Cultura

Marilyn desnudada

Exposição em Paris mostra as últimas fotos sensuais de Marilyn Monroe pouco antes de sua morte

A atriz americana Marilyn Monroe tinha de usar óculos de leitura na sua vida fora das telas e só conseguia pregar os olhos depois de se perfumar com algumas gotas de Chanel nº 5 e ingerir comprimidos para dormir. Isso já se leu nos inúmeros livros e reportagens que foram escritos a seu respeito. O que poucos, muito poucos, sabiam é que Marilyn Monroe, um dos maiores mitos de sensualidade que o cinema já produziu, tinha uma grande cicatriz no ventre, herança de uma simples cirurgia de vesícula. O risco na pele de porcelana que encantou multidões em todo o mundo agora está lá, bem visível, em algumas das 59 fotos que compõem a mostra Marilyn ? última sessão, em cartaz no Museu Maillol, em Paris (até o dia 30 de outubro). Outras imperfeições dessa deusa estão sendo também reveladas, como, por exemplo, as sardas datadas da infância e que eram cuidadosamente camufladas com maquiagem quando ela aparecia publicamente. Mais: Marilyn, vê-se nessa mostra que reúne as suas últimas fotos sensuais feitas pouco antes de sua morte em 1962, tinha os ossos um pouco angulosos. Essas imagens que estão expostas nasceram nos últimos ensaios fotográficos aos quais a ?blonde bombshell? se submeteu antes de morrer, aos 36 anos ? Marilyn, aliás, nem teve tempo de aprová-las. Suicidou-se 24 horas antes de os closes mágicos e sensuais ganharem publicidade em uma edição da revista Vogue americana. Sempre que um mito do cinema ou da literatura falece, procura-se buscar em uma última imagem ou em um último texto algo que prenunciasse o falecimento. É o que se pode definir como a nostalgia dos fãs e, geralmente, se vêem sinais de tragédia em detalhes que, normalmente, não significariam nada. No caso de Marilyn Monroe, porém, algumas fotos denunciam a depressão e a desorganização que assolavam a sua vida interior e exterior ? são mesmo um prenúncio do fim ao mostrarem a atriz dormindo em uma cama de hotel e tendo a sua volta sapatos jogados pelos cantos, copos de champanhe e uma garrafa de Chateau Lafite, safra 1955, derramada pelo chão. Ela estava embriagada. Em termos cinematográficos, campo no qual ela tanto nos encantou e nos seduziu, só faltou o telefone fora do gancho para completar o cenário da tragédia. Essa é a última imagem das 2.571 fotos que o americano Bert Stern fez da atriz no hotel Bel-Air de Los Angeles. Ao se dar por satisfeito, ele teria dito aos assistentes, cabeleireiros e maquiadores: ?Acabou. Ela dorme. Vou dar uma volta.? Foram duas sessões de ensaios fotográficos intermináveis que totalizaram 12 horas. Na primeira, Stern propôs a Marilyn que ela posasse nua ? sem nenhum artifício, só com a luz coada das janelas da suíte do hotel. Ela aceitou, mas atrasou cinco horas para chegar ao local marcado. Em contrapartida, levou apenas 15 minutos para ser convencida a se desnudar. Na segunda sessão, algumas semanas depois, ela foi clicada vestida porque a Vogue mudara de idéia e não queria mais o grande mito do cinema tão à vontade. Já tendo ganho a confiança da modelo, terminado o trabalho Stern prosseguiu em sua investida. Para tranqüilizá-la a respeito da cicatriz, usou o exemplo de Elizabeth Taylor, que acabara de fotografar no set de Cleópatra, em Roma: ela havia deixado visível a marca no pescoço. A única vez que Marilyn se desnudara diante dos flashes fora na década de 50, para Tom Kelley, nos famosos ângulos daquele calendário cujo destino não foram as oficinas mecânicas. Quem não se lembra da loira dourada sobre o lençol vermelho de cetim? Os retratos de Stern não ficam nada a dever a essa imagem, especialmente na série em que ela brinca com um lenço listrado, tecido generosamente em cores e em transparência ? principalmente em transparência. Ao longo dos anos, Stern guardou os negativos como deveriam ser guardados, ou seja, como um tesouro. Em 1982, ele cedeu 59 fotos para um museu dos EUA. Mais tarde, colocou todo o lote à venda na tradicional casa de leilões Sotheby?s. Quem adquiriu o acervo foi o colecionador americano Leon Constatiner, e é ele quem agora empresta a um museu parisiense, pela primeira vez, essas preciosas cinco dezenas de imagens. Na mais reveladora seqüência de fotografias, Marilyn esconde os seios em rosas de gaze amarelas e violetas, deixando à vista a cicatriz horizontal em seu vente. A atriz parece não se incomodar nem um pouco com a revelação, justamente ela que foi transformada em ícone e imagem intocada pela indústria do cinema. Ao contrário, pode-se imaginar que Marilyn, num exibicionismo um tanto perverso, vingava-se da roda-viva hollywoodiana: mostrar-se dessa forma era mais que reclamar uma humanidade, era desnudar o processo de desumanização de que fora vítima. Nessas imagens, a única parte de seu corpo que parece protegida são os olhos, sempre com grossa camada de rímel preto. O efeito fazia dos olhos de Marilyn duas amêndoas de desejo ? e de carência, por que não? Marilyn queria ser amada como mulher de carne e osso, como pessoa, e isso já foi dito por muita gente. Ironia das ironias é o fato de ela continuar sendo adorada pelas multidões como mito ? multidões que agora a vêem congelada em poses sedutoras e melancólicas. 2.571 é o total de fotos que Bert Stern fez de Marilyn em 12 horas de trabalho