente pudesse fotografá-los. “Lembro que no meio de uma sessão de fotos faltava um par de botas de pele pink do estilista Manolo Blahnik. Minha diretora, Jade Hobson, pegou o telefone e teve de implorar para Anna liberar o calçado”, diz Emanuela. Deixar as salas de desfiles da concorrida semana de moda em Paris porque as apresentações estavam alguns minutos atrasadas é um comportamento até que aceitável para alguém na posição de Anna Wintour. Mas ela chegava ao extremo de proibir que as pessoas olhassem em sua direção quando dividia com elas o mesmo elevador. Detalhe: a editora de moda de O diabo veste Prada tem o mesmo comportamento.

Os chiliques e as crises de autoritarismo de Meryl Streep, que não se cansa de repetir que na vida real a sua cabeça é ocupada “com coisas mais interessantes e mais úteis que os trajes que estão no guarda-roupa”, divertem o público masculino. Já o corte impecável dos modelos que veste e a classe com que os desfila causam suspiros (e, vá lá, uma ponta de inveja) na platéia feminina. São os fabulosos figurinos usados tanto por ela quanto pela sua assistente que roubam a cena do filme – e mais uma vez, também nisso, o frufru do filme empata com o da vida real. A garota comum se contamina com o novo universo e começa a usar as grifes caras tiradas do guarda-roupa da Runaway. A consultora Emanuela endossa: “O que me salvava na época em que trabalhava em Nova York eram os bazares que as grifes promoviam para a imprensa. Comprei bolsa Fendi e carteira Dolce & Gabbana por US$ 50. Era uma forma de andar chique, já que o salário era pouco.” E, nesse campo, o chique, seja ele o que for, é tudo. “Moda é glamour. E o glamour é o que move e excita esse mundo”, diz ela.